Capitulo 19 - Chama O Traiçoeiro

O dia começou de formas diferentes hoje; e isso não era algo tão ruim assim. Aquele prometia ser um dia longo e cheio de coisas novas… tanto para Rafael, quanto para Akira.

— Ó, a gente não tem café, mas sobrou um pouco do refri de ontem… ’Cê quer?

— Eu aceito. Não tô muito afim de ir pra cantina.

— Joia… Se senta aí, ’cê tá meio capenga, merece ao menos um descanso depois de… sei lá o que rolou contigo.

— Valeu…


Capitulo 19

Intitulado de “Chama O Traiçoeiro”

Rafael havia fechado o quarto, os únicos lá dentro eram ele, Akira e a dupla dos dois patetas de ontem a noite. Enquanto o jovem ficava sentado no sofá esperando algo para beber, Luis e Matheus ficaram matando tempo vasculhando coisas no armário. Aquele dia era para ser rápido, mas o simples fato de Akira estar ali fez Rafael pensar que, talvez, ele não fosse nem acabar.

— Meu batom acabou…

— Você usou ele tanto assim?

— Eehh… mais ou menos, eu usava ele só quando tava de bobeira… Ou quando a gente ia sair pra algum lugar.

— Qualé… como eu nunca ti vi com ele então? Pensei que você tinha comprado aquele treco pra alguma pessoa.

— Eu comprei por que acho que fico bonitinho com ele…

— Vermelho não combina tanto com seu cabelo… compra um preto dessa vez, adoraria ver como ficaria em você.

— Fechado!

O rapaz não esperava mesmo que Akira voltasse… que ele voltasse tão cedo. Aquilo, para ele, era algo “único”; e o mesmo deixou isso bem claro quando chamou Akira para entrar e conversar um pouco… Claro, se não considerarmos o modo que ele fez isso; imitar uma série latina para um japonês que mal via filmes é algo realmente… burro.1

Ainda assim, o garoto não demorou muito, afinal, ainda queria sair e resolver suas pendências. Após servir um pouco do refrigerante para Akira em um copo qualquer, Rafael se sentou ao lado do jovem e…

— Ignora o sabor… ele tá sem gás, esqueci ele um pouco aberto ontem… — disse, dando um sorrisinho de leve ao se sentar. — Ma’ ainda serve!

— O… copo do Bob Esponja também não ajuda. — complementou Akira, forçando um sorriso leve também. — Mas valeu, mesmo. Isso aqui já… mata um pouco a sede.

— Nhe, a gente só tem ele ainda por nostalgia. Mas… qualé? O que deu pra ’cê vir assim… tipo, tão cedo?

— Você já tava esperando?

— Um pouco, zé… Mas nunca que eu pensaria que fosse tão cedo. — afirmou, alongando-se um pouco no sofá. — Ahen! Mas, qual é a nova?

— O Lucas. — disse Akira, passando um de seus dedos sobre a parte superior do copo. — Ele… fez merda. Assim como você disse que ele fez antes.

Com um suspiro passado, Rafael revira os olhos por alguns segundos. Em seguida, antes de falar algo, passou mão no queixo de relance. — Nenhuma novidade… Mas, você tá bem? Tipo… o que ele fez contigo? Não me parece ter sido uma brig…

— N-não foi comigo… — gaguejou, apertando o copo um pouco com as mãos. — Se fosse sobre mim, eu provavelmente relevaria mais do que eu to fazendo agora… Eu me conheço

— Puta merda… Com quem ele fez algo?

— Foi com… a Emily.

De repente a sala ficou totalmente quieta; a única coisa que podia ser ouvida era pássaros que começavam a cantar do lado de fora. Por um instante Rafael relutou um pouco consigo mesmo, todavia, assim que notou Luis e Matheus se aproximando pela mesma preocupação que ele, o mesmo teve certeza que aquilo era algo… fora do que ele esperava; de todos os tempos, talvez.

— O que aquele babaca fez com a Emy? — disse Luis, quebrando o silêncio da sala. — Ele não quebrou outra coisa dela não, né?

