Capitulo 17 - Um Pouco De Não, Não Faz Mal

Tudo bem… chega de enrolar. Afinal, mesmo que essa nossa história não tenha um único protagonista, ninguém pode negar que um certo alguém era o foco principal. Pelo menos naquele momento.

Então, que tal fazermos isso mais uma vez? Que tal… voltarmos mais uma vez no começo daquele dia? Só que… muito, muito mais cedo. Que tal voltarmos da onde paramos?

Aquela noite ia ser inesquecível, não era mesmo? E foi… para todas as partes; mas, em específico, para Akira.


Capitulo 17

Intitulado de “Um Pouco De Não, Não Faz Mal”.

O tempo passou… Na verdade, ele parecia passar. Fazia quanto tempo que Akira estava naquele chão frio? O garoto não mexeu um músculo pelo menos nos últimos cinco minutos; isso se esses cinco minutos já tiverem passado. Akira perdeu a noção do tempo, mas não por descuido ou ingenuidade; ele só não conseguia notar que “aquilo” aconteceu minutos ou, quem sabe, horas atrás. Mas, isso importava? Isso realmente importava? Não. Claro que não. A única coisa que importava era um simples fato: o fato que Akira não fez nada.

Não adiantava pensar em outra coisa; não adiantava tentar entender aquilo; não adiantava imaginar o que ele poderia ter feito. No fim, ele não fez nada. Droga, Akira, por que você não fez nada? Por que você não agiu? Por que você não fez como seu pai?

Akira estava em choque, em choque de algo que já havia sido cuspido e esmigalhado em sua frente tempos atrás. Lucas era o monstro que Rafael disse ser; que Luna disse ser: que Emily viu ser. Afinal, o que aconteceu depois de tudo aquilo? O que aconteceu depois daquele “eu voltei”?

Palavras malditas de um ser maldito. Akira estava assustado, mas ele sabia de uma coisa: ele nunca mais ia querer ver o rosto daquele garoto; nem a voz; nem a sombra; e se ele pudesse, nem mesmo aquele maldito sorriso… mas, pena que ele ficou cravado em suas pálpebras,

Sim, Akira havia entendido o que Elliot disse. E da forma mais aterrorizante para ele, ele havia notado que estava fardado a algo que ele não teve culpa.

— ⽕ —

O tempo passou… Akira conseguiu se levantar. O garoto andou um pouco e se sentou em sua cama. Seu quarto permanecia o mesmo: janela, porta, ventilador e… seu armário em sua frente; junto a um espelho refletindo ele mesmo.

Akira estava péssimo. Sua cara estava cansada; seu cabelo bagunçado; sua roupa amassada. O mesmo garoto que saiu daquele quarto mais cedo todo animado já não existia mais, tudo por conta daquele maldito garoto.

Embora fosse desgastante se ver daquele jeito, Akira teve toda sua atenção tomada apenas por uma coisa que, voluntariamente, trouxe um pequeno sorriso aquele jovem. O que era? Bom… apenas aquele broche de girassol que Emily havia lhe emprestado.

“Combina com seus olhos!”

Que sorriso bobo. Que sorriso bom… Akira teve um momento de calma; momento que pode esfriar um pouco a cabeça. Pena que não durou muito.

Sem nem notar, uma lagrima caiu sobre o broche. O garoto se assustou, afinal, quando ele começou a chorar? Não, espera… ele já estava chorando desde muito cedo; só não havia notado ainda.

Mas, tudo bem… mesmo com tudo aquilo, não adiantava surtar. Ele não ia conseguir fazer nada. Se tudo que Rafael disse for verdade, o máximo que o garoto poderia fazer era se esforçar para que aquele maldito ficasse longe de Emily. E mesmo com medo; chorando; gaguejando ou o que for, ele ia fazer isso. De um jeito… ou de outro.

Akira estava exposto a tantos sentimentos ao mesmo tempo que ele mesmo já havia se perdido; não metaforicamente, mas fisicamente.

