Capitulo 4 - Sangue Em Suas Mãos
— Se não era teu amigo… Era o que então? Namoradinho?
— Vai se fuder pai, não é porque eu ando com um garoto que eu tenho que namorar com ele ou algo do tipo…
— Sei não, hein… Primeiro aquele papinho de um garoto novo… Agora isso? Se quer dar o…
— PAI!?
— Eu tô zoando, desgraça… Tu dando o cu? Ah! Vai nevar no inferno quando isso acontecer…
— Por que você tem que ser ass…
— Tsz, tsz… Aló? Viatura 2-4-8?
— Lá vem… Aló, to ouvindo…
— A gente tá precisando de ajuda aqui na 116, um carro acabou de bater aqui…
— O caralho, chama o Chris…! Deus, eu sou o único que trabalha nessa merda de delegacia?! Deus… Eu tô indo, me espera aí…
— Vai querer que eu passe uma mensagem?
— Diz para o Gabs que “o Tristan mandou você tomar no cu”…
— Positivo! Tsz, tsz…
— Mals aí garoto, a gente vai demorar um pouco…
— De boa… Nada de novo aqui… Me deixa na casa do Mars então, fica na 110… Eu já ia pra lá de qualquer forma…
— Beleza…
Capitulo 4
Intitulado de “Sangue Em Suas Mãos.”
— Sua avó… Morreu. — dizia Lucindy com a voz trêmula enquanto entrava em casa com o apoio de Kentaro.
— Ah… Uh… Pera… O quê?! — sem saber o que dizer, Akira ficou ali; parado por alguns segundos enquanto tentava processar o que acabou de ouvir vindo de sua mãe. — Morta? Como assim morta? Isso… É uma piada, certo? Vocês… Vocês tão mentindo, certo?! Não… Não se brinca com esse tipo de coisa…
Akira continuou em pé enquanto via seu pai ajudando sua mãe a se sentar no sofá… Sua mente, em uma confusão enorme, não sabia dizer se o que foi dito era verdade…
Não tem como forjar uma emoção como essa, certo? Ao menos… Não tinha como alguém doce como Lucindy mentir desse jeito… Certo…?
Acho que só o tempo pode explicar essa dúvida.
Bom… Lentamente Lucindy vai se acalmando; mesmo com o passar do tempo, ela ainda continuava com aquela expressão triste e sem vida em seu olhar; Kentaro, por sua vez, não disse nada desde que entrou… Sua cara permanecia a mesma desde que ele chegou em casa; e era bem provável que ela estava desse jeito desde que ele recebeu a notícia da morte de sua mãe…
Ao menos ele podia ter choramingado, mas isso não iria mudar nada no final das contas… Era uma reação já esperada, para ser sincera…
— “Ahg… Nada?! Ela não disse NADA?! Isso… Deus, eu… Isso é uma piada… Só pode ser uma piada…” — continuava Akira em seus pensamentos, enquanto via Kentaro andar de cá para lá sem dizer uma única palavra; mesmo com a própria esposa em um estado deplorável, ele continuava do jeito que ele sempre foi… — Eh… Tá…. O-o que aconteceu? E-eu, eu não tô conseguindo processar tudo isso de uma vez só… O que aconteceu com a… Vovó?
— Filho… — disse Lucindy, virando-se para Akira, — foi um acidente… Um acidente de carro…
— Eu disse para ela não dirigir com essa idade… — sussurrava Kentaro em paralelo à fala de Lucindy. — Nunca me ouviu, nunca… Eu tentei ajudar.
— Mas… Assim, do n-nada? A vovó sabia dirigir bem… Ela não sofreria um acidente assim do nada… O que aconteceu? Tem… Algum contexto ou algo do assim…? _Mãe, por favor… Não me diz que só acabou assim… Teve um motivo, né? Né…?
