Conto 1 - O País Das Maravilhas
É um pouco hipócrita dizer que tudo que acontecia em Bonfire rodava em torno de Lucas, Akira e os outros, certo? Afinal, tantos alunos claramente carregariam histórias distintas uns dos outros… então, por que não dar uma olhada nisso? A vovó não deu tanta importância para o básico, que neste caso era… a própria escola. Então, pequenino, que tal darmos uma olhada nisso antes de voltarmos ao que importa? Eu juro que vai ser legal.
Bonfire é um lugar grande e, definitivamente, cheio de história paralelas… Pequenos contos, na verdade, do dia a dia de cada aluno do lugar. Ironicamente, de alguma forma, esses contos conseguiam dar vida aquele lugar morto… e alguns conseguiam expandir outros de formas inimagináveis… No fim, eles sozinhos eram apenas contos, porém juntos eram uma grande história ligada por fragmentos.
Dito isso…
Conto 1
Intitulado de “O País Das Maravilhas.”
Para todo aluno de Bonfire, sempre haverá uma coisa que invadirá o cotidiano dele e destruirá cada plano que o mesmo possa ter. Essas eram as tão famigeradas classificações.
Cinder's, Ember's, Spark's e Flame's…
Ninguém sabe ao certo como ou quando elas começaram a ser usadas, mas, ao menos, se sabe o mínimo sobre cada uma delas. É simples, uma hierarquia disfarçada como fases de uma fogueira… No topo estão as chamas que queimam sem dó; em baixo as cinzas mortas que já deixaram de brilhar… Em baixo estão os que não fizeram nada e que não são importantes para Liz; no topo estão os que fizeram o inimaginável e… que não são importantes para Liz. Flinn era um deles; estava no topo desde que se encontrou naquele lugar. Sem dó, cometeu adultério e… algo que Liz se recusa a deixar público. Por conta disso, ele se tornou uma figura popular para o grupo dos Flame's, e em adição a isso, tornou-se o principal quando o assunto era ser o servente do País Das Maravilhas.
Bem, o que é isso, você me pergunta? Digamos que… uma espécie de “open bar” clandestino no terceiro andar que os Flame's, Spark’s e alguns Ember's frequentam em horários vagos… É, eu sei, essa provavelmente é a coisa mais louca que possa existir em um lugar como este; mas ele também não é uma maravilha como dizem por aí… “Open bar” é só uma forma chique que criaram para definir aquele lugar; na verdade, em grande resumo, estava mais para um grande clube aonde se fala besteira sem ligar para punições. Bebidas nunca foram o foco, mesmo que tenham muitas por lá; na maioria do tempo sempre haverá alguém só falando asneira ou jogando algo para passar o tempo… No fim, era só um lugarzinho onde o pessoal se reunia vez ou outra para fazer algo sem medo de ser pegos por Liz ou algum segurança.
O País Das Maravilhas foi criado em um quarto abandonado; alguns Flame's descobririam o lugar e, lentamente, tornaram aquele recinto em um verdadeiro paraíso para um repouso aos olhos deles… mas claro que sem contar a Liz ou qualquer outro responsável. Pouco a pouco o lugar ficou famoso entre alguns alunos e, por conta disso, a necessidade de criar algumas regras também surgiu por conta daquela “fama” que o lugar recebeu. Não era nada fora do padrão, na verdade, era só o que todos já sabiam…
Em primeiro lugar, sem bebidas alcoólatras… em momentos normais, nos especiais tanta faz… É autoexplicativo, mas… os Flame's não são burros, e eles sabem que alguém bêbado naquele lugar poderia criar uma confusão enorme e acabar com o lugar para sempre… Flinn sempre cuidava disso, como o ótimo barman que era; ele separa cada garrafa — ou caixinha de suco — em lugares escondidos para evitar essas confusões. É aquilo: o pessoal poderia até ser maluco, mas não seriam burros mais uma vez. Já houve muitas brigas por algo bobo naquele lugar, e Flinn teve que arrumar cada uma delas sozinho, então… ele já estava preparado para qualquer coisa… Literalmente, ele é um Flame, ele já viu de tudo e faria de tudo para esconder e proteger seu “trabalho”.
