Interlúdio - O Que Vai Ser?

 “Querido diário, eu não sei o que foi aquilo. Tudo foi tão rápido e assustador que me fez questionar de tantas formas do porquê de aquilo ter acontecido… Lembre-me da sensação; da angústia e do medo quando ele saiu. A conversa do lado de fora havia sido algo terrível, mas quando ele voltou… tudo pareceu piorar.”

“Aquele sorriso calmo, aquela feição falsa; aquele olho roxo, aquela vontade de partir para cima de mim… Não era ele; não parecia ele. O Lucas não era assim, ao menos eu nunca vi ele assim, mas… por quê? Qual foi o motivo daquilo tudo?”

Eu queria lembrar do que se passou na minha cabeça naquela hora… mas as únicas coisas que eu me lembro foi como aquela noite terminou.


Interlúdio

Intitulado de “O Que Vai Ser?”

Olá, pequenino… Me escute: a vovó estará ocupada por um tempo, e por conta disso terei que pegar seu lugar nesta longa narrativa… Não se preocupe, eu não serei tão dramática, apenas serei um pouco mais… realista sobre tudo que aconteceu. E isso inclui tudo que aconteceu com Akira e comigo… Dito isso… pronto? Vamos começar…


Bom, é um pouco difícil dizer tudo que aconteceu naquela noite, principalmente por toda aquela euforia que tomara conta do quarto e de mim depois de tudo que ele tentou fazer. O Lucas não era uma pessoa burra, sabia muito bem o que e como aquilo poderia prejudicar ele, mas mesmo assim o fez como remorso. Isso era o que mais me deixava com raiva e medo sobre aquela situação, e mesmo assim não poderia — ou não conseguia — fazer nada…

Aquela briga toda do lado de fora foi algo tenso; não havia como não ter escutado, e mesmo assim Lucas entrou no quarto como se nada tivesse acontecido… Aquela exclamação, aquele jeito de agir, tudo estava indicando perigo… Mas era claro que antiga e esperançosa Emily queria acreditar na própria versão do seu Conto De Fadas…

Não importava, era ida sem volta para os dois naquele quarto. Tudo que restava era somente uma longa, longa noite de discussão, brigas, decepções e desejos…

Mais uma vez, lembro-me de tudo, principalmente do que ele disse após sua volta… e do que eu disso após sua volta.

Oi, eu voltei…!

S-sai da minha frente, Lucas…

O quê?

Lucas… eu não vou fazer isso. Eu me RECUSO a isso… S-sai minha frente… me deixa sair… Me deixa passar.

Ah, Emy… qualé? Isso tudo por nada? Sério, não precisa desse drama todo, ele não sabe que…

Lu-Lucas… eu ouvi o que você disse… eu não tô nem aí pra isso… O que foi aquilo? Eu pensava que… Lucas, eu… Eu sou apenas um objeto para você, é isso?

O quê?! Não, não! Você ouviu errado, eu não…

Eu já não pensava, eu tinha certeza. Certeza que ele iria fazer de tudo para me fazer acreditar que estava errada; e naquela hora ele já havia conseguido. Minha última tentativa foi pegar a primeira coisa que vi, que neste caso era um perfume — o meu perfume que dei para ele —, e quebrá-lo para… tentar me defender de forma patética.

CRASHY!

Emy…? Isso é… o perfume que… Por quê?

Me responde Lucas… eu sou apenas um objeto para você? É isso? O que você disse pro Akira é realmente verdade?!

Emily, larga isso. Vamos conversar civilizadamente.

Não até você me responder… Não até você me explicar o que foi aquilo alí fora… Não até…

Emily…

Ah, sim… Aquilo era minha tentativa de escape, mas mal sabia eu que o Lucas me conhecia melhor do que qualquer um; mas mal sabia eu que ele conhecia onde estava a chave daquele quarto. No seu bolso,

Strink!

… Larga isso ou você não sai desse quarto. A gente tem que conversar sobre agora, não é? Então tá… a gente vai conversar sobre isso.

Lucas… eu não quero te machucar.

E não vai, você nem consegue. Você não vai fazer nada… Me escuta, isso tudo foi só um mal entendi, tá bom? Por que não esquecemos isso e… voltamos para…

NÃO, NÃO, NÃO! EU NÃO VOU FAZER NADA DEPOIS DE TUDO AQUILO QUE EU OUVI! Qual é seu problema agora?! Por qual razão você tá insistindo tanto nisso?! Lucas, não adianta… eu ouvi a convers…

Ai, Deus… Emily, até onde você ouviu essa droga? Eu não quero meter que me explicar pra você…

O necessário. Eu ouvi só o necessário.

Merda… Olha, me escuta… a noite foi longa, cheia de confusão e muitas outras coisas… Você só… tá confundindo tudo, sabe? Em momento algum eu quis te machucar…

Olha meu braço, Lucas… Olha isso; olha meu estado… como não? Me diz, como não?! Você me jogou naquela cama a força, se você não tivesse saído eu… Eu… Argh!