— Pelo que deu para entender… Ela estava voltando para casa após ir ao mercado e… não viu o sinal, e… aconteceu. — comentou entre soluços, fechando a cara a cada tópico dito. — Encontraram ela sem vida perto do carro… Não tinha mais o que fazer, foi…
— Não, não, não, não! — uma expressão de medo e preocupação surgiu na cara de Akira com a explicação de sua mãe, o jovem não conseguia mais pensar direito… Foi uma informação tão bruta, entregue tão de repente… E para piorar as coisas mais ainda… Era da pessoa que Akira tinha mais apresso e carinho. — Mãe, a vovó, ela… Não, não, nã… Por favor, me diz que isso é mentira, ela… A vovó tá bem, né? Ela… Ela só se machucou e tá se cuidando, né…? Não e diz que isso é verdade… Ela, ela não…
Tick…
— Akira! — exclamou Kentaro em um tom mais alto. — Não se aflija por isso; já te disse isso uma vez… As pessoas vão e vem a todo momento, nos basta aceitar essa perda sem demostra fraqueza… Sei a importância da sua avó para você, mas isso não significa que você deva…
Tack…
— O qu… Pai?! Ela era… A sua mãe…
Tick…
— Ainda assim, a Arisu não iria gostar de ver a gente sofrendo sobre isso…
— Pai… Você… Você realmente só vai ignorar tudo isso e…
Tsszz…
— Não insista… Apenas aceite isso e…
Boom!
Akira não conseguia ouvir aquilo vindo de seu pai; por um momento, ele esqueceu tudo que Kentaro já falou; tudo que Kentaro já fez… Tudo; a única coisa que ele não esqueceu foi… a apatia de seu pai…
— ACEITAR?! PORRA, VOCÊ QUER QUE EU APENAS ACEITE QUE A PESSOA QUE EU MAIS GOSTAVA DESSA FAMÍLIA MORREU E PRONTO?!
— Akira, meu dia foi estressante, não faça ele…
— ESTRESSANTE? SÉRIO? _O SEU DIA FOI ESTRESSANTE? QUE MERDA, PAI! EU TO SENDO ATORMENTADO DESDE QUE CHEGUEI AQUI, QUASE ME METI EM UMA BRIGA HOJE; MEU ÚNICO AMIGO NA PORRA DAQUELA ESCOLA É UM CUZÃO QUE ME DEIXOU HOJE; MINHA AVÓ MORREU E NÃO VAI PODER VOLTAR… FOI O SEU DIA QUE FOI ESTRESSANTE?
— CHEGA! EU NÃO CRIEI VOCÊ PRA SER ASSIM, SE COLOQUE NO SEU LUGAR E SÓ NÃO PENSE SOBRE ISSO, OU SE NÃO…
— AO CONTRÁRIO DE VOCÊ ELA CUIDAVA DE MIM, DO LEON, DA YUMI… VOCÊ SÓ LIGA PRA MERDA DO SEU EMPREGUINHO DE MERDA!"
— EU FAÇO O MELHOR POR TODOS VOCÊS, NÃO VENHA MD DIZER QUE…
— É ISSO?! É ISSO QUE VOCÊ TEM A DIZER DEPOIS DE TUDO ISSO, CENTRO? PARA “NÃO PENSAR SOBRE” A MORTE DA SUA PRÓPRIA MÃE?! — gritou Lucindy, se levantando bruscamente e separando os dois. — SERIA O MESMO COMIGO OU COM ALGUNS DOS NOSSOS FILHOS?! HEIN?! ME DIZ!
— Lucindy, eu…
— Sim… VOCÊ! — prosseguiu aumentando sua tonalidade de voz e se aproximando de Kentaro com um olhar de depravação. — VOCÊ CONTINUA EGOÍSTA E SE ACHANDO O MAIOR DO MUNDO POR LIDAR COM ESSAS SITUAÇÕES DE FORMA MINIMAMENTE DIFERENTE! ESSA DROGA DE SUA APATIA JÁ CUSTOU MAIS UMA VIDA, QUAL SERÁ A PRÓXIMA?! A MINHA?! OU DE MAIS UM DOS NOSSOS… — Lucindy parA de repente, respira fundo, se recompõe e então… — Akira… Vai para o seu quarto… Por favor…
— Mas… Mãe… Eu não posso deixa iss…
— EU TÔ MANDANDO, VAI PRO SEU QUARTO, AGORA!!
Isso… Foi algo novo, até mesmo para quem não estava ali…
Sem saber o que fazer, Akira apenas obedeceu… Ele se dirige até seu quarto, abre porta, entra e… Cai.