Além disso, não pense que era um lugar chique ou algo do tipo; no máximo aquele pequeno quartinho era robusto e organizado, mas… nada de extravagante; nem em móveis ou em bebidas.
Serio mesmo, o próprio álcool que tinha lá era algo escasso; só Deus sabe de onde eles arrumavam aquilo… No máximo que você acharia em um dia comum era um amontoado de sucos diversos… nada mais.
Cof, cof… Ainda assim, tinha mais uma coisa que era importante ter em mente sobre aquele lugar…
Em segundo lugar, não se fala do País Das Maravilhas fora do País Das Maravilhas… Mais uma vez, autoexplicativo. Não preciso dizer as razões, certo? Todos sabiam que se Liz soubesse sobre aquele lugar tudo estaria acabado… Flinn fazia de tudo para manter o lugar sigilo, mesmo que precisasse dar alguns corretivos aqui e ali… e mesmo que esses corretivos fossem um pouco agressivos. Aquele era um dos únicos locais de paz dos alunos, então, caso ele sumisse, tudo voltaria a ser feito da forma antiga… e não queira saber como era antigamente.
Fora toda essa maluquice que era ter um open bar em um internato como Bonfire, era ainda mais maluco pensar que aquele era um dos lugares mais normais e sem brigas da escola… Talvez por conta da monitoração que o lugar tinha, ou somente por… ser uma das “zonas seguras” da escola.
Tudo bem… o que isso tudo implica no final das contas? Bom… Flinn vivia naquele lugar o dia todo praticamente, e por conta disso, ele vivia recebendo os mais diversos “clientes” e histórias… e são essas histórias que interessam… para nos, e para ele.
㈫
O dia já havia começado a um bom tempo; o terceiro andar já não estava a bagunça de hoje cedo, e Flinn amava essa calmaria. Era bom poder ser o primeiro a chegar no paraíso, mas, ao mesmo tempo, era ruim ter que ser o único para arrumar a bagunça do dia passado… Alcatran não apareceu até agora; Alphonse devia estar em um encontro com Elianor; só Deus sabe no que o Mark se meteu hoje… No fim, era realmente só com Flinn naquele dia.
— Quanta bagunça. Afrain… como você consegue bagunçar essa porcaria toda?
Era um trabalho chato, mas que Flinn fazia sem nenhuma reclamação. Aquela era sua “terapia” pessoal, e como ele estava naquele lugar parar melhorar como pessoa, era provavelmente a coisa mais sensata que seguia a ideia da escola que ele fazia sem reclamar…
— É difícil jogar a droga da caixinha na lixeira, Sally? Ela fica do lado da mesa… qualé, eu vou ter que pedir pro Rafael trazer mais de Sunny ou o quê?
Era simples: chegar no lugar, pegar uma vassoura e alguns sacos de lixo e pronto… o resto era historia já morta pela noite anterior. Caso Liz entrasse naquele lugar, pelo menos era bom ele estar limpo… higiene era uma das únicas coisas que aquela mulher ligava de verdade, e isso em partes.
— Luny… mesa não é lugar pra escrever, cacete… Compra um caderno logo.
Hoje ia ser um pouco diferente do normal; Flinn recebeu uma informação no primeiro horário que, em partes, o alegrou bastante… Hoje era dia da saideira dos Cinder's; e o que isso significava para Flinn? Bom, simples… o dia ia ser calmo, os corredores do terceiro andar ainda mais…
Por alguma razão inexplicável, Flame's e Cinder's sempre tiveram uma ótima convivência… Rafael sempre tentou manter seu corredor em ordem, e como bom líder que era, conseguia convencer até mesmo os mais cascas pesadas do lugar. Quer dizer, não era para tanto, meio que os Flame's não tinham tanta escolha assim. Não eram eles que escolhiam o andar que moravam… Mas de qualquer forma, por que se importa com isso? Todos os Cinder's eram gente boa, não havia razão para começar uma briga com aquele pessoal.