O jovem torcia para a garota estar bem. Ele não ia voltar lá hoje, ele tinha medo, mas esse medo não era eterno… e não era único. Akira tinha uma ideia do que poderia fazer sobre tudo aquilo, e mesmo sabendo que essa ideia ia dar errado, ele decidiu acreditar em mais uma mentira… Aquela noite já havia sido estragada, então por que não ter um último pingo de fé?

— ⽕ —

O tempo… passou, mas nada mudou. O quarto de Akira foi tomado pelo silêncio. Seu teto era sua única visão naquele momento; o jovem já havia se deitado — ele queria dormir —, mas não conseguiu fazer nada além de encarar a triste realidade que estava.

Maldita cabeça que não deixava de pensar naquilo; maldito teto que virou um quadro branco para desenhar aqueles acontecimentos; maldito Lucas que conseguia prender aquele sorriso sádico na mente de qualquer um.

Não adiantava se Akira fechasse os olhos ou encarasse o nada, tudo fazia ele pensar sobre aquilo. O jovem não sabia o porquê, mas a única coisa que vinha na sua cabeça era justamente tudo que ele viveu naquela noite… Não, na verdade, Akira só pensava sobre o que viveu naquele curto período com Lucas; aquela briga foi algo que marcou ele… que marcou eles.

Embora sua cabeça fosse apenas o tornado mais forte de pensamento, todo contexto daquela noite não o ajudou de forma alguma… e isso incluía o tempo.

Já era tarde, e mesmo depois de tudo, após pensar que não dormiria mais, um respingo de sono bateu. Não adiantava mais; Akira teria que resolver tudo aquilo mais tarde de qualquer forma…

O jovem se levantou por um instante, cogitou em abrir sua janela, mas apenas aceitou que não ia conseguir dormir com a ideia de alguma coisa entrar em seu quarto — dele entrar no seu quarto, afinal, um ser como ele poderia fazer qualquer coisa depois de tudo que aconteceu —. Com isso, apenas ligou seu ventilador de teto, voltou para sua cama e… mais uma vez, fechou seus olhos.

〜 ⽕ 〜

De começo pareceu até um milagre; não viu a cara de ninguém, não pensou em ninguém… Akira acreditou, por pouco tempo, que poderia apenas dormir após tudo aquilo… mas claro que ele estava errado.

E mais uma vez, o ciclo se repetiu… Com seus olhos fechados, Akira apenas ouviu uma única coisa… mas, com algo um pouco fora do normal.

Tec, tec, tec…

ARH, ARH! Caramba, que barulho chato!

Akira permanecia com seus olhos fechados. Aquela não era a hora para se importar com aquele barulho chato. O garoto respirou fundo; ignorou tudo e, de alguma forma, esqueceu da feição de Lucas… Estava apenas… escuro… porém, não é uma escuridão que define a solidão.

Tec, tec, tec…

ARH! Poxa, como você dorme com isso?! Que chato! Espera um pouco… deixa eu ver o que eu posso fazer, ARH!

Vruf, vruf!

Tudo… bem? Akira, o que significaria isso? Loucura? Tá… tudo bem… loucura. Você pode lidar com isso… eu acho.

O garoto permaneceu do jeito que estava; não abriu os olhos, não se mexeu, nada. Loucura, apenas, loucura… Espera, Akira, a janela está ou não fechada?

ARH, ARH! Tá, tá sim! Não fica dando uma de paranóico agora… Só espera aí, tá difícil aqui em cima!

Tic, tic, tic!

Oh, ótimo! Era bom saber disso; Akira até relaxou um pouco… Não, espera, “aqui em cima”? Que tipo de loucura era essa afinal?!


De um susto após notar que claramente não havia nada certo ali, Akira se levantou bruscamente; olhou para um lado — janela fechada —, para o outro — porta trancada —, para baixo — chão — e, por fim… para cima.

Espera, se não tem nada no teto, o que foi aquilo?

Oh, bobão, já mandei esperARH! Não é tão fácil aparafusaARH algo com meu tamanho! Meu bico não é uma ferramenta… é só um bico!

