Capitulo 18 - A-KI-RA〜!
O céu já estava claro, mas Akira ainda não queria sair de seu quarto. O garoto encarava aquele céu limpo pela janela na espera de uma única coisa… Um único sinal que lhe daria a afirmação de que já era hora de agir… Ao menos, Akira já estava esperando-o dessa vez…
— CACETE, MAXWELL!
— NEM VEM COM ESSA, FELIX!
Era hora de sair e encarar a realidade, Akira…
Capitulo 18
Intitulado de “A-KI-RA〜!”
O tempo passou; Akira não dormiu e nem fez nada além de esperar. Algumas horas se passaram e, enquanto aquele sol radiante invadia seu quarto, o garoto ficava ainda mais ansioso. Após um tempo, ele ouviu finalmente o que queria: aquela fatídica briga matinal de Maxwell e Felix.
O que isso importava, você me pergunta, pequenino? Bom… nada. Apenas que o tempo que Akira tinha acabou; que ele teria que sair de um jeito ou de outro. Aqueles dois brigando, ao menos, eram uma ótima forma de avisar o jovem sobre isso. Além disso, eles poderiam ser a distração perfeita para Akira sair de mansinho…
No fim, Akira fez o convencional — ou quase. Penteou seu cabelo e, em uma ação que ele nem soube o motivo, amarrou-o com um elástico qualquer que achou numa gaveta de sua cômoda. Além disso, quando foi se vestir, Akira não optou pela farda da escola; desta vez, ele pegou apenas uma camisa qualquer. Quando notou, tudo isso era apenas uma tentativa de não ser reconhecido. Se o jovem encontrasse algum óculos por ali — e acredite, ele procurou —, com certeza usaria… Só faltava ele trocar de nome e começar a agir como advogado de criminosos.1
Após toda essa preparação, o jovem deu alguns tapinhas na própria cara para “acordar”, e com uma última ação, se olhou no espelho e…
— Um pouco de não, não faz mal… Tá tudo bem… tudo bem… Você consegue…
— ⽕ —
E lá estava ele, cara a cara com a porta de seu quarto; sua mão já estava na maçaneta, tudo que o garoto esperava era só mais uma chance para poder sair… e claro que isso não seria difícil, Maxwell e Felix sempre ficavam um bom tempo naquela besteira…
— … VAI, EU DUVIDO VOCÊ FAZER ISSO, IDIOTA!
— … AH, É? CAI PRA CIMA ENTÃO, VAMO’ RESOLVER ISSO AQUI E AGORA!
— … AH, VAI QUERER METER UMA DE DURÃO AGORA? BELEZA ENTÃO…
Ah, como era bom entender como aquele corredor funcionava… parcialmente, é claro.
No fim, tentando utilizar a briga incessante daqueles dois como forma de escape, Akira abriu sua porta; e lá estavam ambos, um colado no outro, caras mais zangadas do que qualquer coisa… parecia até mentira… atuação, talvez? Quem liga, todos já sabiam a verdade mesmo…
Akira nunca havia prestado atenção naqueles dois para falar a verdade, no máximo estranhou na primeira vez, e já na segunda entendeu como a “dinâmica” deles funcionavam. Ah… e que dinamica colorida… Vamos lá, aqueles dois estavam realmente discutindo ou…?
Opa… quase digo o que não devo… Perdão, pequenino, me empolguei; lembrar daqueles dois é uma das únicas boas memorias que ainda tenho.
Cof, cof… Logo após ver o cas… digo, a dupla de encrenqueiros em sua frente, o jovem olhou para um lado; depois para o outro; mais uma vez para os dois em sua frente e, finalmente, deu o primeiro passo para fora do quarto. Era só uma trilha sonora de suspense daqueles desenhos antigos e essa cena seria ainda mais… comicamente patética. No bom sentido, é claro.