Enfim, a notícia chegou em Flinn despretensiosamente; Luna apenas jogou ela nas mãos do garoto e disse “se vira”; e era isso que ele ia fazer. Infelizmente, era claro que isso também tinha suas partes ruins… afinal, aquele corredor estar limpo de “gentalha” significava que, naquele dia, teria uma enxurrada de convidados mais do que especiais…
É bizarro dizer isso depois do que citei acima, mas… por alguma razão, sempre eram os “de nível baixo” que começavam alguma briga com os “de nível intermediário”. Logo, era simples: naquele dia não haveria briga. Flinn agradeceu por isso, mas ainda assim ficou atento… ninguém sabe quando uma bomba pode estourar, certo?
— Droga… aquele puto pegou o álcool daqui sem me consultar? Tá que pariu… Se eu te pego eu te desço o cacete, Luke.
De qualquer forma! Depois de uma longa limpeza o lugar estava finalmente limpo… e não iria demorar muito para os primeiro cliente chegarem no lugar. Por conta disso, Flinn nem pensou muito; assim que acabou seu trabalho, foi direto para o “balcão” e apenas esperou a mágica aconteceu… e não demorou muito para isso, foi só o tempo do sinal sinalizar o segundo horário e pronto.
Segundo horário… O Rei e A Rainha.
Flinn teve certeza que aquele dia ia ser único quando logo de cara viu o casal perfeito entrar pela velha e quebrada porta do lugar. Quem você pensa que eram? Lucas e Emily? Luna e Vlad? Akira e Elliot…? Não… eram somente os dois amentes de fantasia mais malucos dessa escola… Literalmente, não era preciso ver eles de frente para reconhecê-los; era só dar uma olhada naquelas coroas de papel que você já sabia quem eram.
— Ora, ora… Bem-vindos ao País Das Maravilhas, o lugar onde…
— Corta essa, Flinn, a gente não é criança pra brincar disso.
— Mas pra brinca de rei e rainha são. Alguém tem que manter classe aqui, não é? Hunf… Bom dia, Henryke. Bom dia, Luciela.
— É Lucy, babaca, eu já falei isso.
Ah, sim… o que dizer sobre esses dois? Flinn os conhecia bem, começou a conversar com eles desde que chegou no lugar… Henryke, O Rei, era apenas o que Flinn chamava de “plebeu de sorte”. Na verdade, todos o chamavam desse jeito; ao contrário dos outros demais, quase todos os Flame's se glorificavam por conta de seus atos, e Henry não seria diferente… Ele era somente um engomadinho qualquer que teve a sorte de surtar para cima da sua família inteira, e de resto mais nada. Não importa o que ele falasse, Henry, mesmo por matar quase todos da sua família, era o mais zombado entre todos os outros Flame's… Mesmo assim, ele continuava na posição de rei invicto.
— O que vai ser, meu rei? — indagava Flinn após Henryke e Luciela sentarem em alguns dos banquinhos que tinham ali. — A gente tá meio escasso hoje, a festa de ontem ferrou meu estoque.
— Uva, por favor… — respondeu o rei. — um bom vinho para começar o dia!
Sweep!
— Aí… agora, meu troco. Vai, o que andaram aprontando hoje?
— Ah, sabe como é, né? Nada de novo… no máximo…
— O Ricky chamou ele para uma briga. — comentou Luciela de relance. — E passa um de laranja.
— Oh, oh! Tudo bem… tudo bem… mas eu vou querer saber melhor disso, tá legal?
Sweep!
O que falar de Luciela? Ou melhor, de Lucy? Reservada; comportada; durona e traumatizada por algo que a mesma se recusa a dizer até mesmo para Liz… Bom, se tinha algo certo era seu título: A Rainha era algo que casou com ela desde que chegou no colégio… O que ela fez para estar aqui? Bom, nada de mais… somente… desaparecer com quatro pessoas diferentes em uma prova tática que aconteceu em Dearth… Além disso, fez um tal de Jacob ser encontrado quase do avesso em cima de uma colina; colina essa que fazia parte de um simples jogo de “capture a bandeira”.
