Capitulo 2 - São Seus Amigos?
— Poxa vida, por que desempacotar as coisas tem que ser tão difícil?
— Talvez por que você tá abrindo a caixa pelo lado errado?
— É um quadrado… Como pode ter um lado errado?
— Porra… Deixa que eu arrumo isso… E para de responder minhas perguntas com mais perguntas, é estranho.
— Hehe… É meu jeitinho… Desculpa aí, queridinho!
— Nunca mais fala isso… Vai arrumar as prateleiras antes que o lugar abra…
— Hehe… Te devo uma!
Capitulo 2
Intitulado de “São Seus Amigos?”
Uma semana se passou desde que a família Kurayami chegou em Luary; a sua moradia no hotel Starlight acabou após uma “compra” que Kentaro fez de uma casa até que robusta nos arredores… E bem, é lá que eles se encontravam neste exato momento.
A família estava toda reunida na cozinha, apenas esperando a comida ficar pronta para terem uma refeição juntos.
Em meio aos barulhos de fritura, a família está tendo algo similar a uma reunião familiar, mas ao invés de falar de aspectos sobre a casa, estão apenas matando tempo com qualquer assunto que vem a mesa… Que neste caso, era a “incrível vida de Leonard”.
— E aí… O professor disse: “Não é só por que você é de uma família ágil que você é o mais veloz dessa classe!” com um sorrisinho de deboche… — dizia Leonard, zombando de seu professor aos seus pais.
— É mesmo…? — questionou Kentaro, enquanto fazia uma expressão de surpreso bastante forçada. — E o que você faz após isso?
— Há! Eu não poderia deixá-lo zombar da nossa família desse jeito… Então em uma corrida de 200 metros fiquei em 1º lugar deixando meus oponentes irem à frente primeiro! — continuou Leonard, mais uma vez fortalecendo uma de suas incríveis façanha..
— Ora, ora… Tão verídico… — comentou Ayumi, com um tom baixo e irônico, enquanto lia mais um de seus mangás. — Às vezes esqueço o quão incrível meu irmão é…
— Não é? Heh… E olha que eu ainda fui humilde no meio da corrida! — prosseguiu o garoto, mais uma vez se glorificando. — No final da última volta, outro aluno torceu o tornozelo e eu ajudei ele a chegar até o final da corrida; e mesmo com minha velocidade reduzida, cheguei em primeiro lugar!
— Oh… Minha nossa…! Isso que é uma ação de um verdadeiro Kurayami… — disse Kentaro com um sorriso na cara… Mais uma vez forçado. — Você me orgulha muito, filho.
— Hehe, obrigado, pa…
— Mas não é você que tá com o tornozelo torcido? — questionou Akira, olhando para o pé com gesso de Leonard.
— Ah? Eh… Bem… Isso foi na aula seguinte! Era uma aula um pouco mais pesada… Mas nem tanto como os treinos do papai! Era para gente fazer alguns agachamentos e depois pular cordas… E meio que escorreguei e isso aconteceu… Eh… Hehe…
— Sério mesmo…? — disse Ayumi, deixando seu mangá de lado e olhando para Leonard com uma cara de deboche. — Aki, você não tem a mesma aula de educação física que ele? Isso realmente aconteceu?
— Hm…? Ah, bem… A minha sala não teve aula prática hoje, então não posso dizer nada… — respondeu enquanto olhava para o tornozelo de seu irmão. — Mas… Acho difícil alguém torcer o tornozelo pulando cordas…
— Oh, céus! Chega! — retrucou Arisu. — Não importa se é verídico ou não… Meu neto está com o tornozelo torcido, ele deve ficar em descanso e não ficar se estressando com esse tipo de bobeira!
— Mãe… É apenas uma conversa familiar… Não precisa disso tudo… — sugeriu Kentaro a sua mãe. — E ainda mais, você…
— Precisa sim! Vindo de você, iria colocar ele para fazer aqueles exercícios bobos com o pé assim…
— Vó… Posso fazer isso de bo… — tentou falar, porém, foi interrompido por um olhar de “ordem” de sua avó. — Tá bom… Eu fico de repouso… Hehe…
— Hum… Mas mudando de assunto… E você, Akira? Aqueles garotos que estavam lhe incomodando pararam? — questionou Arisu, mudando de tópico e feição rapidamente.
— É. Acho que sim…
— Como assim “acho”? — indagou Lucindy, começando a pôr as coisas na mesa.
— Eehh… Dei o foda-se para cimas deles e eles deram uma parada com a chacota por um tempo. — respondeu pegando alguns talheres.