— Ela tá bem? — complementou Matheus. — Onde ela tá agora?

— Hey, hey! Dá espaço pra ele falar, negada… nem só de pergunta vive o homem, tá? — falou Rafael, esfriando um pouco a cabeça dos dois patetas. — Vai… ’cê consegue explicar pra gente isso direito? O que ele fez com ela, Akira?

— Ele… ele tentou… — murmurou Akira, tentando pensar na melhor forma de explicar aquela situação. — Depois da festa, ele levou ela pro quarto mais cedo… Saí por último depois de… um problema e… quando tava preste a chegar no meu quarto, eu ouvi ele… ouvir eles conversando.

— Sobre? Não me diz que era algo sobre você ter vindo aqui ontem? — cogitou Matheus. — Ele culpou ela de novo, não foi? Que desgraç…

— Não… eles não ’tavam falando sobre vocês ou algo daqui… quem dera fosse sobre mim. — respondeu Akira, levantando um pouco a cabeça. — A-aquele merda… ele tava tentando forçar ela a… Ele tava… tentando… forçando… Deus, ela disse que aquilo tava doendo… Ele só tava segurando ela no começo, mas… depois de tudo, o que pode ter acontecido? Eu… Argh… Essa droga é frustrante, só de lembrar do sorriso daquele psicopata, tudo que eu quero é… explodir… por qual razão falar isso é tão difícil?

— Hey… — disse Rafael, segurando no ombro de Akira por um estante. — Se acalma, irmão… Primeiro de tudo, isso é sério mesmo? Aquele imbecil realmente tentou… abusar da Emy?

— Tch, Rafa, ele não brincaria com isso… O guri tá falando a verdade. — respondeu Luis de antemão. — Aquele loiro oxigenado… a gente sempre soube que ele ia ferrar com ela; ela não deveria ter saído daqui e ir lá pra baixo. ’Cê faz alguma coisa? Por favor, me diz que você fez algo… aquele desgraçado não podia usar os outros como ele quer. Primeiro o Dimi, agora… isso?

— Eu… discuti com ele. No máximo ele tá com um olho roxo agora e… talvez um lábio cortado. — afirmou, deixando um pequeno sorriso escapar de relance ao citar que fez. — F-fora isso, eu não sei o que deu em mim… eu sempre acabo só fugindo quando vejo que fiz alguma merda. Ainda assim, eu tecnicamente não fiz nada, a merda que eu fiz ontem só vai me…

— Qualé, você não fez uma merda… — disse Matheus, tentando confortar o jovem. — Quer dizer, você assinou um contrato de morte com o Lucas por bater na cara dele… mas isso é detalhe. Mas… você viu a Emily hoje? Sabe nós dizer se ela tá bem? Pelo menos saber que ela tá bem já ajudaria um pouco pra gente… ou pra mim.

— Não vejo a cara dela desde ontem, depois da fasta… Eu não cheguei a entrar no quarto dela; aquela praga não me deixava passar de forma alguma. Eu tentei forçar, só que ele insistiu tanto que… escalonou pra uma briga no fim da noite.

— Porra! — exclamou Luis, dando de braços para cima em revolta. — Tinha que ser o senhor protagonista dessa merda de lugar! Fez mais que certo de bater nesse arrombado… Tinha que bater mais, um chutão no saco desse desgraçado pra ele não querer fazer essa merda mais!

— Jesus… Akira, desculpa perguntar desse jeito, mas… o puto chegou a fazer alguma coisa irreversível? — indagou Rafael, passando a mão por trás da cabeça. — Tipo, ele é Spark… Quando você viu essa droga acontecendo, ele…

— Ele tava tentando abusar dela. — falou seco, limpando a garganta em seguida. — Eu cheguei antes dele conseguir, mas… depois que a gente discutiu, ele voltou para o quarto dela. — continuou, começando a apertar o copo com força. — Depois disso, eu não sei de mais nada.

— Saquei… Puta merda… o dia começou foda já… — resmungou o rapaz, passando suas mãos sobre seus olhos.