É… ela era uma Flame no final das contas… tinha que ter algo deste tipo.
Ao contrário do seu queridinho, ela era respeitada por todos do grupo. Não havia ninguém que descordasse da sua posição e, além disso, de seu modo de agir sobre… ela mesma.
— Aí está… Vai, me conta… que briga de reis é essa?
— Deus… Lucy! Por que você…
— Quer que eu resuma? O Ricky ainda quer me pegar… só isso. — disse a rainha, bebendo um pouco do seu suco. — Tipo, qualé… os homens desse colégio são todos iguais… não conseguem ver uma mulher no controle e querem tomar o poder dela… Aquele merdinha do Luke ou… Lucas, sei lá o nome dessa praga… ele, sim, é um bom exemplo disso. Tava até de picuinha até hoje cedo, pelo visto.
— Pera, eu sou igual a eles?
— Você é burro, Henry, por isso gosto de você. Acho quase impossível você virar algo como o Ricky ou o Alph,
— E-ba?
— Caramba… vocês continuam sendo estranhos, sabiam? Deus… vem cá, e vai ficar nisso? Não vai revidar nem nada? Vira homem, Henry! Cadê o seu espirito de luta?
— Qualé, Flinn, você sabe que eu não posso… Outra advertencia e eu vou ter que limpar a sala do Rubert. Eu não quero isso.
— Poxa… aproveita e pega o dinheiro que aquele velho me deve. Qualé, serio mesmo, por que você não…
— Flinn, cuida dos teus homens que eu cuido do meu, beleza? — retrucou Lucy. — Você incentivando briga também estranho… Você sabe que isso só ia ferrar a gente… Coletividade, esqueceu, bundão?
— Só tó dizendo que uma briga pode ajudar; e ela pode muito bem ser só verbal… Mas tá… mais alguma coisa? Ah! O que você quis dizer sobre o Luke tá de picuinha? Quer dizer… qual a da vez?
— Nem terminamos o que a gente pediu… se aquieta, homem.
— Só fala, vai… sabe que sou curioso… Além disso, foram só duas bebidas e uma história! Cadê meu pagamento desse suco de laranja, senhorita?
— Bem…
— Tava tendo briga no primeiro andar hoje cedo. Faço a menor ideia de quem era, mas… tava feio. É tudo que eu sei, eu e o Henry tava indo pra sala na hora; a única coisa que deu para ouvir foi a voz do loirinho.
— Só isso? Merda. Odeio quem começa a historia e não consegue terminar…
Bom… era isso; não havia mais nada de tão fantástico naquela conversa… eram somente aqueles dois em uma de várias situações bobas como a de hoje… Ninguém sabe ao certo como eles haviam começado o relacionamento; ninguém sabia se aquilo era realmente um relacionamento. De alguma forma, aqueles dois eram até que feitos um para o outro e, ao contrário de alguns outros casais por aí, eram o pico da saúde mental naquele lugar… mas claro que desconsiderando as ideias macabras que Lucy dava e que Henry só seguia…
De resto, nada. Depois do suco, o casal apenas saiu; o lugar já estava ficando cheio quando isso aconteceu, e por conta disso, era claro duas coisa…
O intervalo havia começado e… o pessoal havia começado a chegar com tudo no paraíso. Com isso, logo mais um outro alguém surgiria…
— Uuuaaauuu! Esse lugar nem parece o mesmo de ontem… O que você andou fazendo aqui?!
— _O de sempre… limpando suas cagadas. Eai, vai querer o que, Afrain?
Intervalo… O Palhaço.
Flinn não era a pessoa mais interativa do mundo, ao contrário de Afrain, que falava o que queria, quando queria e por que queria como forma de piada… Não leve ele a mal, ao menos alguém tinha que tentar ser engraçado em um lugar como aquele. E mesmo que suas piadas não fossem boas, as suas histórias eram…
Sweep!