— O que eu te disse sobre esse seu modo de falar, Akira? — refutou Kentaro, ignorando tudo que Akira havia dito. — Evite falar assim conosco e em público…
— Desculpa, pai…
— Mas eles realmente pararam? — indagou novamente a mãe, desta vez pondo os pratos com comida na mesa. — Tadã! A comida pronta e quentinha!
— Nah… — respondeu o garoto, enquanto começava a comer. — Mesmo ignorando, eles continuando enchendo meu saco… Mas deu uma paradinha querendo ou não.
— Por que você não diz isso para os professores, ou… Sei lá, o diretor? — sugere Leonard. — Hhhmm~ Delicioso, mamãe! — comentou após comer um pouco.
— Reação é o que eles querem… Se eu reagir vai dá mais um motivo para eles encherem meu saco… Vovó que disse! E ainda mas, acho que não tem tanto motivo pra reclamar com o diretor… É algo bem bobo na verdade…
— Por que você só não bate de volta? — questionou Ayumi, com uma carinha boba.
— Porque ele não é idiota, Ayumi… — respondeu Kentaro.
— Ah… Tá… Faz um pouco de sentido, eu acho…
— De qualquer forma… Mudando de assunto de novo, eu já disse que… — continuou Leonard…
E assim seguiu aquela conversa familiar… sem muitas novidades para ninguém ali; aquilo era apenas mais um dia comum entre eles; Leonard estava falando de sua vida e de como ela é incrível para orgulhar seu pai; Ayumi estava apenas fazendo o que ela mais gostava, que era sendo ela mesma e não ligando muito para algumas coisas “triviais” na sua perspectiva; e Akira… Estava vivendo sua vida sem muitas novidades.
Nada de estranho aqui por enquanto…
As coisas estavam pacíficas, e querendo ou não, indo muito bem para todos; mesmo Akira tendo um peso em seus pés, ele não estava agindo de forma tão vulgar sobre o assunto, e tudo isso por um incentivo de sua avó… E os “mandatos” de seu pai…
Agora… Falando um pouco sobre como a família estava indo; Kentaro logo no segundo dia nos Estados Unidos já iniciou o seu propósito principal de estar ali; no seu primeiro dia de trabalho ele já chegou dando um show, disse ele que todos que estavam tendo-o como professor apreenderam perfeitamente, e isso não era de se duvidar, anos de experiências tornaram Kentaro em um especialista quando o assunto é ensinar a sua “arte”.
E bem… Ele não deixou tão claro, mas… Seus alunos não estavam sendo apenas lutadores “mundialmente conhecidos”… Porém, isso não é tão importante… Por agora.
Lucindy, por sua vez, fez algo simples; ela havia começado a trabalhar em um mercadinho local, e isso por influência de uma das suas novas amigas… É, Lucindy desde sua chegada demonstrou ser bastante sociável com todos da vizinhança… Incluindo seus parceiros de trabalho…
Arisu passa a maioria do seu tempo em casa assistindo televisão, porém ela também ganhou o costume de sair e andar um pouco a pé e de carro pela cidade… E isso mesmo com Kentaro insistindo para ela não fazer esse tipo de coisa…: “você está muito velha para isso, mãe!” dizia ele todas às vezes…: “só tenho 91 anos, Kentaro, eu ainda sou livre para fazer o que eu quiser!” respondia ela todas às vezes.
Akira, Ayumi e Leonard não tinham muitas opções, entretanto; Leonard vive saindo com alguns amigos de escola, e Ayumi passa os finais de semanas na casa de suas amigas fazendo seja sei lá o que…
Já Akira, ao contrário de seus irmãos, passa seus finais de semana em casa cuidando e conversando com sua avó; no meio da semana ele fica um tempo a mais na escola terminando alguns trabalhos escolares; e claro que por conta disso ele ganhou a fama de “nerd” por toda a escola… Todavia: “tá mais para um título que um insulto, qualé, era para isso me deixar puto ou o quê?” pensava ele todas às vezes…
Estou repetindo isso bastante… Ah, deve ser coisa da idade…
Cof, cof… Enfim, este era o dia a dia da família Kurayami até então; nada de tão extraordinário na vida deles por enquanto.
E bom, os dias vão se passando, e essa rotina vai se repetindo cada vez mais…
16 de janeiro de 2015, Frostfall.
— Akira! Aqui, cabeça oca! — gritou Alexandry, “amigo” de Akira.
— Tô indo…! — respondeu no mesmo tom enquanto se aproximava da mesa onde Alexandry estava sentado e se sentando. — Deus… Por que ta tão cheio hoje? Algum evento especial ou algo do tipo?
— Terça do pudim camarada, por que não estaria cheio?
— Tudo isso por um pudim? Sério?