Lucas respirou fundo. Naquela hora ele sabia exatamente o que poderia acontecer naquele quarto; e eram poucas possibilidades para falar a verdade… Ele poderia só partir para cima de mim e continuar o que queria; ele sabia que eu não teria força para impedir ele; que estava assustada demais para fazer qualquer coisa; que eu era fraca comparado a ele… Ele poderia só me deixar sair e nunca mais me ver por conta daquilo, mas… não, ele não iria fazer isso… Ele não ia me perder, ele não podia me perder…

E por fim, ele tinha sempre uma terceira opção, mesmo que ela fosse golpe baixo para mim.

— Emily, você quer mesmo que isso acabe? Você quer que nossa primeira briga de casal seja sobre isso?! Olha para mim, o Akira me socou, e você ainda quer fazer essa noite ficar pior? É serio que você vai ficar com drama agora? Depois disso tudo você ainda…

Não… eu não… Para com isso… Eu ouvi a conversa, eu ouvi o que você disse sobre mim; sobre ele, sobre a festa… Lucas, isso me assusta… Eu não quero… Lucas, se afasta… por fav…

Não… eu não vou… Emily, abaixa isso… Você sabe muito bem que se tentar voltar para lá ninguém vai te aceitar… Eu sou tudo que você tem agora, e você sabe disso… Você precisa de mim…

Ele sabia como me conduzir ao que queria, e eu era burra por querer ouvir ele…

É isso ou voltar a ser importunada por todo mundo dessa escola… Você sabe que não tem ninguém que te ama mais que eu… Eu te dei tudo; te dei carinho, amor, atenção… e você me retribui desse jeito?

E o que isso muda? Lucas, você tentou me… Você me machucou, tentou tirar minhas roupas contra minha vontade… Você sabe o que é isso? Sabe o quão eu tó morrendo de medo de você por conta disso?

Medo de mim? Emy… eu só quero ficar próximo de você, por que eu te amo, Emily… Você é tudo que eu sempre quis, é tudo que preciso… E você sabe disso, você sente o mesmo, não é? Me diz, por acaso o Rafael te fazia rir tanto quanto eu? Emily, isso só foi algo…

Você tentou me… Você quis me… Lucas… Não, por favor, não deixa isso mais difícil para mim.

Não… eu não quis nada, Emily… Sabe por quê? Por que eu sei que você também queria…

Eu não… queria aquilo; eu não quero isso…

Aquele sorriso, aquela ansiedade na suas veias… Emy, eu te conheço bem, nsei que queria aquilo mais que eu…

Eu não… não…

Você que começou com isso, lembra? Você que me puxou para aquele térreo isolado no meio da madrugada… Você queria isso deste sempre, não é?

E-eu…

Ahn… Saco… isso me fez perder a vontade de qualquer coisa… Tudo bem, você não quer isso, não é?! Não quer isso agora, não é? Que tal isso, a gente esquece essa briga boba, você descansa e a gente deixa nossa diversão para outro dia…? Parece uma boa, não acha?

Lucas, isso não muda nada… nada…

Ah, Deus… Emily, me escuta. Isso muda muita coisa… Você quer que eu seja franco? Eu me forcei a fazer isso mais do que você acha… acredita em mim, vai… Eu tó falando serio; ninguém nesse lugar vai cuidar de você melhor do que eu… Não vem com essa. Você não consegue citar uma pessoa se quer.

O Rafael… ele ajuda todo mundo de lá… ele me ajudaria.

— Ele já te protegeu? Ele arruma as confusões por você? Não. Ele só pensa na própria vida, Emily.

O Luis… ele me acalmaria…

Maconheiro? É por isso que você quer me trocar?

Matheus, ele…

Ahn… o viadinho? Sério? Emily, não tem ninguém que te queria lá… Você só ia ser usada como…

O… Akira… Ele viu esse mesmo você que eu to vendo agora… Ele… me ajudaria… Eu… tenho certeza.

Eu e minha boca solta… Nunca havia visto aquele garoto mudar de expressão tão rápida… Lucas ficou com raiva; era claro o motivo disso, era claro que ele havia feito mais uma amizade acabar por conta de mim.

Ele ficou quieto, apenas processando o que eu dissera com tanta facilidade. Mesmo assim, mal vi ele quando, de repente, se aproximou de mim e arrancou aquele pote quebrado de perfume de minhas mãos… Mais uma vez, ele me segurou, mais uma vez ele olhou em meus olhos… Ali era o momento certo para acabar com tudo, ele sabia muito bem que poderia fazer o que quisesse, mas… ele não queria saborear uma vitória amarga como aquelas.