— Te contar que tu fez estrago aqui ontem, viu? Tive que limpar uma penca de coisa…
— Hehe… mals ai! Eu me empolguei um pouco, sabe como é, né?
— Não. Eu não sei e nunca vou saber… Vai, qual as novas?
— Bom~… fiquei sabendo de algumas briguinhas novas pelos corredores… quer ouvir?
— Sim e claro, esse é meu trabalho.
— Eheh! Tá, se liga… Lembra daquele coitadinho miserável que chegou a um tempo aqui e que ficou amiguinho logo de cara com o Luke? Então~…
— O Mark falou sobre ele… Akira, eu acho… O que tem? Não me diz que aquele puto do Luke fez ele fazer alguma merda…
— Não! O Luke não fez nada… quer dizer, eu acho… Hoje cedo falaram que os dois discutiram nos corredores… Irado, né? Pelo visto temos o novo Dimitri! Ele pareceu um pouco arrogante e… rebelde~!
— Respeita velha guarda, babaca… Quer mesmo comparar ele com o Dim? Contra outra, aquele muleque me parece um qualquer. Mas, o que teve nessa briga? Soco, sangue, tiro… o quê? Meio que já tava sabendo disso, só que em partes. A Lucy e o Henry não me explicaram esse trem direito.
— Bom… eu não tava lá, mas… pelo que disseram, o Akiki falou umas merdas e… o loirinho ficou tooodo molenga… Sabe como é, né? “Ain, ain… mais uma vez alguém me odiando… unhê, unhê!”… Esse tipo de coisa que você sabe sobre ele.
— Hunf… Quem tá sendo o culpado dessa vez?
— Tem dúvidas?
— Não… foi retorico. Mas alguma coisa que eu deva saber?
— Bom… bem provável que eles vão parar de se falar; pelo que deu pra entender, o Akiki acabou falando com o Rafael ontem também, então… a casa caiu mais uma vez para o senhor carinha perfeita!
— Esse garoto não sabe mesmo manter uma amizade nesse lugar.
— Amizade onde? Você sabe o porquê ele fica indo atrás dos novatos~!
— É, você tem razão. Mas, tanto faz… Eai? Mais alguma coisa?
— Ah! Me dá um suquinho de maça, a Cassidy tá querendo um…
— Beleza, diz pra ela que eu vou querer as respostas da prova da atividade de química como pagamento.
— Fechado~!
Bom… era obvio que aquele também seria um lugar de fofocas; ele não era tão eficaz, mas todo tipo de coisa que acontecia na escola era citado naquele lugar… Afrain era um fofoqueiro nato; sua comédia divina foi baseada em chantagem e muitas outras coisas que o levaram para Bonfire. Além disso, ele era um dos vários alunos que nem ligavam para a ideia de reabilitação. Tudo no seu dia a dia se baseava em se divertir naquele lugar e não ser pego para não ter que ficar mais um ano naquele lugar…
De um tempo para cá, Flinn notara que O Palhaço havia ficado sem piadas… talvez fosse o tempo, ou quem sabe a irmãzinha que tentou seguir os passos do irmão e se meteu na mesma furada que ele. Não importava tanto, Afrain era uma figura comum na escola; era fácil ver ele por aí ainda tentando manter o título, e Flinn sabia que seu amigo poderia fazer isso se quisesse. Bastava esforço.
No fim, mais uma vez, seu cliente teve que sair. Mais uma vez, seu tempo passou. Mais uma… na verdade, não. Era terceiro horário já… não era como se alguém fosse aparecer depois daquele dia, certo…?
Terceiro horário… O Cara-Metade e O Cego.
Nah, era mentira… tinha tempo para mais alguém sim.
Algumas pessoas estavam matando aula na cara dura; o País Das Maravilhas continuava em pé e a todo vapor… mas claro que não da forma que Flinn queria. O pessoal estava jogando baralho; jogando conversa no ar, se xingando e mais do mesmo. Flinn já estava até ficando com sono, todavia, estava com um bom pressentimento… afinal, aquele dia não poderia acabar de uma forma tão boba. Qualé, era quase de noite e nada? Nenhuma historia realmente boa ou a continuação da briga do Luke? Isso não poderia ficar assim.