Akira cai no chão bruscamente, não por acidente, e sim por medo do que aconteceu e do que ia acontecer… O jovem ficou escorado na sua porta, tentando pensar sobre qualquer coisa, tentando se acalma… Mas havia algo que não o deixar em paz… E esse algo não era apenas a dor de ter perdido a pessoa mais importante para ele…
Além disso… Eram também os gritos vindo do outro lado da porta…
— FOI O MESMO COM ELE!!!
— Lucindy, você vai começar isso de novo?! Eu já…
— Nem vem com essa Kentaro… toda vez, toda santa vez você desvia desse assunto… Você tem que aceitar que ele é…
— EU JÁ DISSE QUE NESSA CASA ELE NÃO ENTRA! ISSO NÃO TEM NADA A VER COM A MINHA MÃE, LUCINDY!
— Não tem nada a ver com sua mãe…? Kentaro… A ARISU MORREU, E VOCÊ TEM A CARA DE PAU DE FALAR ISSO?! Vem cá, você realmente ligava pra ela…? Ou também odiava ela por tratar ele como um…
— Hunf… Lucindy… Ele… Ele NÃO tem nada a ver com isso! Que droga… Você concordou com aquilo, não concordou?! Você NÃO tem o direito de me culpar por uma escolha que você também participou…
— Me solta Kentaro…
— Sério, Lucindy, se você continuar voltando para a droga desse dia toda vez que algo de ruim acontece, eu vou ter que…
— O QUE VOCÊ VAI FAZER?! ME BATER?! HEIN, KENTARO?! ASSIM COMO VOCÊ FAZIA COM SEU FILHO DE 5 ANOS?! OU VAI ME JOGAR FORA COMO ELE?! VAI, ESCOLHE LOGO!
— Tsk… Lucindy… ISSO NÃO VEM AO CASO, ELE NEM ERA UM…
— Não, não, não… Ele não era um “Kurayami”? é isso que você ia dizer, não é?
— Ai, Deus… L-Lucindy, não, eu…
— Esse nome… Esse maldito nome… Você usa ele como se fosse um troféu… Pra tudo… Tudo… Se o significado desse nome fosse realmente o que você disse, isso tudo séria diferente… Seria melhor…
Um barulho de passos junto a uma porta sendo fechada com força podem ser ouvidos após a fala de Lucindy; logo em seguida, uma forte pancada contra a parede ecoa pela casa inteira, e após isso, passos fortes subindo as escadas também podem ser escutado…
Enfim, havia acabado aquela discussão… Mas infelizmente, não foi de uma maneira calma.
Alguns segundos se passam em silêncio; Akira se recompõe, minimamente, é claro; sua cabeça continuava girando, porém, ele ao menos conseguia ouvir os próprios pensamentos agora…
Se bem que… Talvez fosse melhor continuar sem ouvir eles…
— “Ela… Gritou comigo? A minha mãe gritou comigo? Isso… É a primeira que isso acontece… Aí, Deus… Por que levantei a voz pra ele?! Merda… Merda… Merda!”
O jovem ainda estava confuso, e eu não o julgaria, brigas familiares sempre são horríveis, principalmente quando é em uma situação como está.
— “Ele? Quem é ele? Meu avô? Ou o quê? Tio? Do que eles estavam falando…? Não… Não é hora pra isso… A vovó, ela… Ela…”
Sua respiração estava pesada, seu coração estava batendo forte… Akira realmente não sabia mais como lidar com as coisas dali em diante.
— “A vovó… Realmente se foi…? Deus… Por quê?” Por quê…? Vovó, por favor… Volta… Por favor…
Segundos se passam, minutos, quem sabe até mesmo horas, e Akira ficou ali, em seu quarto, fazendo seu máximo para esquecer qualquer coisa que o deixasse mal…
Akira desenhou; escreveu, corrigiu suas tarefas e faz de tudo para não pensar sobre aquele assunto; ele não quis aceitar que sua avó, a pessoa que o confortou a vida toda, havia falecido sem nem lhe dizer uma última palavra… Infelizmente, para Akira, essa era verdade, e querendo ou não, bem ao fundo ele sabia disso.
Com toda essa situação acontecendo, nenhum dos três ali aceitaram de forma alguma a morte de Arisu; se fosse para ela dizer algo a cada um, provavelmente ela diria para Kentaro que…
--- Mentir a si mais o machucara do que te protegerá… Só seja humano, filho.