— Foda? FODA⁈ — exclamou, dando alguns passos em direção a Rafael com um dos punhos serrados. — Cacete, Rafa, esse dia começou perfeito pra gente encher aquele merda de porrada! Ah, mais pera… a gente não pode, e por qual razão? Por que ele vai…

— Hey, Luis… começa não. — cortou, segurando o punho de Luis e puxando ele pra baixo com cara de pacho. — A gente sabe que você que espancar o Lucas, mas por hora…

— “Por hora ele tem mais privilegio que a gente, a Liz iria…” ou algo assim. — arremedou Luis, dando de ombros logo em seguida. — É, eu sei… Deixa eu surtar, porra!

— É, ’tão surta baixo… por hora a gente vai ter que ir com o plano B pra hoje…

— Quê? A gente tem algo preparado pra isso? — indagou Matheus, sentando-se no ombro do sofá. — Tipo, como assim “B”?

— Nah, mas eu tenho uma ideia… — contestou Rafael, dando um sorrisinho leve. — ‘Cês lembra’ do caso do Jasper e aquela aluna?

— Eu lembro… — afirmou Luis, sentando-se ao lado de Matheus. — Ao cara que o Italo e o Vlad desceram o cacete…

— Então… Bora de plano “Bota pra foder”! Fala pro Vlad ir atrás da Emily… só pra ver se ela tá bem. ’Cê explica o que rolou pra ele; afinal, o cabra já tava querendo descer a porrada no Lucas mesmo… E diz pra Luna ir junto, ela pode…

— A Luna? — interrompeu Matheus, tentando mudar se posição, e falhando por conta que Luis está sentando ao seu lado. — Ahn… Ela não ia com a gente hoje? Eu não vou trazer as compras sozinho de novo…

— Porra… real… Eu acho que a gente poderia trocar ela por…

Era bizarro ver aquilo. Quer dizer, era bom ter falado com alguém sobre o que Akira passou ontem, mas… vendo o jeito que Rafael reagiu sobre isso, Akira se perguntou por qual razão ele ainda insistia nisso…

— Vamo’ levar o Alan…

— Ele é nosso porteiro, Rafael… E por qual motivo você só lembra dele em momentos como esse?

— Cacete, verdade… Sempre confundo porteiro com chaveiro.

Rafael tentava ser, minimamente, logico naquele momento. Mesmo com a informação sobre o que aconteceu com Emily, o rapaz tentava seu máximo para se manter calmo — mesmo que deixasse escapar uma ou duas baforadas ao citar algo envolvendo o loiro.

— Que tal o Italo? Só o Vlad vai tá ocupado com o Lucas, então…

— Hoje é aula do Rubert, ele não vai perder educação física… sabe como é, né?

— Ma’ que caralho, aí fica difícil pra gente…

Luis e Matheus também eram dois que não deixavam a esconder nada do que sentiam; enquanto Luis ficava perambulando de um lado ao outro balbuciando coisas sobre Lucas, Matheus ficava apenas ouvindo e mexendo os dedos inquietamente. O trio, no fim de tudo, estavam realmente preocupados com o ocorrido, todavia, diferente de Akira, tinham noção que deixar a emoção os levar daria muito errado.

— Dave, Jaime ou Afrain?

— O Dave tem coisa marcada com a Luna, Jaime vai ficar responsável pelas chaves do andar, Afrain vai ter que limpar as coisas de ontem…

— Seu repertório de alunos que a gente confia tá acabando, Rafa… O jeito vai ser só a gente mesmo.

— Porra? Tem que ter alguém…

E no meio de tudo isso; de toda confusão que Akira trouxe até eles, o mesmo se mantinha da mesma forma que chegou. Por sorte, isso despertou uma ideia bem simples para Rafael.

— Já sei! Hey, Akira… sabe o que você tá precisando agora?

— Hã…? O quê?

— Esfriar a cabeça! Vem cá… tá afim de vir com a gente?

