Capitulo 5 - Talvez Não Seja Tão Ruim Assim
— Nota de gravação número 62… Bem, hoje é 27 de janeiro de 2015, estou com o Sr. e Sra. Kurayami junto ao 17º participante de hoje… Podemos começar?
— Sim.
— Bom… Okay; estamos reunidos aqui pela denúncia sobre a agressão feita por Akira Kurayami sobre Isaac… Ahn… Trashfall? Tá? Isaac Trashfall… Bem, segundo os envolvidos na cena, Akira espancou seu colega de classe até o mesmo sangrar; depois saiu pensando que não iria ser pego… Eehh… O ocorrido foi gravado por alguns alunos e câmeras de seguranças da escola, onde tudo ocorreu… Então não há como dizer que aquilo não aconteceu… Conforme o pai da vítima; Isaac se encontra no hospital atualmente com seu rosto bastante prejudicado… E com tudo isso… Além dos pais, professores e alunos, eu suponho que a melhor escolha para resolver esse problema séria enviando Akira para o Instituto de Ensino e Reabilitação, Bonfire…
Capitulo 5
intitulado de “Talvez Não Seja Tão Ruim Assim.”
Um dia se passou depois do incidente de Akira; como dito antes, depois de tudo aquilo não havia escapatória; tudo foi gravado e documentado nas redes sociais em menos de duas horas, e era claro que aquilo chegaria em Kentaro e Lucindy rapidamente… E chegou, junto a uma reação nem um pouco agradável vindo de ambos.
Nesse exato momentos, Kentaro, Lucindy e Akira se encontram em uma sala fechada na delegacia de polícia; em sua frente estava um homem com uniforme de policial e com um gravador de áudio ao seu lado, além de um crachá com o nome “Christoffer” em sua mesa.
— Bom, depois disso tudo… Vocês possuem alguma dúvida que eu possa tirar? — questionou o policial, com uma expressão um tanto quanto ansiosa. — Agora é a hora para isso… Mas, de antemão; afirmo que seu filho ser mandado para lá é a melhor escolha no momento; a escola provavelmente não iria aceitar ele de volta, e mesmo que aceitasse, ele seria visto como perigo por todos… Além disso, não sabemos se algo desse tipo possa acontecer novamente, então… Em Bonfire, ele pode ter uma boa recuperação e continuar com seus estudos normalmente… E…
— Não… Não temos nenhuma pergunta. — respondeu Kentaro. — Ele fez o que fez, não posso mentir para a realidade… Como você disse, ele pode repetir esse ato se continua lá; e isso definitivamente não é algo que eu queira que aconteça novamente…
— C-certo… E você, senhorita Lucindy?
— Eu… Eu também não posso dizer que ele não fez isso… Tá tudo gravado e… Não tem como só esquecer tudo e seguir a vida… — comentou virando o rosto com um pouco de vergonha. — Acho que… É a única opção mesmo… E-eu não posso fazer nada nessa situação…
— Bom… Então… Acho que é isso… Uuhh… Eh… Essa foi a gravação envolvendo o 17º participante de hoje; ela se encerra aqui, mas continuará em sigilo para assuntos mais pessoais… — comentou o homem parando o gravador em sua frente. — Ai, ai… Que tensão…
— E então? — indagou Kentaro.
— Ah! Sim… Cof, cof… Bom, Akira, peço que se retire agora… Eu gostaria conversa com seus pais a só, então… se poder sair e esperar do lado de fora eu agradeceria… Tenho algo para falar com você mais tarde também, mas por hora…
— Tudo bem… Eu saio.
Sem dizer mais nada, Akira se levantou e saiu da sala… Ele apenas andou um pouco, abriu a porta do escritório e saiu…
Akira apenas se sentou em um banco de espera e começou a ouvir os fragmentos da conversa vindo do outro lado da parede… O garoto não mentiria para si, a curiosidade de saber do que seus pais estevam conversando era imensa, porém, o máximo que ele conseguia entender eram frases soltas, mas não tão informativas quanto ele queria…
Tudo que ele ouvia eram as perguntas que o policial fazia aos seus pais, mas nenhuma resposta era audível… E com motivos; Lucindy estava abalado com o que seu filho fez, e Kentaro não era o tipo de pessoa que falava alto em momentos sérios…
“Como ambos reagiram?” você pode estar se perguntando… Bem, não foi nada de tão surpreendente, apenas o que Akira já esperava; assim que o vídeo chegou em ambos, de começo os dois não quiseram acreditar, e nem falaram nada… Naquele dia Akira chegou estranho em casa, e isso fez seus pais ficarem curiosos… Então, quando viram o vídeo, apenas se calaram e fizeram o necessário após isso…
Leonard e Ayumi também viram o vídeo… Até mais cedo do que seus pais… Tanto Leonard quanto Ayumi nem ligaram de começo, aquilo parecia algo como… Hhmm… Bem, algo normal? Ou… Esperado? Bem, não importa, o que é realmente importante é que… Ambos nem contaram aos seus pais sobre o acontecimento… Para ser sincera, ambos nem devem ter ligado para o que aconteceu ou o que ia acontecer dali em diante… “Vida que segue” o ditado, né?