Para Lucindy, algo como…
— Minha doce Lucy, não dê ouvidos aos que querem lhe machucar, todos agimos no nosso tempo, e em um momento como esse, tirar essas emoções negativas de nós é a melhor escolha, mesmo que todos ao nosso redor fale ao contrário,
E por fim, ao seu neto tão querido…
— Desculpe-me por lhe deixar só nesse mundo cruel… Eu não iria estar aqui para sempre, e em algum momento você iria ter que aprender a viver por conta própria. Só lhe desejo boa sorte nesse mundo, Akira.
Não havia modo de fugir daquela melancolia, e ela ia deixar isso bem claro no final de tudo…
Bom… Aquele dia havia terminado de uma forma nem um pouco agradável… Akira ficou no seu quarto por um bom tempo…
A noite do garoto foi difícil; enquanto ele tentava se distrair com suas tarefas, sem perceber acabou dormindo na própria mesa, e foi somente após ter acordado as três horas da manhã que ele foi para sua cama… E bem, dali em diante ele mal dormiu, ficou se mexendo de cá para lá sem conseguir relaxar… Por conta disso, uma cara de “morto” tomou conta dele…
Em um certo momento, Lucindy até cogitou em conversar com Akira sobre tudo que havia acontecido, porém, ela não conseguiu abrir a porta do quarto do filho quando se lembrou do jeito que falou com ele…
— “Fiz igual ao Kentaro… Tsk, talvez esse nome seja meu mesmo…” — pensou ela, enquanto desistia de abrir a porta em sua frente…
Falando em Lucindy… Ela e Kentaro demoraram um pouco para voltarem a conversar… Obviamente nenhum dos dois queria apenas ignorar a discussão e continuar vivendo, então ambos deram um tempo… Um curto tempo…
De qualquer forma; até aquele momento ninguém havia contado a Leonard e Ayumi sobre a morte de Arisu, os dois foram saber da situação apenas no dia seguinte, e inclusive, de uma forma nem um pouco discreta…
Sério mesmo, Kentaro precisa melhorar na parte de dar notícias ruins… “Sua avó faleceu” vindo do nada não é fácil de processar… Ainda mais logo na hora do café da manhã…
Cof, cof… Enfim… Por “sorte” de todos, a família desmarcou todos os compromissos que tinham, desde trabalho a escola… Kentaro não quis fazer isso de começo, mas depois de um carão de Lucindy decidiu fazer o melhor para ela…
Mais um dia se passou… Kentaro não apareceu em casa por um longo período; só foi dar as caras as duas da tarde, dizendo que já tinha resolvido tudo sobre velório de Arisu… De resto não respondeu nenhuma outra pergunta que fizeram a ele…
Demorou um pouco para o velório acontecer… E nesse dia o único que realmente ainda estava mal era Akira, não ao mesmo nível quando recebeu a notícia, porém ele continuava não aceitando aquilo completamente.
E foi isso… Kentaro demorou menos de duas semanas para voltar agir como antes; Lucindy depois de um tempo aceitou aquilo e apenas continuou vivendo normalmente: claro que prestando o mínimo de respeito, ao contrário de Kentaro… Leonard e Ayumi não reagiram muito, eles tinham uma forte convivência com sua avó, porém não era nada tão grande que os deixariam como Akira… Ah, sim, o Akira…
Akira foi o que mais demorou para compilar tudo; foi mais ou menos duas semanas e meia para ele aceitar aquilo de uma forma certa.
Isso… Foi rápido… Bom, vamos seguindo, prefiro não pensar nisso.
Bem… Agora, após toda essa desventura, acho que finalmente possamos dar início a essa história… Ou pelo menos ao verdadeiro pontapé inicial a tudo que estava vindo logo em seguida…
O dia era 26 de janeiro em Frostfall; tudo aconteceu durante uma aula de matemática qualquer… Akira estava apenas assistindo à aula normalmente, um tempo já havia se passado desde que tudo aquilo com sua avó aconteceu, o garoto já estava “bem”, ainda sentia falta dela, mas também desejava que ela estivesse em um bom descanso… Certo momento da aula, durante uma linha de raciocínios entre coisas aleatórias, o assunto da aula e sua avó, Akira notou uma conversa estranha vindo da carteira ao lado, uma conversa sobre… ele?