A…parafusar? “Bico”? Espera… o ventilador!

Akira apenas virou sua cabeça para o ventilador de teto que, de alguma forma, teve aquele barulho de “tec” reduzido… minimamente. Mesmo assim, nada. O jovem apenas viu aquelas hélices rodando e rodando infinitamente… Isso, foi loucura mais uma vez ou…

ARH, PRONTO! Agora essa joça vai ficARH menos barulhenta! Tá… calma ai, patrão, sossega o facho que eu tô descendo!

Vruf, vruf!

O qu…

ARH, RAN! Não fala comigo, você não é maluco!


Tudo be… Não; não tinha nada bem naquilo… Afinal, o que diabos era “aquilo”?

Okay… recapitulando: após um tempo encarando o ventilador de teto como um idiota, Akira notou algo um pouco… Não, algo muito estranho. Akira viu algo rosa; parecia penudo; parecia… uma ave?

Com um simples pulo de cima do ventilador, “aquilo” planou levemente para cima da cômoda de Akira; e ali ficou. No fim, era realmente algo penudo; era realmente uma ave… Mas, que tipo de flamingo era aquele ser em sua frente? E… por que diabos ele fala?

Primeiro… eu sou um corvo! Segundo… corvos falam!

Mas…

ARH, RAN! Não fala comigo, você não é maluco!

O qu…

ARH, RAN! Deixa que eu falo por você aqui, fechou?

Ah, sim… com certeza aquilo fazia muito sentido; com certeza era aquilo que Akira precisava depois de tudo que aconteceu naquela noite… Ah, enfim, o destino…

Destino nada! A gente não é da Grécia pra ser predestinado a algo… Nossa, bobão, lembrei agora, você nem fez aquele trabalho de filosofia, não é? Deus, o quão essa cuca tá bagunçadARH? ARH! Na verdade, nem responde, eu sei! Enfim, cara, você precisa de uma agenda…

Era bizarro, afinal, ver um corvo rosa falar não era tão comum… Ver um corvo falar, sendo ele rosa ou não, já era algo estranho… mas não impossível… Mesmo com qualquer dúvida em sua cabeça, aquele serzinho em sua frente só não o deixava falar; de alguma forma, além disso, aquele serzinho em sua frente parecia saber… até de mais de sua vida.

ARH! Isso não é problema… Olha, eu não sou hipócrita… quer dizer, eu posso ser, afinal, eu sou tipo você, mas sem ser você… Caramba, como explico isso? Bem… Akira, eu não existo!


Tá… aquilo havia começado da maneira errada… Isso não era real; não podia ser real.

Akira se levantou de sua cama, foi até seu espelho e, enquanto se encarava, passou a mão pelos olhos. Era tarde, talvez ele estivesse vendo coisas… e ouvindo. Mesmo assim, nada mudou. Aquele corvo estranho permaneceu ali, encarando o jovem da forma mais… antipática possível? Bem… era difícil saber qual expressão aquela criatura queria passar… mas, ainda assim, ela tinha “algo” a passar para Akira.

ARH! Hey, não me encara assim! É feio fazer isso com alguém que você acabou de conhecer… Mas, tá legal… deixa eu te explicar o que tá acontecendo…

Que…

ARH, RAN! Eu falo, você escuta! VOCÊ NÃO É UM MALUCO! Caramba, deixa de ser teimoso!

Bom, o jovem não tinha o que fazer naquela situação… Sair do quarto e falar com alguém era maluquice, acima de tudo, além disso, quem acreditaria no que o jovem diria? Exatamente… ninguém.

Akira voltou para sua cama; obedeceu o que aquele ser pediu e ficou quieto… Se aquele corvo tinha algo a dizer, era agora sua chance de brilhar…

Bom… por onde começo…? ARH! Já sei… Bom, eu não tenho nome; eu nem preciso de um, na verdade. Você pode me chamar de… sei lá, me chama de “Corvo” só. Bom, você deve tá se perguntando algo como “ARH, ARH! O que diachos é isso no meu quarto?!”… Bom, para começo de conversa, a gente nem tá no seu quarto… ARH! Olha, é uma longa história, então se prepara que eu sou um baita de um falastrão… tipo você quando tá mestrando uma mesa de RPG!