No fim de tudo, pareceu que todo cuidado foi à toa; nada de novo no ar, eram as mesmas pessoas de sempre, com os mesmos hábitos de sempre e as mesmas conversas bizarras de sempre. Aquilo de alguma forma fez o garoto relaxar um pouco; ninguém olhou torto para ele, e isso já era uma vitória! Provavelmente não havia dado tempo para aquela praga — modo que Akira preferiu optar por chamar Lucas em sua cabeça — contar para os outros.
Falando nele, Akira ficou ainda mais feliz quando notou a falta dele naquele corredor. Talvez o menino se importasse tanto com sua aparência que não queria que os outros vissem ele do jeito que Akira o deixou — aquele havia sido um belo soco, não é mesmo? Não querendo dizer nada, mas… pelo menos ele havia deixado um olho roxo no loiro… ou dois… talvez os lábios cortados… Ah, quem liga para detalhes, não é? Estava escuro no final de tudo, da na mesma. O importante era que Akira bateu nele; e que o mesmo se sentia, relativamente, bem com isso.
Com seu segundo passo dado para fora do quarto, mais uma vez, nada fora do normal. No máximo, Maxime e Ethan tendo mais uma de suas discussões de como explodir uma… na verdade, qualquer coisa, o importante era que algo devia explodir.
— E nitrogênio líquido?
— Por que logo nitrogênio? Não seria mais fácil usar oxigênio?
— Até por que usar OXIGÊNIO líquido faz sentido, né, animal?
— Qualé, você tinha sugerido transformar a água em plasma…
— Ah, mas… plasma é um estado da matéria…são coisas diferentes.
— E líquido também não é, animal?
Estava tudo ótimo; tudo como Akira queria; nada havia mudado. Enfim, após uma boa olhada completa pelo corredor, o jovem finalmente decidiu andar. Foram mais um, dois, três… e, enfim, em seu quarto passo…
— A-KI-RA〜!
Oh, como a improbabilidade do universo conseguia surpreender Akira cada vez mais.
Bom… lembra que Akira não ligava tanto para Maxwell e Felix até hoje? Bom, nunca disse que ele era o único, e nunca foi; como já dito antes, estava tudo normal… nada havia mudado, e de alguma forma inexplicável, isso também incluía Lucas e seus comprimentos esquisitos no começo de cada dia…
Ninguém disse que seria fácil sair de fininho. Mas… aquilo já era sadismo do universo contra o jovem. Ou sadismo de Lucas.
— Bom dia, Aki! Como você tá⁈ — disse o loiro, aproximando-se lentamente de Akira. — Cara, ontem foi insano!
Da forma menos esperada possível, assim que Akira começou a andar, ouviu algo que ouvia diariamente; e o que era? Maxwell e Felix? Não, isso já era óbvio. Crimes e calúnias sendo ditas de forma irônica? Nah, Akira já havia se acostumado com isso. Na verdade, o que o jovem ouviu foi uma coisa tão banal que o mesmo nem pensava poder acontecer…
Desde sempre Lucas cumprimentava Akira escandalosamente no começo do dia, mas por algum motivo ele inventou de fazer isso mais uma vez, mesmo com o que havia acontecido na noite passada.
Quando notou, Lucas já havia se aproximado dele com um sorriso em sua cara.
Droga, como ele ainda podia sorrir e falar algo depois de tudo aquilo⁈
— Deus, aquela foi a melhor coisa que a gente fez há um tempão! Eu tava sentido falta dessa emoção toda! Foi tão legal quando a gente se juntou e…
O garoto estava como Akira esperava; uma cara toda machucada — provando de vez que tudo aquilo foi verdade —, mas, mesmo assim, parecia nem ligar para isso. Que diabos, Lucas? Até que ponto esse sadismo vai? Por que continuar com algo que…
— … Claro, teve uma confusão aqui e ali, mas deu tudo certo no final! Ah, inclusive, obrigado mesmo por tomar de conta do lugar enquanto eu melhorava, você salvou minha vida! Fico feliz em ter um amigo como você…!