E bom… Não tinha mais nada a ser feito no final de tudo; a partir dali era apenas Akira e o…
Bem, não só o mundo… Tinha outro alguém também…
Voltando agora para o presente…. Não era apenas Akira que estava naquela sala de espera…
E bem… Vendo a inquietude de Akira, outro garoto que estava ali se aproximou com calma e se sentou ao lado dele… Um pouco estranho e até desconfortável de início, mas… Não fazia tanta diferença naquela altura do campeonato.
E… O outro garoto estava em pé até agora… As vezes ele só queria se sentar, certo?
O garoto possuía uma aparência bem robusta; cabelos bem longos e cacheados em uma tonalidade castanha; sua vestimenta dizia que ele via de um lugar de alta classe, ou pelo menos parecia; era algo simples e chamativo ao mesmo tempo; mas o mais importante de sua aparência era sem dúvidas o seu olhar calmo e confortante; aqueles olhos verde-água fazia ele transbordar como um rio em uma corrente…
Antes de dizer qualquer coisa, o garoto observou Akira por um tempo; ele percebeu o quão desconfortável o jovem estava naquela situação… E então, com uma doce voz que acalmaria a besta mais feroz… Ele disse…
— Faz algo de errado para estar aqui?
— Hã? Oi…? — disse Akira com uma cara confusa, se virando para o garoto ao seu lado. — Hhmm… Acho que… Sim?
— Entendo… Faz sentido, né? Ninguém vem para uma delegacia sem motivos… — comentou dando uma risada leve. — Bom, suponho que estejamos no mesmo barco a partir de agora.
— O que… O que você quer dizer com isso? Você também… Fez algo?
— Bem… Você irá descobrir em breve… Acho que pode ser mais interessante se você descobrir… Hehe. — respondeu desviando um pouco seu olhar. — Mas antes de qualquer coisa, vamos com calma… É um prazer conhecê-lo, me chamo Elliot… E você é…?
— Oh… Ahn… Akira, p-prazer…
— Oh! Japonês? Intrigante… Tenho familiares de lá; sem contar que o local é lindo em vários aspectos… Adoro aquela estética única que o país tem.
— Eh… Sim…? Han… Você é a primeira pessoa daqui que vejo falando bem de lá…
— Hehe… É compreensível, os cidadãos de Luary são um pouco… Xenofóbicos quando se fala sobre imigrantes; mas acredite em mim, nem todos são assim; eu, por exemplo!
— Ah… Você tá certo…
— Hehe… Mas, bem… Você está sozinho? Ou veio acompanhado?
— Eu… Vim com meus pais.
— Ah… Sei como é… Nem todo mundo deve ficar feliz com o filho na delegacia… Mas, se quiser um conselho; apenas relaxa! Nada de tão mal acontecerá… Quer dizer, Talvez possa, mas…
— Você… Fala engraçado… Aahhnn, quer dizer, seu modo de falar é um pouco….
— Robusto? Bem, tento não falar nada errado… Um pouco por influência de meus pais… Então palavrões não estão no meu vocabulário… Mas, às vezes solto alguns sem querer, a gente não consegue segurar tudo que queremos, né? Hehe…
— É, não…
E ali ficam aqueles dois durante um tempo… De alguma forma, Elliot conseguiu acalmar, mesmo que minimamente, a mente bagunçada de Akira… Talvez por seu jeito “estranho de falar”, ou talvez por seu jeito doce de agir… Algo nele deixava Akira calmo, dava um sentimento de… conforto.