— Ele⁈

— Eu⁈

— Yep, você! Um carinha que nem tu precisa relaxar um pouco depois disso tudo, não acha? Me diz, tem jeito melhor de fazer isso do que sair dessa joça aqui?


Aquilo foi inesperado. Sair daquele lugar? Isso era, sem dúvidas, tentador… mas, ainda assim, isso era seguro?

Akira se viu em um turbilhão de pensamento. A segurança que o mesmo pensava nem era sobre ele, e sim sobre Emily. No fundo, tudo que o garoto queria era realmente sair daquele inferno, entretanto, ignorar as possíveis consequências disso era tenebroso.

O jovem olhou para baixo por um instante, pensando se aquilo era realmente o certo, e antes que conseguisse ter uma resposta por si próprio…

— Você tá com medo de deixar a Emily sozinha, né? — disse Matheus. — Olha… se serve de ajuda, o Vlad já matou alguém… e ele é nosso amigo.

— Sem contar que ele odeio o Lucas mais que geral aqui. — complementou Luis. — Hey, guri, a gente sabe que “ele matou alguém” não é uma boa justificativa… mas confia no que a gente diz, geral desse andar odeia aquele cuzão do Lucas. A gente só não faz nada contra ele pra… tch, não reprovar na hora errada…

— Se você tiver dúvida que ela vai tá bem, a gente chama ele aqui pra você mesmo falar com ele… — sugeriu Rafael. — Garanto que ela vai ficar bem. O Vlad não brinca em serviço.

Respira fundo, Akira… Eles sabem do que estão tratando; e você sabe que eles sabem disso. Talvez, dar uma chance não machuca que nem foi da última vez.

— Unf… Tá bom… mas eu vou querer ver ele. Eu não quero sair daqui com a chance daquele idiota fazer algo.

— Hehe… garanto que não vai se arrepender. Luis, vai lá, Chama O Traiçoeiro.

— ⽕ —

“As coisas no terceiro andar sempre foram rápidas e bagunçadas, mas a Emily sempre tentou o máximo pra ajudar geral aqui. Mas isso mudou desde que o Lucas puxou ela pro grupinho dele. Aquele babaca achou mesmo que ela ia concordar com os ideais dele; já a gente pensava o contrário. No fim, ela sempre ficou entre a espada e o escudo; o pessoal daqui sacou rápido o motivo disso, e mesmo com um trilhão de avisos… eles começaram a namorar. E tipo, foi pouco tempo, sabe? Pouco tempo pra eles começarem relacionamento… e pouco tempo pra ele fazer algo de errado com ela. Mas, ainda assim… pra falar a verdade, acho que ninguém pensava que esse ‘algo de errado’ seria algo como tentar abusar dela…”

— Como é a história⁈ Aquele loiro filho da puta tentou o quê⁈ — exclamou Vlad, com uma cara assustada. — Conta essa caceta direito, ó, pau no cu!

— Cacete… que parte ’cê não entendeu?

— Tudo, porra! Você me chama aqui do nada, começa a narrar a vida da Emily e termina com o Lucas abusando dela⁈ Era pra eu ficar tranquila com isso, ó, seu filho da puta⁈

Rafael nunca… Não, na verdade, não há maneira certa de explicar essa situação para ninguém; até mesmo para quem já sabe que tipo de pessoa Lucas é. Rafael nunca imaginaria uma reação diferente daquele para falar a verdade. Era mais que certo ficar indignado com aquilo…

Mas… voltando um pouco antes de prosseguir… Como foi dito, Luis saiu por poucos segundos e voltou acompanhado pela figura mais gótica do local — que, ironicamente, você já conhece, pequenino. Vlad não teve nem tempo de se arrumar direito, olhe lá processar essas informações. Sua mente estava tão embaraçada naquele momento quanto seus cabelos; sua cara estava tão bagunçadas quanto sua camisa… Tudo que o garoto conseguiu processar naquele curto período foi…

— Posso mata’ ele finalmente?

— Faz isso e ’cê vai pro xadrez… O plano de reprovar não funciona com você, lembra?