“Amigo…”
É sério isso? “Amigo”? Mesmo depois de tudo aquilo⁈
Deus… ele só piorava tudo a cada palavra… o assustador de verdade era pensar que ele fazia isso de propósito… Sua cara deixava isso claro; mesmo ela sendo a mesma cara ingênua que Akira acreditou antes.
Sem nem notar, Lucas havia colocado seu braço sobre o pescoço de Akira, puxando ele um pouco mais para perto — afinal, seu senso de privacidade era, e sempre foi, duvidoso —; e, ainda com um sorriso em seu rosto, exclamava cada vez mais de tudo que aconteceu ontem. Menos o que realmente importava.
— Mas não pense que esqueci, viu? Você não dançou com ninguém! Dá próxima vez você não vai escapar!
“Dá próxima vez…”
Que próxima vez? Akira, não me diga que está pensando em repetir tudo aquilo de novo? Não… claro que não; você não é maluco, e nunca foi… você nunca faria isso…
Akira não sabia como reagir sobre aquilo, tudo que o garoto fez foi ficar parado enquanto ele ouvia o loiro falar e falar cada vez mais. Maxwell e Felix não serviram de nada no final de tudo; todo aquele preparo mental não serviu de no final de tudo.
O jovem não sabia o que dizer, as únicas coisas que passavam na sua cabeça nem faziam sentido. No final de tudo, a única coisa que Akira pode fazer foi…
— O-o quê… você… o que…
— Ahn? Ah, você deve tá se perguntando o que rolou com minha cara, né? — disse Lucas, apontando para si. — Rapaz, te contar que eu nem sei… provavelmente devo ter tropeçado em algo, ou quem sabe dei de cara em alguma coisa… O que você acha?
— N-não… isso… não foi o que…
— Ah! Você tá certo, eu posso ser desastrado, mas eu não sou que nem o Dominique,2 né? Hehe…
Aquilo não estava certo… nem um pouco. Vamos lá Akira, não seja um idiota e fique parado, faça alguma coisa!
— Mas quem liga pra isso, né não? Eu passo na enfermaria mais tarde… é só não deixar a Liz ver isso e tá tudo bem! Mas, falando sobre hoje… eu tava pensando…
— Não. N-não…
— Quê? Como assim? ‘Cê tem alguma ideia melhor ou…
— NÃO! — exclamou Akira, empurrando Lucas um pouco para o longe. — NÃO VEM COM ESSA PRA CIMA DE MIM, PORRA!
— Hey! Calma… o que foi? Você tá bem?
— QUÊ?! CLARO QUE NÃO! NÃO SE FAZ DE IMBECIL!
Uuhh… convenhamos, você poderia ter feito algo melhor do que isso, Akira. Você levou a parte do “qualquer coisa” muito ao pé da letra…
De tudo que podia acontecer, Akira nunca imaginaria que aquilo fosse acontecer depois da noite anterior. O que era “aquilo”, ao final das contas? Uma chacota? Uma formar de concertar o que fez ontem? Ou… era apenas loucura de Lucas?
Não… aquilo definitivamente não estava certo. Akira já havia visto a expressão daquele garoto mudar de um instante para outro, ele não iria cair no mesmo truque duas vezes; mesmo que isso custasse todo o plano de sair daquele andar sem chamar atenção. No fim, quem precisa de planos? O tempo sempre muda eles; ninguém escolhe o que acontece. E mesmo que Akira quisesse escolher, o seu “eu” interior era bem mais explosivo do que ele pensava…
— Akira… o que deu em você? ’Cê ta bem…? — indagou o loiro, dando pequenos passos para trás.
— Não… Definitivamente não. Que merda você pensa que tá fazendo⁈ Que merda você pensa que tá falando⁈
— O… quê? Qualé, você tá brincando ou… — continuou, desta vez tentando se reaproximar de Akira.