Bem… Até aquele momento, a conversa era algo completamente banal para Akira para ser sincera… Porem, foi só ouvir seu nome ser citado uma única vez que sua concentração foi tomada por completa…
— … Ele tá mó quietão nesses últimos dias, né? Quer dizer, mais que o normal…
— Você não ficou sabendo? A avó dele morreu um tempo atrás aí… Teve gente que até gravou o acidente… Pelo menos ouvi dizer que gravaram… Agora se é real eu não sei.
— Ptzz, mas nem fudendo! Serião? Caralho, puta azar… É foda perder a avó… Quer dizer, deve ser… Nunca perdi a minha pra saber.
— É… Por isso que ele faltou aquele dia… A família inteira dele ficou de luto… A veia morreu no mesmo dia que tu falou com ele pelo visto…
— Caralho… Aí é de fuder… Pera ai… Ela morreu de quê?
— Acidente de carro… Eu acho…
— Ah?! Nem… Será que é a mesma pessoa…?
— Quê?
— Ahn… Nada, deixa, acho que tô noiando… No dia que ele recusou aquele treco pra eu um carro bateu… Meu pai foi lá pra ajudar… Mas dúvido que era a mesma pessoa…
— Beleza…?
Ah, sim, esqueci de citar que a notícia se espalhou rápido pela cidade… Bem, era de se esperar… Luary querendo ou não era uma cidade pequena, qualquer fofoca voa mais alto que uma águia.
De qualquer forma; não tinha nada de tão ruim ali… Tudo não passava de uma conversa sobre uma notícia que todos ficaram sabendo; com isso, Akira nem ligou muito, claro que aquilo mexeu com ele de certa forma, afinal de contas, era sua avó ainda; mas, o garoto já havia… Se acostumado? Bem, nem ele sabia explicar tal sentimento que sentia.
Bom, embora aquela fosse mais uma de diversas conversas, tinha algo que mudaria o rumo de tudo alí, e esse algo era… A pessoa que estava falando sobre o assunto… E esse alguém era… Isaac.
Mesmo sem olhar, Akira sabia de quem era aquela voz… Afinal de contas, não havia como esquecer da pessoa que chamou sua irmã de… Eehh… Bem, você sabe…
— Parando pra pensar… Sabe de uma coisa, mané?
— O quê? Lá vem você…
— Não, relaxa… Se liga, tudo isso foi só puro carma! Quem disse para ele meter o foda para gente? Isso aí é puro carma!
— Ele tá do nosso lad… Ah, foda-se… Pior que é, né? O que ele disse pra você mesmo?
— Sei lá… Acho que algo do pique “só não quero ajudar mesmo” ou tipo isso, nem lembro daquela conversa mais… Mas ele tinha sido mó babaca que eu me lembro… Acredita que ele quase quebrou meus óculos Puta babaca…
— Serião? Aí é de fuder…
É, era ovvio que algo assim iria acontecer… Era Isaac, no final das contas…
E aquilo foi continuando… Houve até mesmo uma hora que ambos os garotos pararam de falar sobre Akira e sua avó por certo tempo; podia ser só aquilo, uma piadinha de mal gosto vindo de uma pessoa que você não gosta… Mas não era… Não ia ser…
Mesmo querendo espancar ambos, Akira não ia fazer isso por um motivo tão simples…
Porém, ele queimaria a língua mais para frente a língua.
— … Parando pra pensar… Isso é culpa dele, né? Carma, tá ligado?
— Bem, sim… Pelo que ouvi, o treco pareceu bem paia… Tipo, não foi nada tãããooo drástico assim… Pode ter sido algo armado, sabe? Tipo… Prender algo na roda do carro pra ele dar pau… Saca?
— Real… Com certeza ele tem culpa nisso… Imagina se… Ah, já sei!
— Deus… Manda, qual atrocidade dessa vez?
— Se loga… Já viu aquelas crenças bizarras da Ásia? Tipo, tem uma galera que fielmente acredita que existem uns… Espíritos ou algo do tipo lá que te perturbam ou ajudam; tem uns que eu vi que pedem sacrifício tals, pode ter sido isso… O que 'cê acha?
— Eu acho que você ta brisando de mais, isso sim… Fumou crack, caralho? Tu viu isso aonde doido?