— Sim, porra! Delicioso para um senhor cacete! Inclusive, bobeou dançou…! — falou roubando o pudim de Akira. — Hhhmmm~, oh, delícia, vem pro papai!
— EI! Qualé?
— Já era! — exclamou enquanto comia o pudim em uma mordida só. — Ah, Deus! Obrigado por isso… Dona Mary arrasou nesse…
— Deus… Tá… — resmunga apenas aceitando aquilo e começando a comer o resto da sua comida. — Vem cá, 'cê entendeu o que é para fazer em artes? O professor tava falando qualquer coisa menos inglês… Quer dizer, aquele sotaque é bem forte…
— Tenho cara de coreano, porra? Tu que manja dessas paradas ai… Não eu… Se resolve com ele!
— Não é porque sou asi… Hunf… Esquece… Depois comento com ele sobre isso… Pera… Coreano? Ele não é europeu?
Akira estava no meio da cantina com Alexandry; um garoto que começou a andar com ele por um acaso qualquer; e mesmo tendo uma xenofobia um tanto quanto forte e sendo um babaca a maioria das vezes, Akira apenas aceitava e continuava conversando com ele como se tudo aquilo fosse normal…
Ele foi a primeira pessoa a puxar assunto com ele… Então meio que o jovem Aki não tinha, ou não queria, motivos para perder essa curta amizade…
Querendo ou não, Alexandry é a única pessoa com quem Akira conversa em momentos como esse; Leonard e Ayumi acabam ficando com seus respectivos amigos na hora do intervalo, então ele não tinha muitas escolhas a não ser o Sr. Alexandry, o melhor, e único, amigo que você pode ter sendo asiático!
— Vem cá, é difícil comer de hashi? — questionou Alexandry durante o intervalo.
— Não sei…? Uso colher e garfo desde que me conheço como pessoa…
— E quando foi isso?
— Quando… Oh… Qualé? Por que você me pergunta isso?
— Curiosidade, poh… Responde aí…!
— Deus… Você sabe que nem todo asiático como de hashi, né?
— Mentira, é lei que eu sei!
— Tá, tá bom… É um pouquinho sim…
E assim o dia ia progredindo lentamente; com perguntas bobas e um tanto quanto irritantes; após o intervalo, Akira e Alexandry vão para sua sala, e por sorte de ambos, era uma aula até que simples de física… O professor sabia falar normalmente e não interrompia a aula para narrar sua vida pessoal ou dar bronca aos alunos.
A aula ia passando; pouco a pouco as coisas iam ficando monótonas junto aquele “tick, tack” do relógio, e quando tudo parecia que nada de especial aconteceria para tornar aquele dia em algo maior…
Pooft~!
— Ai…! — emitiu Akira após receber uma bolinha de papel na cabeça.
— Que foi? — perguntou Alexandry sem nem olhar para Akira. — Tão te fazendo de Hiroshima de novo?
— É… E eu já disse que esse tipo piada não tem graça… — respondeu Akira, jogando a bolinha de papel para o lado. — 'Cê sabe que… Ai! — emitiu novamente, após ser atingido mais uma vez por outra bolinha de papel, desta vez com algo escrito nela. — Porra!
— Algum problema, Sr. Akira? — questionou o professor, se virando em sua direção.
— Eh… Nenhum, professor… Eu… Só deixei meu estojo cair…
— Okay… Tome mais cuidado com seu material de preferência. — comenta voltando a escrever no quadro. — Eu falo, falo e falo, mas ninguém me ouve… Que escola boa… Airdryert teria sido melhor…
— Mais uma bolinha? Há, ja sei! Agora meteu uma de Nagasaki, acertei? — zombou Alexandry dando um soquinho em Akira. — Tá a inspirado hoje, né? Hehe…
— Haha, engraçado… — ironizou pegando a bolinha e abrindo-a para ler.
“Estamos te esperando na entrada, vê se não amarela japinha!”
— Oh…? Ah, Merda… Tava demorando…
— Que foi? Cartinha de declaração?
— N-não… Hunf, depois a gente fala sobre isso…
— Iihh… Vai meter uma de misterioso, é? Beleza então… Hehe…
E mais uma vez o dia foi passando; Akira chegou até a citar sobre a suposta “ameaça” na carta para Alexandry, porém o mesmo apenas riu como se àquilo fosse a melhor piada do mundo, e isso enquanto dizia que…
— Ptzz… Haha! Se fudeu! Nisso aí eu não mexo não… Se vira!
— Porra! E ainda se diz amigo, né?