“Bom… Akira, antes de tudo, eu vou logo matar a pau… você tá alucinando… ou quase isso. Isso é basicamente um sonho; e eu sei que você sabe disso… Isso é tipo um sonho lucido, bem lucido mesmo… Olha, que noite você teve, não é mesmo? Eu acho que é meio impossível dormir de forma tranquila depois de tudo que rolou hoje… Por isso eu tô aqui! Quer dizer… ao menos eu vou tentar por essa sua cabecinha no lagARH! Eu… só não espero falhar miseravelmente…”

“Tá… vamos por partes… Por qual motivo eu existo? Bem… isso não é uma dúvida que você tá tendo, mas que é bom esclarecer… tenho certeza que alguma hora a gente vai se reencontrARH! Tá, seguinte… pensa um pouco consigo mesmo: o que tinha nas bebidas na festa que fez você ter uma baita paranoia?! Isso mesmo, álcool! Caramba, Akira, você ficou sabendo disso antes de geral e não falou nada… mancada! Por sua culpa, uma grande parcela daquela gente ficou bêbada… e você também! De certa forma, eu acho…”

“Bom… esse é a resposta; inclusive, tenho quase certeza que minha cor é resultado disso… Pois é, bobão, você foi dormir bêbado… Sua cabeça já tava um lixo desde começo da noite; você provavelmente fez coisas grandes parecerem maiores do que elas eram… e ainda pensou mesmo que iria escapar disso? ARH! Você tem sorte que não desmaiou antes de chegar no seu quarto… ou durante aquela briga… Bom… eu nem posso julgar você, não é? Você ficou tão focado sobre o Rafael que nem mesmo lembrou disso… ARH! Verdade… segundo ponto da noite!”

“Olha, não me leve a mal, eu poderia deixar o Lucas por último pra dar um clima tenso e tals… mas você tá pensando tanto indiretamente nesse garoto que nem dá pra ignorar… Beleza, você realmente tem alguma dúvida sobre o que passou lá? Olha… quando eu disse que você fez coisas grandes ficarem maiores… eu não tava me referindo a isso. Notou que você ficou de boas a noite toda? Tipo… por qual motivo você foi ficar bêbado justamente quando… você bebeu o mesmo suco que o Lucas estava bebendo…? É, além daquele cara ter ferrado com sua cabeça, ele é o culpado de você tá desse jeito. Mas aí, não coloca a culpa no álcool não! Aquele idiota sabia muito bem o que estava dizendo e fazendo… Aquele olhar dele dizia isso com todas as letras!”

“Agora, sobre você… Olha, você poderia está até bêbado ou algo do tipo durante aquela briga; poderia tá apenas imaginando coisas… mas cara, me diz uma coisa, que mente perturbada você teria que ter pra imaginar aquilo, hein? ARH, RAN! Não responda, além de ter sido uma pergunta retórica, você não é maluco!”

“Tudo bem… aquilo aconteceu, mas e agora? Okay, eu não posso ver o futuro, mas tô com um pressentimento que você vai se ferrar todinho amanhã… Vamos lá, o que você pretende fazer sobre isso? Ignorar não é uma opção; faz isso e eu nunca mais concerto o seu ventilador de teto! Então… o que vai ser? Tipo, infelizmente aquele babaca tá certo, ninguém vai acreditar em você… ninguém a não ser o pessoal lá de cima… Caramba, eu não sou bom fazendo suspense… isso é um reflexo seu, sabia? Nunca seja narrador de algo, você é péssimo nisso… desde criança, na verdade; lembra da peça de teatro do Leonard? Cara… você fez geral pensar que ele morreu por entrar na porta de número quatro1…”