— Ah, corta essa! Você ainda fala isso depois de tudo que aconteceu⁈ Você acha que eu sou um imbecil ou o quê⁈ EU NÃO VOU CAIR NESSA DROGA, ENTÃO PARA DE…
Sem nem notar, lá estava ele, gritando sem nem ligar; Felix e Maxwell, que eram para ser supostamente a forma de escape de Akira, estavam utilizando Akira como forma de escape… É, Akira, parabéns, você chamou atenção até de quem nem lhe conhecia. Que ótima forma de começar o dia!
— Tzs… que droga… Qu-que se foda… VOCÊ QUER SABER MESMO O ACONTECEU COM SUA CARA? FUI EU, EU DEIXEI ELA DESSE JEITO DEPOIS QUE VI A MERDA QUE VOCÊ TAVA FAZENDO COM A SUA NAMORADA!
— Mas que merd… Cof, cof… Hey… o que você tá falando… ontem eu só fui direto pro meu…
— LUCAS, PARA DE FAZER DE SONSO! — disse, avançando para cima do loiro. — VOCÊ QUER MESMO QUE… VOCÊ… Você… V-você…
Mais uma vez, Akira parou; não por medo, não por ser impedido por alguém, apenas pelo que o mesmo via em sua frente. Lucas continuava sorrindo. Quer dizer, ele parou quando Akira começou aquele escândalo, mas desde que Akira se aproximou do mesmo, tudo que o mesmo fez foi ouvir com um sorriso no rosto.
Akira apenas ficou incrédulo com aquilo, não soube reagir; e mesmo que soubesse, nada tornaria aquele momento favorável para ele… Principalmente quando ele começou a ouvir duas coisas: a voz de Alex começando a ecoar no fundo do corredor…
— Ó, SAI DA FRENTE, CACETE, DEIXA EU PASSAR!
… E, acima disso tudo… com a resposta mais seca possível que ele poderia receber.
— E olha que tentei te ajudar. Aparentemente alguém aqui não entende o que é uma segunda chance, né, Akira? — disse o loiro, mudando brevemente de expressão. — Bom, minha parte eu já fiz. Aproveita o inferno, babaca.
— Seu… seu desgraçado… nem mentir mais você consegue… olha só pra tudo isso… O que você tinha na mente quando…
— Do que você tá falando, Akira? Eu… não tô te entendendo… Eu, mentindo? Eu nunca faria isso… Já você, acho que seria bom inventar uma mentira logo pra minha cara… ou se não, diz adeus de uma vez pra isso tudo. Ah! Que tal assim? Considere essa uma última chance, tá? Por nossa amizade… e talvez por sua vida.
Mais uma vez, tudo havia dado errado. Mas… por alguma razão, Akira não estava tão tenso quanto ele pensava… na verdade, ele só estava com raiva; raiva essa que, de alguma forma, ainda não tomou conta dele por completo.
Lá estava ele, cara a cara com Lucas. Se dependesse apenas do que passava em sua cabeça, Akira avançaria mais uma vez para cima de Lucas; todavia, aquilo já não dependia disso, o garoto tinha em mente que, naquele momento, já não dava mais para agir sobre impulso; aquilo que Lucas havia dito sobre “ninguém acreditar” nele incluía aparentemente o próprio Lucas e, quem sabe, até mesmo ele. Akira não podia fazer nada, e o motivo já era óbvio, se não fosse por conta daquela multidão de loucos, ele seria o louco; se não fosse pela aparição de Alex, ele seria mais que um louco…
— Ó, seus merdinhas, que merda tá rolando aqui? Deu pra ouvir essa droga do outro lado do corredor, cacete. — disse Alex, após se aproximar o suficiente de ambos. — Eita… que droga aconteceu com teu rosto?