㈫
**Tick, tack… tick, tack… Ah, como era horrível ter que ouvir aquele relógio bater…
O dia passou em um piscar de olhos, e o máximo de dopamina que Flinn teve foi somente besteira no final de tudo… ou quase.
Eram provavelmente já sete horas da tarde. Sim, já estava escuro. Flinn viu pouco a pouco seus tão aclamados clientes saírem pela porta… O garoto então começou a se arrumar; ele tinha que dar uma boa explicação por não ter aparecido nas aulas de hoje. Além disso, queria ao menos tomar um último banho antes que fosse dormir…
Porém, no fim do dia, ele recebeu realmente o que queria.
Quando começou a se arrumar, Flinn notou duas pessoas entrando no lugar de uma forma nem um pouco sorrateira… Ah, sim… ele conhecia bem aqueles dois; mas aqueles dois não se conheciam tão bem assim.
— Eu tô fechando…
— Corta essa, Flinn… meu dia foi uma merda. Você deve ter algo ai ainda.
— É! Escuta o palerma ai e… aproveita me serve o refri que me deve!
— Ai, Deus… Tá, sentem ai… Mas eu vou querer uma boa historia por isso, tá legal?
— Tanto faz…
— Okie dokie~!
Bom, aquele era o momento perfeito para tirar todas as dúvidas que Flinn queria… e, além disso, era uma boa oportunidade de ver um cego zombar de alguém metido a chefe de máfia… Bom, em sua frente estavam dois garotos: Dominique, ou só Domi… ou O Cego. Tanto faz! Domi era um aluno da nova frota, ele chegou com Akira, mas teve a sorte de não ver ou não trombar com Lucas… Dominique era cego, isso era obvio pelo seu título. Mesmo assim, não deixe isso fazer você pensar que ele não fez nada… ah, mas ele fez algo… algo grande.
O maior problema não era nem isso, na verdade, era o modo que Domi agia. O Cego tinha uma hiperatividade enorme e, assim como Afrain, adorava ser um pouco irritante às vezes… Estaria até tudo bem, se a pessoa que estava do seu lado não estivesse tão irritada naquele dia…
E quem era essa pessoa? Ora… como disso antes, O País Das Maravilhas era um lugar que Flame's, Spark's e Ember's frequentavam… e quem era o Spark mais famoso e que mais aparecia naquele lugar? Obvio que era Lucas… Ou Luke, como era conhecido por aquele pessoal.
O que falar sobre o loirinho? Nada, na verdade. Lucas não dizia a ninguém nada que envolvesse seu motivo para estar ali; e não seria diferente com aquele pessoal… e nem comigo.
Sweep!
— Então… como foi o dia?
— Uma merda. — respondeu Lucas a seco. — Problema atrás de problema, briga atrás de briga…
— Serio?
— Que novidade… Fala direito, caramba... O que aconteceu pra esse dia ser tããoo ruim assim?
— Flinn, vai se fazer de idiota ou o quê? Eu sei muito bem que você já tá sabendo.
— Tá sendo grosso atoa, meu anjo.
— Olha como fala comigo, mimado. Se eu tó perguntando é por conta que eu não sei. Agora desembucha ou eu pego esse suco de volta.
— Oohh, essa foi boa!
— Cacete… O Akira ficou de mimimi pra cima de mim e fez birra no meio do corredor… Satisfeito?
— Disso eu já sabia.
— Ah, porra! Então por que…
— Luke… só fala o que aconteceu pra isso rolar. Você sabe muito bem que esse tipo de coisa já aconteceu, e sabe muito bem que eu não aceito esse tipo de resposta.
— Luke?
— Tá que pariu… Vem cá, não tem mais álcool não? Eu só quero esquecer esse dia…
— Peço perdão, mas um loirinho arrombado pegou o ultimo estoque pra, provavelmente, fazer merda em uma festa.