Parando para pensar, Akira se acalma rápido perto de pessoas calmas… Bem, perto de pessoas calmas que o tratam normalmente, para ser mais específica…
Cof, cof… Ambos conversam sobre diversas coisas aleatória; Elliot passou seu tempo inteiro falando de coisas simples, de acordo com ele mesmo, conversas sem tópicos específicos é uma ótima maneira de distrair a mente…
Elliot ignorava quaisquer motivos dele ou de Akira estar naquele luga; para ele, nada ia mudar com aquela conversa amistosa… E bem, isto era verdade; Akira ficou realmente entretido no final das contas, depois de muito tempo ele havia finalmente achado alguém que pudesse conversar de igual para igual, mesmo que em um momento não tão bom…
Porém… Nem tudo é um mar de rosas; de uma hora para outra, Kentaro junto a Lucindy saem da sala do policial, e sem dizer absolutamente nada, começam a puxar Akira à força… Bem, pelo visto Akira não iria conversar com o policial…
O garoto nem teve chance de se despedir de seu mais novo “amigo”, ele nem teve reação quando sentiu de seu braço sendo agarrado e puxado para fora daquele lugar… A unica coisa que ele ouviu vindo de Elliot antes que saisse do lugar, foi…
— Ah… Te vejo amanhã então…
Sem nem perceber, Akira já estava no carro de seus pais… Bem, em um carro alugado para ser mais exato, o antigo estava no mecânico por conta de um acidente recente… Mas bem, lá dentro, Akira teve que ouvir Kentaro reclamando sobre “a merda que ele fez”, e isso enquanto Lucindy falava sobre como as coisas estavam “indo tudo de água a baixo”.
O garoto ficou a viagem inteira sem dizer nada, afinal, querendo ou não, seus pais estavam certos em certas partes sobre o que ele fez… Ainda assim, mesmo com ele querendo explicar o que aconteceu, optou por permanecer quieto para não piorar aquela situação…
Ao chegar em casa, Kentaro só mandou Akira ir para o seu quarto e arrumar suas coisas, dizendo que “você sai daqui amanhã cedo” com uma expressão nem um pouco contente…
Era difícil saber se ele estava zangado por aquilo ou animado por “jogar seu filho fora”… Sua feição não deixava claro o que ele sentia naquele momento, então… Vamos supor que era um pouquinho de tudo.
Akira até tentou questionar sobre o que ia acontecer depois daquilo tudo, para onde ele iria, que lugar era esse tal de “instituto de ensino e reabilitação”, mas nem Kentaro, nem Lucindy disseram nada para o garoto… Então, no fim de todo seu esforço, ele apenas “seguiu o roteiro”.
Akira organizou suas coisas; a ideia de sair da casa de seus pais até que parecia boa naquele momento, afinal, todo mundo estava contra ele até então… E querendo ou não, a ideia de sair de casa não era de agora, ou nem de ontem…: “Tsk, isso é que nem a vovó disse… É melhor eu só ignorar isso tudo, eu só tô sendo birrento… Eu acho” era o que aquela cabecinha pensava enquanto arrumava suas coisas…
De mais foi isso; Akira apenas se arrumou e esperou qualquer coisa…
Leonard, pelo incrível que pareça, parecia minimamente preocupado com o irmão; ele tentou conversas com ele por trás da porta diversas vezes, mas Kentaro sempre o interrompia ele antes falar algo…
Ayumi, por sua vez, apenas tratou aquilo como uma piada: “eles provavelmente só tão fazendo birra como sempre, relaxa!” foram as únicas palavras que Akira ouviu dela…
E por fim… Lucindy; ela apenas foi para cama mais cedo, não se sabe como ela passou aquela noite… Embora seja até fácil de se imaginar; mas em resumo, ela simplesmente dormiu, tentando ignorar aquele caos todo…
A noite foi passando, Akira dormiu até que rápido e sua família apenas seguiu a vida normalmente…
Pouco a pouco tudo se passou; a noite voou em instantes, e quando se vê, Akira estava sendo acordado as três horas da manhã por Kentaro de uma forma nem um pouco gentil…
Sem contestar nada, apenas se levantou, pegou suas coisas e foi com seu pai até o carro…
No momento que ambos entram no carro e começaram a andar, o ar pesou; o clima fica tenso; era como se uma névoa de desconforto envolvesse os dois que estavam ali…
— O que te levou a isso? — perguntou Kentaro, aliviando, ou quem sabe piorando, o clima.
— Eu preciso falar? Eu tava sendo infernizando por todos desde que cheguei nesse lugar… E eu vivia falando disso com vocês.
— Era difícil se controlar?