— Isso…? Eu… pensei que tinha tropeçado em algo ontem, mas… mas… — gaguejou Lucas, propositalmente, voltando mais uma vez ao seu “normal”. — Akira… você tá falando sério? Foi você que…
— Deus… Lu-Lucas… para com essa merda, para com essa droga… Só admite, apenas… admite. Não me diz que você também tá mentindo pro Alex… pra todo mundo.
— Admite o que, caramba? — questionou, virando confuso para direção do jovem. — “Mentindo”? Do que ’cês tão falando?
— Akira… eu já disse, eu não sei do que você tá falando… Por que isso, tipo, do nada? Se algo tiver acontecido, pode falar… eu não vou ficar bravo…
— Alô? Algum de vocês tá me ouvindo? — indagou mais uma vez, voltando o olhar para o loiro. — Eu não posso ajudar se não souber o que tá rolando… Desembuchem de uma vez!
— Do nada? DO NADA⁈ — exclamou, partindo mais uma vez pra cima de Lucas, dessa vez segurando o mesmo pela gola de sua camisa. — Você passou UM MÊS fingindo algo, fazendo parecer que… aqui era um lugar normal… só pra… só pra quê? Me diz, o que você ganhou com aquilo⁈ ME DIZ, LUCAS, O QUE CARALHOS VOCÊ GANHOU TENTANDO ABUSAR DA…
— HEY, HEY, HEY! — interrompeu Alex, puxando Akira para longe de Lucas. — Que porcaria é essa daqui? Tá maluco? Isso daqui não é cabaré não pra ter esse tipo de briga. Vai, me diz, o que…
— Akira… o que o Rafael falou sobre mim para você? O que ele disse pra você começar a…
— Ele… só falou a verdade. Você é exatamente o que ele disse que você era; um mentiroso de merda, que usa os outros ao seu bem favor… É isso que você é, Lucas.
— Ah, cacete… eu já vi essa história antes. — reclamou o Alex, com um tom de deboche. — Akira, seja sei lá o que aqueles merdas disseram pra você, eles…
— Alex… eu juro, por tudo que for mais sagrado, que se você falar algo para defender ele, eu nunca mais vou querer ver sua cara; nem a dele; nem do Davi; nem de ninguém aqui.
— Akira, me ouve, eles sempre fazem isso, o Lucas… sempre é o alvo, tudo isso por conta do…
— Você não estava lá. — interrompeu o jovem, se soltando de Alex e se afastando de Lucas. — Você não tem o DIREITO de falar algo; você não viu o que EU vi, você não viu o que ELE fez… — continuou, encarando Alex de volta enquanto apontava para Lucas com uma das mãos. — Ele… ELE tá te fazendo de idiota; ELE, entendeu? E vai continuar assim até…
— Ah, Deus… tá, tá! Não precisa apontar pra ele… Urgh, vem cá, então nada do que eu disser vai mudar sua opinião, não é? — Interrompeu, olhando com desdenho para Akira, com apenas uma sobrancelha para cima. — O dia acabou de começar… Tira a parte do drama e só me responde, eu posso fazer algo sobre isso? Ele pode, já que ele é o “culpado”?
— Não, não pode. — respondeu a seco, abaixando a mão. — A merda já foi feita.
— Hunf… Beleza, aqueles merdinhas lá de cima me fazendo perder uma boa amizade mais uma vez. — disse, voltando um pouco seu olhar pro chão. — Okay. Vai, pode ir; só daí daqui logo, se for isso mesmo que você quer, só some daqui de uma vez antes que eu quebre a sua cara.
— Pera… quê? Sobre tudo isso… essa é sua reação? Apenas um… um… “okay”? Alex… você… Que droga é essa, afinal? Você é um capacho… segurança… ou ele só te enganou também? Você ainda vai…
— Ó, protótipo de histérico do caralho, não sei o que você anda vendo pra ter a cabeça cheia de idiotice assim, mas assim… aqui é realidade, babaca. Quer saber o que eu acho dessa sua cena toda? — indagou o Alex. — Não, não responde… Sabe por quê? Porque qualquer coisa que sair da sua boca saiu da boca daquele babaca lá de cima. Você acha mesma que ficar nessa porra vai mudar minha ideia sobre aquele idiota? Ah, faça a porra do favor, Akira!