“Foco! Tá… olha, não leve o que eu tô dizendo tão a sério; eu basicamente só tô dizendo o que você já sabe com uma ou outra palavrinha diferente… ainda assim, eu não posso mentir que você se meteu numa furada abissal. Olha, você não sabe mais pra onde correr, e vai provavelmente se apegar a primeira coisa que aparecer como meio de escape… Mas aí, por qual motivo você não vai atrás do Elliot? Ele provavelmente sabe o que dizer numa situação como essas… e você sabe disso; sempre soube. Mas tá bom, se sua ideia é ir atrás do Rafael por ele ser mais ‘esperto’ sobre esse assunto, e eu não posso te impedir… mas, por favor, não inventa de mentir pra você mesmo de novo; depois daquilo naquele corredor nada mais vai voltar atrás… então, coloca logo algumas coisas na tua cabeça: você não foi xereta, apenas fez o que era certo… em partes, é claro. Ainda assim, você não é um herói… se fosse, por qual motivo você tá aqui? Uma escola de loucos não é um lugar para um herói…”


Por isso, antes de fazer qualquer coisa como aquilo, pensa antes. Aqui não é um lugar para você ser impulsivo. Além disso, se prepara, sua vida com certeza vai mudar depois de amanhã; se passou um mês, faltam três anos ainda… Vamos ver no que sua ideia vai dar; se precisar, eu volto aqui e te falo algo mais… mas espero que eu não esteja rosa, essa cor não combina comigo!

Aquilo foi um balde de água fria. Não foi uma conversa, Akira apenas ouviu tudo sem poder dizer ou discordar de algo, e tudo bem, ele não tinha o que discordar; aquele corvo realmente disse verdades… mas, ainda assim, era assustador pensar que ele estava certo; iriam ser três anos — três longos anos — de puro caos apenas por um surto… e um surto que não deu em nada no fim de tudo.

Akira queria discordar de si, todavia, infelizmente o pensamento de querer voltar atrás era real. Ele nunca foi a pessoa que deu uma iniciativa, e sempre que era algo dava de errado. Akira precisava aprender a se conter. Felizmente, isso era algo que ele tinha muito tempo para aprender…

Hey! ARH! Não fica com essa cara de pacho pra cima de mim… Olha pelo lado bom, ao menos você conseguiu dormir essa noite! … O que foi? … ARH! Sério que você ainda dúvida que isso é um sonho? … Tá, tá bom… eu te provo… nosso tempo já tá acabando mesmo…

De alguma forma, Akira se sentiu cativado… mas, ser cativado por si parecia muito egoísmo. Aquele corvo deixou algo claro: ele e Akira eram quase a mesma coisa; ainda assim, quase já era muito… Mesmo assim, como ele havia dito, o tempo estava acabando… e aquela noite também.


O corvo deu um pequeno pulo para o centro do quarto; ficou bem no meio do tapete. Encarou Akira mais uma vez, e…

ARH! Eu quase ia me esquecendo… Akira, tá tudo de boas fazer o que não é certo, contando que isso seja pelo que é certo. Você tá aqui, e tá tudo bem… usa isso ao seu favor; liberta aquela parte mais obscura de si ou você não vai sobreviver até o último dia aqui. Lembra-se: “um pouco de não, não faz mal”.

Akira não sabia dizer se aquilo era sono ou loucura; ele ainda não acreditara nas palavras daquele corvo… Aquilo, para ele, era a mais pura verdade. Akira queria acreditar em um mundo mágico onde seus problemas poderiam ser consertado por um animal mágico; mas… esse nunca seria o caso.

O corvo lentamente se moldava no que pareciam ser chamas; quando notou, seu quarto já não mais existia. Akira se viu mais uma vez naquele lugar escuro, com aquela fogueira estranhamente real para um sonho… todavia, tinha algo novo no lugar; tinha Akira. Pela primeira vez, Akira podia se mexer livremente; pela primeira vez, Akira sentira ser ele mesmo naquele lugar… mas para onde ir naquela escuridão infinita? Não importava o lado, apenas o “nada” existia… e tudo bem, era um sonho afinal… Aquele Corvo estava certo; Akira era teimoso para acreditar no óbvio… ou era muito ingênuo mesmo.