— Quando estão te acusando de matar uma das pessoas mais importantes para você? Sim, era difícil…
— Deus… Era para a gente estar tendo uma vida perfeita, tava tudo indo bem, mas aí você…
— Que vida perfeita? Esse papo não existe, nunca existiu, pai… Como eu posso destruir algo que não existe? Sério… pai, não tenta bancar o bonzinho agora, no fundo, bem lá no fundo, 'cê deve saber como eu tava me sentindo… Ou não, você nem ligou pra morte da sua mãe no final das contas…
— Escuta Akira, é por conta desse jeito de agir que você tá aqui, você sabe muito bem disso…
— Não era você que passou a vida todo querendo que eu usasse o corpo ao envés do cérebro? Tá ai, conseguiu… E eu sei que é culpa minha, eu sei que o Isaac tá no hospital por conta minha… É difícil esquecer aquela cena… Sério, só para de tentar ser o dono da razão, só uma vez… E sendo bem sincero, essa tal de “Bonfire” parece muito melhor do que lá em casa… Não vou ter que ficar aturando gente que não liga pra mim todo santo dia…
— Você não sabe do que tá falando, acredite em mim…
— Tá, claro, como todas às vezes que você disse que me seguraria quando criança e me deixava cair… Pode deixar, acredito sim…
— Akira… Esse lugar não é o que você pensar, ele é um internato, um internato para…
— E você sabe de algo? Já foi pra lá pra ter tanta certeza? Sério, você não é o dona da razão… Pelo menos não dessa… Só me leva logo, eu não tô bem pra ficar pensando nisso…
O silêncio voltou ao carro; ele só foi sumir novamente após bastante tempo, quando Kentaro estacionou perto de um ponto de ônibus completamente vazio… Era até um pouco assustador para ser sincera, mas comparado com o que estava por vir… Aquilo era a coisa mais simples do mundo.
Akira saiu do carro; Kentaro até pensou em dizer alguma coisa, algo como “tchau” ou “se cuida”, porém nada saiu de sua boca, apenas um longo suspiro junto ao ligar do carro, que logo partiu, deixando Akira sozinho naquela escuridão interminável…
Akira apenas esperou naquele lugar frio e escuro; até mesmo o banco que tinha ali era desconfortável, assim como a atmosfera morta de tudo ao seu redor… Embora ele não ligasse para isso, o mesmo sentia que não tinha volta… E, ironicamente, não tinha mesmo.
Após vinte minutos de espera naquele lugar, finalmente um ônibus chegou, sendo todo amarelo e com a escrita “Bonfire” e uma figura de fogueira em sua lateral.
Sem pensar duas vezes, Akira apenas se levanta e adentra lentamente o ônibus; o motorista diz para ele se sentar, e no momento que Akira se vira para ver os assentos livres, se depara com diversos olhares em sua direção, sendo cada um mais estranho do que outro… O ônibus estava cheio; todos ali fizeram algo para estarem nele, e Akira sabia muito bem disso.
Adentrando mais a fundo o ônibus, os olhares vão piorando cada vez mais; havia pessoas com cicatrizes no rosto, sorrisos bastante ameaçadores e tudo que gritava que Akira não devia estar ali…
E bem, acho que é de se imaginar que quando Akira sentiu uma mão segurando seu braço, ele se sentiu desconfortável em um nível extremo… Todavia, logo isso passou, foi só ver um rosto familiar que o jovem se acalmou…
— Bom dia, Akira. — dizia Elliot, dando espaço para Akira se sentar ao seu lado,
— Bom… Dia? — respondeu Akira, se sentando ao lado de seu amigo.
Elliot estava calmo, sua aparência e estatura era a mesmo do dia passado, parecia que ele estava apenas indo em uma viagem escolar qualquer.
— Esse luga que a gente tá indo… — murmurou Akira para Elliot. — Você sabe algo sobre ele?
— Ora, se não… Hehe… Bom, me deixa surpreso que você não saiba o que é... Mas em resumo, Bonfire é um internato para pessoas que cometeram “Algo” que possa ser prejudicial às pessoas que vivem ao seu redor… Isso pode ser, alguém que matou, roubou, ou espancou alguém, como você… E isso significa que todos nesse ônibus fizeram algo desse nível para estarem aqui.
— Como você sabe o que eu fi… Ah, esquece, isso… Isso é sério?
— E por que não seria? Que eu saiba, Bonfire é mundialmente conhecida… Bom, mundialmente pode ser uma palavra forte… Ela é bastante conhecida, assim fica melhor.
— Bem… Meus pais nunca me deixaram ver muito do mundo exterior.
— Oh, compreendo, pais contadores… Te entendo, muito bem inclusive… Mas bom, como se sente?
— Como me sinto? Bem, eu realmente não sei o que responder… Até agora a pouco eu tava achando que viver nesse lugar poderia ser mais suave do que morar com meus pais, mas tipo… Depois do que você disse, eu só tenho minhas suspeitas agora…
— Ah, não se preocupe, nem eu sei se lá é realmente tão ruim como dizem… Mas sabe… Talvez Não Seja Tão Ruim Assim.