— Ma’ eu morro levando ele junto. Parece justo pra mim!

— Ó, cabeça, o Rafa pode explicar o plano ou não?

— Nah, tô de boa… Brinks, vai, fala. Mas já vou falando, se for merda, eu chamo o Italo e a gente acaba com a raça daquele loirinho ferrado.

— Tá, se liga… não é nada tão complexo assim… tudo que você vai precisar fazer é…

Akira ficou ali, encarando e ouvindo Rafael e Vlad conversarem sobre tudo que o jovem havia dito até então. Era até estranho ver que Rafael não se segurava para falar sobre aquilo; algo que Akira estava fazendo, mesmo que indiretamente.

— _… A gente sabia que ele não era boa pinta, mas não achávamos que ia ser nesse nível… A ideia é você só ficar na cola dele e ver se…

Além disso, Akira também não pôde deixar de notar a forma que Vlad agia e falava. Ao mesmo tempo que ele parecia preocupado, o Traiçoeiro ainda tinham uma calma e humor que era… tenebroso.

— … Eu sendo um stalker? Isso é novo… Quer dizer, eu já fiz isso antes com a Luna…

— Você stalkeava a Luna?

— Não, a gente stalkeou uma galera um tempo atrás… Stalkeia até hoje. Coisa dela, eu só participo.

Era uma conversa tão… normal para aquele assunto. Não era como as conversas do primeiro andar; era algo diferente. Só que… diferente de um jeito bom. Akira sentia que o que Rafael disse era realmente verdade; mas, ainda havia uma coisa que o mantinha com uma pulga atrás da orelha. Algo tão simples que o fez encarar tudo aquilo com um olhar um tanto quanto… duvidoso. Felizmente, aquele Akira que não perguntava nada estava sumido lentamente…


— Porque “O Traiçoeiro2”? — questionou o jovem, quebrando seu silêncio até então. — Tipo… não é querendo dizer nada, mas isso não me passa uma boa sensação. Como que eu confio num traiçoeiro?

— E lá vamos nós de novo…

— Ah, mas ele tem um ponto, vai! Meu titulo não é um dos melhores também…

— Cacete, ’cês não explicaram pra ele o básico?

— Não é meio autoexplicativo?

— Se fosse, eu não teria perguntado…

Bom… aquilo não era nada tão difícil de explicar, pela sorte de Rafael. Desde sua primeira semana na escola, Akira havia sido introduzido para alguns conceitos bobos do lugar… Primeiro, todo aquele lance de hierarquia que, para falar a verdade, ele não entende direito até hoje; depois, um fator que começou a ficar mais evidente desde ontem… Os títulos…

“Bom… como eu explico isso? Todo mundo aqui tem meio que um papel… e esse papel meio que vira o jeito que ele é conhecido por geral. Embora isso seja usado mais por a gente daqui do terceiro andar, o pessoal do primeiro e segundo também usa. Com menos frequência, é claro. E… é algo autoexplicativo; eu, por exemplo, sou ‘O Conselheiro’, já que… geral gosta quando eu dou um conselho ou, sei lá, ajo pela rapaziada… O Luis, por outro lado, é ‘O Briguento’, por conta que a primeira semana dele aqui foi… cheia de briga; e é até hoje, ele vive em confusão. E assim por diante… Agora, sobre o Vlad? Cara… é algo mais bobo, não é nada sobre ele passar a perna em geral, é mais sobre…”

— Puta que pariu, Rafael! Fala pra porra pra explicar o básico! — interrompeu o próprio Vlad.

— Ai até eu tó com ele, Rafa… — assentiu Luis. — Ele trapaceia em jogo de carta. Em grande resumo, é isso.

— Habilidade não é trapaça!

— Tchz, que se dane! Isso aqui já tá pegando tempo demais… A gente vai sair ou não?

— Deixa os caras se conhecer primeiro… O Akira não disse que…


“Aquele quarto era um caos”.