Lucas me encarou enquanto segura meu pulso com força, e mesmo sabendo que aquilo doía, ele não fez questão de diminuir a intensidade daquilo. Olhou em meus olhos com suas pulpilas cheias de raiva, e, da forma mais sincera possível…

Você realmente quer dificultar as coisas? Okay… A gente vai seguir a minha ideia… Você vai sair desse quarto, já que é isso que você quer; você vai até seu quarto e vai dormir direto, já que era essa sua ideia… Você não fala com ninguém, não diz o que aconteceu aqui para ninguém, e você não pensa em ninguém além de mim antes de dormi… Você vai esquecer aquele idiota, vai esperar estamos prontos, e quando eu dizer que estamos não vai recusar… se recusar, eu faço suas escolhas por você…

Seu… Eu não vou…

Emily, você não tem escolha, não adianta o quão tente… Tá feliz agora? Era isso que queria ouvir? Então você ganhou o que queria, mas não vai ter a mesma escolha que o Akira teve ali fora… Pelo contrário, eu vou fazer o que eu bem-quiser quando quiser com você… Eu só não acabo com isso aqui por conta que minha noite já foi pro caralho, e se fosse para eu foder com alguém, que seja ao menos com a vida daquele xereta de merda… Eu vou fazer o que eu quiser e quando eu quiser… e você não vai fazer nada além de aceita… Entendeu, amor?

Lucas… isso tá doendo… me… solta!

Entendeu, meu amor?!

Argh! S-sim…

Então repete… Vai, Emily… O Que Vai Ser? Você vai ouvir seu namorado, aquele que você escolheu e que só quer o seu bem… Ou um aleatório que apareceu do nada nessa escola? Hein… o que vai ser? REPETE O QUE VAI SER, EMILY!

Ele sabia como me assustar; ele sabia exatamente como me fazer ter medo. Infelizmente isso era mais eficaz do que eu queria; aquilo não era uma ameaça qualquer, era uma promessa, e eu sabia que se não concordassem com ele seria pior…

Eu não queria acabar como o Dimitri, e eu não queria chorar mais do que eu já estava naquela hora… Tudo que eu tinha para fazer era aceitar Ele era forte, e eu era só mais uma qualquer.

Eu… Snif… vou sair do quarto… Snif, snif… E só dormir… Mais… Snif… nada…

Exatamente… Boa garota. Viu como não é difícil me ouvir? _Sei o que é certo para você… Que tal assim, sem mais fingir… eu vou ser só eu mesmo a partir daqui… Cansei de forçar, sabe? Tomara que isso não te incomode, mas… Eu vou continua desse jeito, por mim e por você.

Naquele momento eu me senti destruída. Não tem forma melhor de descrever a sensação que senti; foi apenas uma explosão do meu ser e alma que não sabia o que dizer… Lucas me tinha em suas mãos, e eu não tinha coragem de descer delas.

Ele só queria me usar, e provavelmente isso era desdo começo de tudo entre nós dois.

Ele me abraçou depois disso; para ele um abraço de amor, reconciliação, bondade e segurança… Para mim, um aperto que demarcou o fim de tudo que tinha até então.

Durante o abraço, Lucas se aproximou de meus ouvidos, e como quem sabia que eu não faria nada por medo, disse da forma mais tenebrosa possível…

Você é minha… Só minha… Vou escolher cada coisa para você agora, e você não vai fazer nada além de aceitar isso… Tudo bem? Deixa que… cuido dos seus problemas para você, meu amor… Estarei de olho em você para sempre a partir de agora.

Depois disso… ele me soltou, se virou e andou até a porta; abriu ela, e com um sorriso sádico em minha direção, me deu espaço para saí…

Eu poderia ter corrido, ter ido para diretória, gritado por ajuda ou ter ligado para o Rubert, mas… eu só obedeci ele ccovardemente.

Algo me dizia que ele estava me observando, assim como fez com Akira durante a briga na cantina, e eu sabia que se desobedece aquilo tudo iria ficar ainda pior… Eu já estava assustada, não queria que nada mais acontecesse, então… deixei o medo me levar. Aceitei que aquilo havia acontecido e… aceitei que tinha me apaixonado por uma farsa.

Quando cheguei ao meu quarto me senti pressionada. Não conseguia dormir. A voz dele me assombrava; o olhar dele; o sorriso… tudo me fez querer chorar, me fez querer sumir… mas tudo que pude fazer foi me levantar e começar a escrever no meu velho diário…

Ele não fez nada hoje… mas e amanhã? Afinal… por qual motivo ele não fez nada? Eu só queria ter entendido isso… Eu estava com o tempo contado para aquilo se repetir, e eu sabia disso… Mas por qual razão ele só terminou com essa minha angústia logo? Por qual razão ele me deixaria maluca por conta das suas ações? Por que… ele havia só se monstrado do nada?

Se eu tivesse visto isso antes, mesmo que uma vez, teria repensado sobre tudo que já escolhi na vida… No fim, Rafael sempre esteve certo… Talvez fosse por desinteresse, ou quem sabe por que queria me ver sofrer com aquilo… Era somente um joguinho para ele, e eu era, infelizmente, o único peão que até agora não sabia a identidade de seu rei.

De qualquer forma, a noite ia ser longa — tinha muito o que escrever ainda —, e minha vida depois daquilo também…

Fim do Interlúdio.