— Festa… Luke… Espera um pouco ai…
— Eu… tinha esquecido disso.
— Percebi. Bora, vai ou não falar sobre alguma coisa? E esse olho roxo aí?
— Você é insistente.
— E você também.
Lucas estava claramente amargurado sobre aquilo; ele tinha seus motivos, mas eles não justificavam suas ações. O garoto apenas deu alguns goles no seu suco, ficou encarando a mesa que estava e mais nada. Flinn teria que fazer um milagre se quisesse fazer o rapaz falar sobre os acontecimentos de hoje cedo, e esse era seu maior desafio. Flinn não tinha intimidade com Lucas; na verdade, ele nem fazia tanta questão disso. Assim como alguns outros Flame's, Flinn não ligava para Spark's ou Ember's; somente eles mesmo e alguns Cinder's que importavam. Uma mistura diferente, eu sei, mas que por algum motivo era real.
Por outro lado… não era só Flinn que ficou curioso sobre aquela história; e não era só Flinn que estava naquela sala… então, de uma forma nem um pouco educada, Domi, que estava somente ouvindo tudo até então, arrastou sua cadeira para o lado do loirinho. De começo ele só esperou um pouco, mas não demorou para também tomar um pouco de seu suco e, enfim, abrir a matraca…
— Olha… desculpa a pergunta e desculpa me intrometer, mas… você que é o Lucas que tanto falam? Ou é Luke…? Pra ser sincero não sei como te chamar… É meio confuso isso, sabia?
— Sim, sou eu, não tá vendo?
— Aw, meu anjo… eu sou cego! Não notou? Mas tudo bem… Vem cá, por que você é tão comentado assim por aqui? É bom entre as mulheres, é?
— Corta essa, Domi.
— Nem começa com essa. Eu não tô com cabeça pra esse tipo piada.
— Awt… piada? Nah, eu só sou curioso mesmo… Qualé, eu sou novato aqui, não era pra ser normal eu ficar curioso pelo mais famoso do colégio? É minha primeira vez te vendo, sabia? Ou melhor, primeira vez te ouvindo… Vem cá, meu bem… fez o que para ser um Flame?
— Domi, ele não é um da gente. Ele é um Spark. Pensei que já sabia.
— Quê?! Tá brincando! Como não? Você quer dizer que tudo isso não é por algo grande? Como alguém que nem você é mais falado que eu em um lugar como esses?! Gente do céu, a Elianor tava certo sobre o lance de injustiça…!
— Sabe… — disse Lucas, dando mais um gole no seu suco. — Às vezes não é sobre classificação. Se for considerar, eu sei viver nesse lugar tanto quanto vocês. Eu… só sou eu, entende?
— E mesmo assim arruma briga com aleatórios. — zombou Flinn. — Luke, vai se foder. Não vem com esse ego pra cima dele, você não vai levar o Domi pro teu grupinho. Afinal, por que aquele idiota do Akira foi pra cima de você? Sempre tem um motivo.
— Ah! Tão falando da briga de hoje cedo?! — indagou Dominique, animado. — Pelo que ouvi… foi algo como: “o que você pensa que tá fazendo? Depois de tudo que aconteceu ontem você ainda tem coragem de vir falar comigo?!” e mais um monte de baboseira… Flinn, te conta que chamou atenção de uma gente… Eu pagaria pra ver um babado desses com meus olhos!
— Agora as peças tão se encaixaram… Foi o Akira que te deu esse olho roxo então? O que você fez para merecer isso dessa vez?
— Como assim “dessa vez”? — indagou o loiro. — O que você tá querendo insinuar com isso?
— Dimitri.
— Aí, caralho… por que vocês não esquecem disso? Eu…
— Porque a gente não quer. Agora responde à pergunta.
— Hunf… Ele… me viu conversando com a Emily depois da festa, e…
— “Confundiu as coisas”, não é? Poxa vida… que coincidência, justo a mesma coisa que aconteceu com o Dimitri… — disse Flinn, pegando a caixinha de Lucas antes do mesmo terminar se beber. — Sem suco para escroto.