— Ah, porra! Vi em um programa bizarro que tava passando na televisão um tempo desses…
— Não era desenho não, né?
— Porra, Bart... Não! Porra, eu não acredito mais nesse tipo de coisa, tá bom?
— Haram, sei… Mas tipo, minha teoria que ele só não curtia a veia mesmo, aí meteu algo no motor do carro e agora tá ai, metendo o foda-se pra o que ele fez…
— Nhe… Prefiro acreditar que ele é maníaco nesse lance de espíritos… Porra, cara tem cabelo branco…
— Isaac, tu queria pintar teu cabelo de branco ano passado…
— Porra, real… Ai tu me fudeu…
E eles continuam… Pouco a pouco vão criando teorias de que Akira que foi o culpado da morte de sua avó… Tudo isso enquanto o próprio Akira apenas ouvia tudo aquilo e tentava ignorar ao máximo… Entretanto, lentamente os dois garotos iam aumentando a ideia de que Akira foi culpado daquilo tudo, e lentamente isso foi invadindo a cabeça dele…
Aquilo lentamente vai corroendo Akira; era irritante, e ele não podia fazer nada além de apenas ouvir tudo aquilo… Se ele fizesse algo, poderia ser expulso da sala, ou quem sabe pior…
De uma hora para outra, quando parecia que tudo aquilo iria acabar, uma bolinha de papel foi arremessada na cabeça de Akira… Após a batida, a bolinha caiu em cima de sua mesa, e nesse mesmo momento, Akira olhou para ela… Mesmo sem abrir a bolinha, era possível ler uma única palavra nela… Era possível ver a palavra “assassino”…
E foi com essa simples palavra que Akira perdeu o resto de controle que tinha…
A mente de Akira se dividiu entre pensamentos nesse momento, cada um mais alto que o outro; de um lado tínhamos algo como…
— “Eu não matei ela… Eu não matei ela… Eu não matei ela… Eles só tão zoando comigo, isso não é verdade… É só ignorar eles, só isso…”
… No outro, tínhamos o completo oposto…
— “Eu matei ela? Foi culpa minha? É culpa minha? Eu poderia ter chegado em casa mais cedo e ter convencido ela a não sair…”
Entre uma mente explodindo de pensamentos, Akira também estava explodindo de sentimentos; raiva e ódio, medo e tristeza, com tudo isso acontecendo, a única coisa que Akira conseguiu fazer foi… Se levanta bruscamente da sua carteira… Segurar o menino mais próximo dele, que neste caso, era o próprio Isaac, e sem nem dizer nada, dar um soco em sua cara com toda a força possível.
Se aqueles óculos eram tão importantes para Isaac, agora eles estavam completamente destroçados.
— UM MÊS SENDO ATORMENTADO; UM MÊS NA MESMA MERDA; UM MÊS ACHANDO QUE ELE GOSTAVA DE MIM… AGORA VAI SER UMA VIDA INTEIRA SEM ELA… A MINHA VIDA TÁ ESTRESSANTE!!! EU NÃO FIZ MERDA NENHUMA, CALA A PORRA DA SUA BOCA UMA VEZ NA VIDA!!!
Não pense que isso parou aí; nesse momento Akira se envolveu por puro ódio; a cada soco consecutivo que ele dava no garoto em sua frente ele repetia para si “eu não matei ela” inúmeras vezes… Como se aquilo fosse mudar o destino que o aguardava.
— UM MÊS… DESSA MERDA… EU JÁ TÔ CANSADO, PORRA! NÃO FUI EU QUE FEZ ESSA MERDA… NÃO… FOI… EU, SEU FILHO DA PUTA, QUER BRIGAR? BRIGA, VAI, BRIGA!!!
Akira já nem ligava para nada; ele socava o garoto cada vez mais forte, ignorando tudo e todos ao seu redor…
Entretanto, foi no momento que Akira viu o Sangue Em Suas Mãos que sua consciência bateu…
Nisso, o puro medo tomou conta dele; o jovem tentou fugir o mais rápido possível, se levantou todo manchado de sangue e correu até a saída da sala…Alguns tentaram segurá-lo, porém, o esforço foi em vão, Akira fugiu… Mas, já era tarde de mais para qualquer coisa…
Mais tarde tudo iria se resolver de sua respectiva forma.