— Alex… eu tô falando sério, ele tentou…
— Ele pode ter tentado o que for, tô pouco me lascando sobre isso. Eu tô aqui há mais tempo que você… Só isso já é um motivo melhor pra o que eu tô dizendo ser verdade. Vou falar mais uma vez: só sai dessa merda de corredor… ou eu vou contar pra todo mundo que foi você que batizou aquela merda de bebida.
— V-você… sabia que ela tava… Unf… Tá legal, você tá certo… é melhor eu sair dessa droga de lugar logo.
— Até que enfim algo com sentido… Vai lá, vai… Chó, chó! — murmurou o Atleta,
No fim, não adiantou muito todo aquele preparo; todos olhavam para o jovem com desprezo e até deboche. Akira apenas andou, deu passos fortes e empurrou tudo e todos sem nem ligar do que poderia vir pelas suas costas.
Ainda assim, ele não ia deixar barato. Tudo que ele queria era… vingança? Justiça? Não importa, talvez o simples sabor de devolver aquilo fosse bom…
De repente, sem nem saber o porquê, Akira se virou, apenas encarou Lucas de longe, e…
— Isso não vai ficar assim; o inferno sempre é na parte mais baixa de qualquer coisa. Aproveita essa sua vida de rei, porque ela vai acabar mais rápido do que começou. Isso eu te prometo.
— ⽕ —
O jovem nem ligou para as consequências; nem ligou para o poderia acontecer. Akira apenas saiu com passos pesados em direção à escada, empurrando qualquer um que estivesse em sua frente. O perigo de fazer aquilo era imenso, mas… aquilo fora realmente inesperado, até mesmo para todos do corredor; era estranho ver aquele lugar totalmente silencioso durante o dia….
Parecia até um flashback do seu primeiro dia ali… só que mais claro e vivido; todos os olhares eram visíveis dessa vez. Akira estava sendo observado; ele sempre esteve. E sempre estará.
Quando notou, já estava subindo aquelas escadas… mas, não convencionalmente; apressadamente; Akira, naquela altura do campeonato, já havia notado a burrada que o mesmo havia feito. Tudo que ele queria era apenas chegar no seu objetivo vivo… então, fazer o que ele acabou de fazer era praticamente assinar seu próprio certificado de morte.
Por sua sorte, o segundo andar já era mais simples. Aquela bagunça organizada já havia voltado repentinamente — talvez por conta do terceiro andar e aquela forma… diferente de agir; ou era só os Ember’s sendo eles mesmo —. Independente do que seja, ao menos já era mais aliviante estar em um lugar onde ninguém sabia o que acabara de acontecer.
Com mais alguns passos para frente, o garoto parou perto de uma parede para descansar. Bom, aquilo fora algo arriscado. Você precisava realmente de um descanso rápido depois daquilo, Akira.
O jovem ficou ali, escorado na parede desacreditado do que ele mesmo fez. Olhava para um lado, para outro e… nada. Nessa brincadeira de checar os arredores, momentaneamente Akira encarou a mesma escada que ele veio. Repentinamente, o jovem até viu uma garota subindo; a mesma tinha uma cara que só fez Akira pensar que o mal a pior poderia vir a qualquer momento… Entretanto, nada realmente ocorreu desta vez; a garota apenas deu uma breve olhada no “esquisitão que tá olhando as escadas”, ergueu uma sobrancelha para o mesmo e deu de ombros logo depois. No fim, Akira não era tão importante assim para ela. Havia um grupo inteiro esperando pela mesma, afinal; compromissos são compromissos, não é mesmo?