Essa era a única coisa que passava pela cabeça de Akira ao ver aquele grupo em sua frente tentar ter uma conversa normal. Mas, o que ele queria? Aquilo era Bonfire, afinal… “Normal” não era nada comum naquele lugar.

“Um caos… organizado, talvez…”

Ainda assim, Akira conseguiu ver que aquilo era realmente diferente. Era algo que… ele não sabia explicar; diferente de tudo que ele passara até agora, aquilo… só parecia o certo a se fazer. E, o que mais Akira teria a perder? O garoto sabia que sozinho não iria conseguir fazer nada, então… por que não arriscar?

“Eu… já tô um caos mesmo…”

Vendo aquele grupo falando daquele jeito; agindo daquela forma e, acima de tudo, tudo isso apenas para provar um ponto que já havia se perdido no começo do discurso que Vlad mal começou, o garoto teve, por fim, a sua decisão. Decisão essa que mudaria tudo da sua vida mais para frente…

Com um último suspiro, Akira observou aqueles em sua frente mais uma vez e, com um sorriso um pouco mais calmo…

— Não… tá tranquilo. Eu saquei. Preciso mesmo sair um pouco, deixar isso corroer vai me ferrar; e se você diz que o Vlad cuida do resto enquanto a gente estiver fora… eu acredito. — comentava o garoto, se levantando e alongando um pouco enquanto dava alguns passos em direção de Vlad. — Acredito mesmo que isso possa rolar. Mas… ainda assim, se qualquer coisa acontecer… eu cobro.

— Heh… o garoto tem culhão… Gostei de você, sabia? — murmurou o traiçoeiro, retribuindo a fala de Akira com um sorriso maroto. — Pode relaxar, comparça. Se tem alguém que odeia mais aquele filho da puta, esse alguém sou eu. Mas aparentemente alguém quer pegar meu lugar, né? Vai ser legal competir com alguém sobre isso… O primeiro a encher ele no soco vence.

— Tch… então eu venci desde ontem! Já viu a cara dele?

— Pera, quê⁈ Foi tu que fez aquilo⁈ Ma’ aí não tava valendo! Eu nem te conhecia…

— Hehe… De boa… Piada a parte, só… toma conta das coisas. Eu realmente ia me sentir péssimo se alguma coisa acontecesse com a Emily enquanto eu tava fora. — disse o jovem, pondo uma mão atrás do pescoço. — Mas… eu também sinto que se ficar aqui vou acabar piorando as coisas. Não sei lidar com esse tipo de coisa; então… acho melhor eu realmente esfriar a cabeça por enquanto. — terminou, virando-se lentamente para direção de Rafael. — Valeu mesmo por me ajudar com isso, Rafa, eu realmente não sabia com quem falar sobre toda aquela merda… Você é um salva-vidas.

— Amigo tá aí pra isso, né, não? — retribuiu Rafael com um sorriso.— Se ’ocê tá dizendo, então tá falado. Eu acho que isso então; Vlad, tua missão de hoje tá programada! E… Akira, se ’cê vai com a gente… esquece qualquer compromisso de hoje, a gente volta só de noite provavelmente.

— Não esquece de trazer o binóculo da Luna dessa vez, viu? Ela vai te esganar se você esquecer de novo.

— De noite? Pera… pra onde vocês tão indo mesmo?

— Eheh… ele tem muito o que aprender ainda…

— A gente tá indo fazer compras, e o supermercado mais próximo é bem longe daqui…


  1. Se não ficou claro o suficiente, o Rafael imitou uma daquelas cenas de Chaves onde a dona Florinda chama o professor para tomar café.↩︎

  2. O Vlad teve um total de quatro título durante o desenvolvimento dele como personagem. O primeiro era ofensivo demais, criado quando eu era um adolescente sem noção de muita coisa; o segundo foi “o vampirista”, como forma de piada pelo nome, enquanto o terceiro era tão esquecível que eu nem lembro qual era. No fim ficou como Traiçoeiro, já que combinou com os dois estilos que quero passar com o personagem; fanático por cartas e jogos de baralho, e um cara astudo sobre suas ações.↩︎