Naquele ponto tudo que Akira conseguiu fazer foi se sentar em frente aquela fogueira; encarar ela com o fervor que surgia em seu peito e… só. Ao contrário de antes, aquele fogo era apenas quente; aquele fogo era apenas… fogo. Akira, que tipo de pensamento era para ser esse? Isso… não é obvio?

De qualquer forma, o fogo brilhava incessantemente. Akira ficou ali, encarando o mesmo com a ideia de que aquela figura iria aparacer a qualquer momento… e ele estava certo, mas não do jeito que imaginou. Não houve vestido branco; na verdade, não houve ninguém tampando a fogueira. No fim de tudo, tudo que houve foi apenas Akira e… ele mesmo. Quando notou, uma duplicata de si apareceu ali, em sua frente, fazendo exatamente o que ele fazia.

O jovem mexia um braço; o seu eu do outro lado também. O jovem batia a perna; o seu eu do outro lado também. O jovem parou de encarar a fogueira para encara sua duplicata… e o seu eu também.

Por fim, o jovem ficou quieto… e sua duplicata não. Akira tinha muito o que dizer a si ainda. Já era hora de falar alguma coisa de qualquer forma, ele não podia deixar a loucura falar por ele para sempre. Enfim, Akira, de certa forma, tomou iniciativa.


Era só ter entrando naquele maldito quarto. Ele não ia fazer nada; você tava no controle. Chega disso; você vai ter que falar algo, então não fingi que essa culpa não existe.

Ele… tava certo nas coisas que falou.

E o que te prova isso? As próprias palavras do mentiroso que te feriu é que provavelmente feriu ela?

Acho que… tudo provou isso; desdo Rafael até mesmo ele. Eu… queria ter feito algo, mas…

Medo. Você tava com medo. Por que não para com tudo isso? Com toda essa enrolação? Que droga, Akira, você não pode culpar todas suas escolhas com essa droga; você não pode se esconder atrás dele e fingir que ele não existe.

Não adianta dizer o que eu já sei.

Até que fim uma coisa sensata. Não importa quanto o tempo passa, você não consegue mudar…

Não me lembra disso…

Você lembra disso sozinho desde que ela se foi; se não fosse por ela você não teria ficado pior naquele dia.

Por que isso agora?

Por que você não fez nada… nada, e ainda acha que pode concertar as coisas. Era só ter feito o que ele faria e ela estaria bem, mas não, seu ego sobre não ser como ele é maior e mais importante que isso… tinha que ser. Assim como todas as outras vezes. Fazer isso uma vez não te machucaria, sabia?

Eu nunca vou ser como aquele homem. Você sabe como ele é, sabe como ele agia e…

Não é sobre ser, é sobre saber agir. Cala a porra da boca e aceita. Você não fez nada, mesmo podendo. Não me diz que ficou assustado de novo com sangue? Vai, Akira, inventa mais uma desculpa, eu duvido que você consiga escapar da realidade.

Não vem com essa. Vamos, Akira, me diz por qual razão nobre você não ajudou a Emily. Só não põe a culpa mais uma vez em seu ego.

Akira, você não pode só ignorar isso. Você sabe que não. Então por que você insiste mesmo? O que eu achei de falar realmente não foi o suficiente para te fazer em entender?

Akira… fala alguma coisa, Akira… Por que você não fez nada? Você sabe que não vai conseguir ver o rosto dela e não se culpar por isso. Então… por qual motivo…

Akira… por que você não fez nada?! Por que você… não fala?! Você tem noção do que àquele desgraçado pode ter feito?! Você tem noção que ele pode fazer algo pior?! Você tem noção?! ME DIZ, AKIRA, ACEITA ISSO DE UMA VEZ E ME DIZ, AKIRA!