O jovem reagiu tudo isso apenas com um suspiro de alívio. Era realmente fora da curva comparar o que ele fez naquele corredor com o que fez em Frostfall; mas ainda assim, Akira sentia algo que não sabia descrever de outra forma além de “ação”. Agora, era com ele se o mesmo continuaria agindo sobre tudo que viria a seguir.
Já restabelecido, Akira enfim volta a andar; desta vez sem empurrar ninguém, é claro. O clímax já era outro, então… pra que ignorância, né?
Passo a passo o jovem andou por aquele lugar; não quis ouvir, falar ou se quer olhar para qualquer um dali. O maior obstáculo já tinha sido ultrapassado, tudo quer estava era somente a simplicidade de subir alguns degraus… e de se deparar novamente com o caos que era o terceiro a dar.
— ⽕ —
Step… step… step…
Quando menos notou ela já estava lá em cima. Sua primeira visão foi até que algo simples: um garoto escorado perto das escadas, apenas observando as coisas que aconteciam no corredor, e… só.
Bem, seria somente isso… se ele não considerasse o barulho, é claro. Às vezes, audição é mais clara que o que você vê com os olhos. E, naquele momento, o som falava mais do que qualquer coisa que Akira pudesse ver ou imaginar…
— Ó, JAIME, VOCÊ TÁ COM A CHAVE DO MEU ARMÁRIO⁈
— DO SEU O QUÊ⁈
— ARMÁRIO!
— AH, SAQUEI… NÃO TÔ NÃO, TÁ COM A ISABEL! EU SÓ TÔ COM A DO SEU DIÁRIO!
— OKAY, VALE…. PERA, QUÊ⁈ FOI VOCÊ QUE PEGOU ELA⁈
— NÃO, O ALAN QUE ME DEU!
Ah, chegar naquele andar sempre foi uma experiência única; tudo tão igual, mas tão diferente… Felizmente, Akira tinha bastante tempo para de acostumar com aquilo.
Com um passo final, Akira finalmente firmou seus pés no terceiro andar; em sua frente, aquele corredor caótico. Ao seu lado, um garoto escorado na parede apenas observando o lugar e… o próprio Akira.
Por algum motivo estranho, Akira sentia que já havia visto ele em algum lugar… mas, mesmo com essa sensação, o jovem não fazia ideia de quem era aquele ser.
Cof, cof… Independente dessa sensação estranha, aquele garoto estava claramente exercendo um papel de guarda do lugar — mesmo que o mesmo parecesse mais focado no que estava acontecendo no próprio corredor do que nas escadas.
Vendo isso, Akira…
— Ah! Eu nem te vi aí…
Oh, Deus… Akira, você deveria apenas agir, sabia? Desse jeito todo mundo vai tomar a iniciativa antes de você… até mesmo um coadjuvante qualquer.
Tudo bem, não importa. Aproveitando oportunidade, Akira finalmente agiu antes que o garoto em sua frente, e…
— Ahn… H-hey, Alejandre, certo? Posso… perguntar alguma coisa para você?
Jesus amado, Akira… isso só não foi mais feio que a cara que o jovem fez quando você errou o nome dele. Afinal, por que você chutou o nome de um alguém que você nem sabe se realmente já viu?
— Ah… claro, pode fazer sim… — disse o coadjuvante, dando um sorriso forçado após a fala de Akira. Tadinho, ninguém nunca lembra o nome do… do… do… — Ah, pelo menos você acertou as duas primeiras letras… Mas, errou feio, viu? Esse daí é o diretor de Rockfield.3
— Bem… eu… só queria saber onde que o Rafael tá. Acho difícil achar ele nesse fuzuê todo…
— Iiihhh, dependendo do que ’cê quiser falar com ele hoje provavelmente não dar certo… Saideira; hoje ele quase não fica na escola. Literalmente.
— Saideira?