— Não luta taekwondo, jiu-jitsu ou sei lá o quê? Mete a porrada nós caras e pronto! É só fazer isso e teus problemas acabam rapidinho… Tu tá erregando à toa, viu? Vira macho, poh…
— Eu poderia só dizer que “eu não gosto de lutar”, mas se eu fizesse isso eu ia levar mó bronca do meu pai por “usar força em um momento fútil”… E ainda mais, eu nem sei se…
— Então se fode aí, enquanto tu ficar com esse medinho do teu pai você vai continuar sendo vítima de bullying até a formatura… — retruca começando a andar para longe. — Tchauzinho! Não quero participar de briga que não é minha…! Boa sorte e até mais!
— Unf…
Uma cara angustiada e brava lentamente surgiu em Akira naquele momento; provavelmente ele havia percebido o quão essa sua suposta “amizade” com Alexandry estava mais o prejudicado do que o ajudando…
— Quer saber…? VAI SE FODER ALEXANDRY, NEM PENSA APARECER DE NOVO NA MINHA FRENTE! — gritou Akira enquanto via o garoto sumindo lentamente.
Alexandry apenas virou a cabeça e deu um sorrisinho de deboche para Akira, seguido de um aceno de despedida que se tornou em um dedo do meio no final.
Akira ficou ali plantado por um tempo; a ficha não havia batido para ele ainda, demorou mais ou menos uns 15 segundos para ele entender finalmente o que ia acontecer e começar a se questionar se fez a escolha certa ou não…
Entretanto, por uma sorte, ou ironia do destino, ele quase séria salvo…
— Tá parado aí, por quê? — perguntou Leonard, aparecendo com Ayumi atrás de Akira.
— Eh… Esperando vocês…? Quer dizer, esperando pra saber se vocês vão pra casa mais cedo ou… Sei lá, cabular aula…
— É mesmo? E que cara de pachorra é essa? Aconteceu algo? — perguntou Ayumi, se aproximando de Akira com um olhar de dúvida. — Alguma declaração ou algo do tipo?
— Bem… Não, o Alexandry só foi um cuzão… De novo… Eu só cansei dele depois de hoje, nunca mais quero ver ele na vida…
— Nooossaaa~ Que linguajar, hein? — zomba Leonard, se aproximando assim como sua irmã. — O que ele fez dessa vez?
— Bem… Me deixou no vácuo em um momento não tão… Bom…
— Deus… Não me diz que ele te deu um fora? — cogitou Ayumi, com um sorrisinho no rosto. — Coitadinho… rejeitado pelo primeiro am…
— Urgh! Não é por conta que ando com um cara que tenho que namorar ele ou algo do tipo… Ahm… Aqui… — falou mostrando o papel de mais cedo. — Foi isso que aconteceu… Nada de declaração ou qualquer idiotice.
— E o que era para tá escrito aqui? Deus, que caligrafia de… — zombava Leonard novamente, porém logo é interrompido por um olhar de desgosto vindo de seu irmão… — Tá, tá… Também não é para tanto…
— Uma luta? — questionou Ayumi após uma breve lida no papel. — Por quê? Você vai?!
— Não diz que é uma briga, mas… Com certeza é… E eu também não sei o motivo disso, veio do nada… E eu não sei se tenho escolha de ir ou não.
— Olha… Eu até ajudaria, mas tenho horário integral hoje… — comentou Leonard, enquanto destacava um de seus livros. — Então meio que não posso fazer nada.
— E eu vou para casa da Vanny fazer um trabalho… E uma festa! — acrescentou Ayumi com uma cara empolgada. — E se eu estiver certa, o Mikhail vai tá lá! Hehe…
— Mikhail? Mas e o Talys?
— O Talysson? Pelo visto ele tá em um relacionamento com a Mikaela… Então não ia dar pra mim… Mas de qualquer forma! Desculpinha ai, Aki!
— É… Obrigado pelo esforço de qualquer forma… Vocês nunca tão dispostos a me ajudar, né? Mas beleza, obrigado de qualquer forma…
— De nada maninho~… — disse Leonard, abrindo os braços para dar um abraço no irmão, porém parando novamente após um olhar de ameaça vindo de Akira.— Eehh… Okay, parei…
— Melhora como pessoa, por favor.
Nesse momento, a tão famigerada campa bateu, fazendo os corredores já agitados ficarem uma bagunça de pessoas indo de cá para lá.
Leonard se despede e vai para sua sala; Akira e Ayumi vão junto até a entrada da escola, e quando chegam lá, veem em destaque um grupo de três garotos que estavam esperando encostados em uma parede qualquer; nesse momento que ambos chegaram, o grupo de garotos sorriem em direção aos dois, expressando um ânimo descomunal a todos ali.
E como uma forma clara de deboche vindo de Ayumi…
— Bem… São Seus Amigos? — perguntou a garota, com um sorriso forçado no rosto.