FALA ALGUMA COISA, AKIRA! VOCÊ NÃO PODE IGNORAR ISSO; VOCÊ SABE QUE NÃO PODE, ENTÃO FALA, FALA ALGUMA COI…

O QUE EU DEVERIA FALAR EM UMA SITUAÇÃO DESSA?! EU NUNCA PASSEI POR ISSO; EU NUNCA PENSARIA QUE ISSO PODERIA ACONTECER… ENTÃO O QUE EU DEVERIA FALAR?

VOC…

EU TIVE MEDO! EU DEPOSITEI TODO O RESTO DE FÉ QUE AINDA TINHA NELE; PENSEI QUE PODERIA ESFREGAR NA CARA DAQUELE IMBECIL QUE ELE TAVA ERRADO…

EU TIVE MEDO, EU TIVE QUE VER MINHAS MÃOS NAQUELE ESTADO MAIS UMA VEZ; TIVE QUE VER AQUELA COR SOBRE MIM DE NOVO; TIVE QUE VER MAIS ALGUÉM, E DESSA VEZ ALGUÉM QUE CHAMEI DE AMIGO, SUJO DE SANGUE… EU TIVE QUE LEMBRAR MAIS UMA VEZ DO PORQUÊ EU TÔ AQUI E DE TUDO QUE EU JÁ FIZ POR TENTAR PARECER COM A MERDA DO MEU PAI!

EU… E-eu tô com medo… medo de pensar no que ele fez; medo e angústia de pensar que eu não fiz nada… Eu tô com medo; medo de saber que isso não justifica nada… que ela…

Ela… tava toda animada hoje cedo… mas naquela hora, naquele momento, eu senti o medo que ela sentiu… eu paralisei como ela deve ter paralisado de começo… Eu não sabia que ele poderia fazer aquilo; ela não sabia… ninguém provavelmente. Mas… se ao menos eu tivesse reagido como ela reagiu… talvez… só talvez… tudo teria acabado bem. Ma-mas… eu tive medo.

E pensar que… que… que…

… a todo segundo eu torci para que aquilo fosse loucura minha; que fosse piada… e mesmo que fosse, o que ele iria fazer depois do que eu fiz?

Akira… o que você fez?

Eu pensei mesmo que as coisas poderiam ficar melhor longe dele… mas se não é ele, é outro alguém… Pensei que ele fosse um garoto legal; que não mentiria para mim… que… que…

Akira, me diz, o que você fez?

Aquele sorriso ensanguentado… pensar que ele olhou para ela daquele jeito; que ignorou… que… que apenas… riu e esfregou na minha cara que eu cometi um erro…

Akira… me diz… o que você fez?

N-nada… eu não fiz nada…

Então por que você tá chorando?

Eu… tô com medo de tudo dar errado; tô com medo do que ele disse; tô com medo de como vão me tratar agora… eu tô com medo do que vai acontecer com ela a partir daquilo. Eu tô com medo por saber que eu nunca vou esquecer aquela cena… nunca vou tirar aquele sorriso da minha cabeça… eu nunca vou… esquecer isso.


Do que era uma roda de conversa de duas pessoas; do que era uma fogueira em si, tudo se apagou. Não por falta de lenha, não por um vento forte, e sim por… uma única lágrima. Tudo que havia agora era o escuro; o nada que confortou aquela mente caótica… todavia, aquele pesadelo ainda não havia acabado… e nunca acabaria pelo visto.

Corvo falante; uma duplicata de si… Tudo aquilo já havia sido o suficiente para deixar Akira na beira do abismo; mas claro que não iria acabar ali… de alga forma teria que cair, e ele sabia disso.

Enfim, ainda restava o fim de tudo, o gram finale daquela desgraça toda… Infelizmente, para o azar do jovem, era a coisa mais terrível que podia acontecer naquele momento… Relembrar tudo que aconteceu naquele corredor não ia ser fácil.


Ao menos, não durou tanto quanto parecia que ia durar; foi como um flash, rápido e assustador. Tudo pareceu preto no branco, não houve pausa, mas, de alguma forma, tudo pareceu parado em algumas partes. Aquela cara; aquele modo de falar… tudo foi rápido, mas mesmo assim… Lucas pareceu aproveitar cada segundo. Foi estranho na hora que tudo aquilo aconteceu, e era estranho ver tudo de novo. No fim de tudo, Akira apenas se perguntou a coisa mais obvia que ainda lhe restava.