— Evento que ele faz vez ou outra. Eu não tô de guarda atoa; ou tô, sei lá, eu não faço nada além de olhar mesmo.
— Mas… não tem como eu ao menos conversar com ele um pouco? É… urgente.
— Olha, ele deve tá se arrumando pra sair ainda… você pode arriscar, mas duvido que dê bom.
— Cacete… É qual porta mesmo a do quarto dele?
— Numero um, a última do corredor.
— Um? Essa não é o quarto do Atlas lá de baixo?
— Primeiro… sim, é o quarto dele, mas a Liz mexeu tanto na numeração dos quartos que me deixa supresso ela não ter se perdido. Segundo, foi o próprio Rafael que colocou ambos os zeros depois do um. “100 é maior que um”.
— Faz sentido…
— Depende do ponto de vista.
— Eh… talvez.
— Você não precisa forçar conversa comigo, sabia? Eu não tenho o codinome de “Coadjuvante” à toa. Preocupa comigo não, já é bem comum, na verdade. Tô acostumado.
— Oh… saquei. Eu… vou indo então. Obrigado, Aslen…
Step… step… step…
— Eu tô começando a achar que isso é intencional. “Aslen”?4 Esse cara já não tá morto há mais de 100 anos ou algo assim? Gee… eu não sei por que ainda ligo pra isso.
— ⽕ —
Cof, cof…
Akira andou um pouco; mesmo querendo focar em seu objetivo principal, ele não pôde parar de notar o quão aquele lugar era desligado do resto da escola inteira. Era como se, assim que ele pisasse no terceiro andar, tudo virasse uma realidade distinta. Enquanto todos do primeiro andar olhavam para ele estranhamente: enquanto todos do segundo andar olhassem com cara de desdenho, não havia nenhum olhar que não fosse… um olhar. Quero dizer, um olhar que não fosse nenhuma coisa suspeita; ameaçadora ou… bizarro.
Enquanto caminhava, o jovem ficou olhando de um lado para o outro; parte dele admirando o lugar, parte apenas caçando a presença de Rafael; de Luna ou de qualquer um que ele conhecesse… O Mark não é desse andar? Onde estava ele quando Akira precisava mesmo?
Bom, não importa. Não era com Mark que o jovem queria falar; era com a pessoa que estava bem no fim daquele enorme corredor. Era com Rafael.
Após alguns passos, finalmente Akira encontrou Rafael ao longe… e, diga-se de passagem, o mesmo estava com uma feição bastante surpresa. Mas, em contra parte, Luis e Matheus estavam com uma feição de ânimo para cima de Rafael.
Aqueles três nunca iam mudar mesmo… ainda bem que não iam.
Akira andou um pouco, viu Rafael e Luis conversarem baixinho entre eles, e quando chegou próximo o suficiente…
— Uuhhnn… O-oi, Rafael… Lembra do que você disse ontem? Eu… posso conversar um pouco com você ou… com vocês?
Continua…
Pra quem não pegou, é uma piada com Better Call Saul. “It’s Better Call Akira!”↩︎
Dominique Blinwool é um aluno “Fire”, uma das classificações mais “fortes” da escola. Como o sobrenome dá a entender, ele é cego. E sim, é o mesmo Dominique do capítulo “País Das Maravilhas”. Comicamente falando, o Lucas se sente um lixo por tá em uma classe mais baixa que “um cego” qualquer.↩︎
Além de ser referência a uma história de um amigo meu, Rockfield, no universo de Bonfire, é uma das “concorrentes” de BF. A ideia é um internato para gênios, ao invés de um para criminosos.↩︎
Aslen Winter foi um fora da lei entre os anos de 1845–1865 no universo de BF. Ele foi assinado por um membro de seu grupo em 1865; Luciano Gonzalez matou Aslen descarregando um tambor inteiro de balas em seu peito após uma briga que se diz ter começado em um bar. Infelizmente, informações mais detalhadas foram perdidas pelo tempo.↩︎