— Corta essa, Flinn… esse é o único lugar que eu fico a vontade de falar sobre isso.
— Meu bem… — comentou Domi. — Eu não preciso nem enxergar para ter a certeza que você só tá tentando extravasar… mas eu tenho quase certeza que você só quer jogar isso pra fora e fingir que nada aconteceu… Não tó certo? E eu aposto que esse aqui não é um lugar para isso!
— Ouve o cequeta. Você sabe que não é a primeira vez que faz alguma merda nesse lugar. E quer saber de mais uma coisa? Eu nem quero saber o que você fez dessa vez, deve ter sido alguma coisa tão sua cara que você não quer falar nem por um milhão de dólares.
— Eu… não fiz nada de errado.
— Ah, jura? Eu também não então. Devo ter vindo pra cá por engano. Luke, eu já tentei falar com você, e você me ignorou. Faz já quatro anos e você ainda não sabe viver mesmo nesse lugar sem continuar nessa sua idiotice?
— O que vocês vocês tem contra mim, afinal?
— De novo, isso? Cacete… Luke… não, Lucas… me escuta: uma faísca não é nada além de sobras. Chamas não tem sobras. Ou elas morrem, ou elas matam. Chamas não se misturam com faíscas… principalmente as egocêntricas como você. Quis vir aqui pra relaxar e esquecer o que fez? Veio pro lugar errado. Ninguém aqui é idiota, e você sabe disso. Eu não vou passar pano em você só por que teve um dia ruim… meu trabalho não é esse.
— Às vezes entendo por que vocês e aqueles merdinhas são tão colegas.
— Às vezes entendo por que você e aqueles merdinhas são colegas. Vai, vaza daqui, não tem nada mesmo que me interesse.
Bem, não adiantava o quão Lucas tentasse sair por cima daquilo, ninguém daquela sala iria ouviu o garoto propaganda de Bonfire. Se a ideia dele era relaxar depois daquele dia, tudo deu errado a partir do momento que ele tentou abrir a boca. Não adiantava, ele só foi para aquele lugar para passar ainda mais raiva, e mesmo assim, no final de tudo não teve coragem de revidar os insultos que foram lhe dados…
No fim, o loiro saiu do lugar zangando. Flinn riu daquela situação, afinal, para ele, Lucas era apenas um…
— Bebe chorão, não sabe aceitar a verdade.
— Ah, deixa ele! Quem liga pra isso? Alguma hora ele se ferrar com suas próprias ações!
— Tu acha? É, pode ser. Pagaria pra ver isso. Ah! Falando nisso, e você, tem algo pra mim?
— Quê?
— Ah, verdade… essa é sua primeira vez aqui, não é? Bom, as bebidas são pagas com história por aqui.
— Que inovador… De quem foi a ideia?
— Bom… foi uma proposta feita pela minha chefe…
— Saquei… deixa eu pensar então… Ah! Ouvi dizer que a Liz vai trazer o filho dela pra cá!
— Que?! Como e por qual motivo?
— Quero mais um suco se for pra eu falar, benzinho…
— Maldito! Você sabe negociar…
㈫
No fim foi isso, nada de tão grande realmente aconteceu naquele dia. Para ser sincera, Flinn sentiu falta do furdúncio dos Cinder's, entretanto, não reclamou… no fim do dia, ele ganhou ótimas histórias… e sua chefe amaria isso.
Após alguns minutos de conversa com Dominique, Flinn fechou finalmente as portas do paraíso. O garoto foi direto tomar um banho; passou pela sala dos professores e justificou seu sumiço com uma desculpa esfarrapada; voltou para seu quarto e, por fim, se preparou para seu longo relatório daquele dia…
— Luna… cheguei. Tenho notícia quente pra você.
— Ah? Oh, uh, ah! Bem vindo de volta, agente Juicy! Como foi o dia de…
— Isso é uma camisa do Vlad? Por que você tá usando isso?
— Foco!
— Ptz! Hehe… fechou, se liga…