“Por quê?”

Por que aquilo tudo havia acontecido? Por qual rezão Akira estava no meio de tudo isso? Por conta de que ele se sentia mal? Por que ele não havia feito nada?

Cada segundo que se passou; cada vez que ele ouvia e reouvia as falas do loiro, Akira se perguntava várias e várias vezes o motivo de tudo aquilo; por um infortúnio, a única respostas que ele conseguia achar por conta própria era que aquilo não tinha motivo, que sempre foi assim e que ele não havia percebido… até agora. Mas quem liga? Akira tinha em mente que um qualquer como ele não iria conseguir fazer nada contra o garoto prodígio da escola… não sozinho.

〜 ⽕ 〜

Mais uma vez, estranhamente, demorou, mas finalmente aquilo acabou. De picos em picos que aquele pesadelo infinito intercalava, Akira notou algo que finalmente o confortaria de alguma forma: ele estava acordado.

Sem mais escuridão, sem mais corredor, apenas o quarto de Akira. Ainda assim, nem tudo era perfeito; ainda estava escuro, era provavelmente o meio da madrugada. Bom, era óbvio que ele não dormiria direito depois daquele sonho…

Aquele teto junto aquelas hélices rodando diziam muita coisa; junto a uma pequena luz vindo da janela, tudo ficou realmente claro. Akira se levantou, olhou seu ao redor e… nada. Tudo permanecia do mesmo jeito. Bem, tudo, menos ele; o jovem tremia, estava com frio, sentia como se algo pudesse acontecer a qualquer momento… ainda assim, estava estranhamente calmo… ou, ao menos, mais relaxado do que antes.

Infelizmente o mesmo não podia ser dito para sua cara, já que a mesma estava em um estado deplorável. Aquele sorriso de mais cedo já havia sumido há muito tempo, mas nada se comparava a como Akira se encontrava naquele exato momento. Aquele estado nervosos também havia sumido, tudo que restara era pensamentos que, obviamente, ainda estavam ali. Mesmo assim, Akira ao menos conseguia pensar direito, e mesmo que imagens ou ideias sobre o que ele viu surgissem em sua cabeça, o jovem ainda conseguia raciocinar tudo de forma simples. Finalmente.

Antes de qualquer coisa, Akira ficou ali, apenas se encarando no espelho sem ter ideia do que fazer. Era madrugada, o que ele poderia fazer, afinal? Bom, não importava; a ideia de voltar a dormir era a coisa mais fútil que podia passar em sua cabeça, voltar para aquele pesadelo era a última coisa que Akira queria… mas, apesar disso, o jovem não podia simplesmente ignorar o que sua cabeça criou de forma tão radical.

No fim de tudo, aquele ser estava certo, Akira não podia ser um herói; mas o mesmo não queria se igualar aquele garoto. Se fosse para ele ser algo, que fosse qualquer coisa, menos o mesmo que ele.

De repente, em meio a ondas de pensamentos, Akira se levantou. De começo, ficou somente vagando de um lado para o outro do quarto; não tinha o quer fazer a não ser aquilo. Era madruga, ele não poderia só sair e fazer algo, precisava gastar essa energia de alguma forma que não fosse… puxar uma provável briga por conta de estresse.

Aquele, felizmente, já era um momento de plenitude; Akira usou isso ao seu favor, e mesmo com dificuldades, organizou por fim seus pensamentos.


Vamos recapitular, Akira…

O Lucas… bom, ele definitivamente era uma das únicas pessoas que deixavam aquele lugar menos sombrio… mas agora, depois de tudo que viu, essa imagem foi jogada no lixo. Não havia sentido mais de manter o pensamento de que era apenas uma maluquice de sua cabeça; não havia como culpar a bebida por aquilo… infelizmente, aquela era uma verdade que até para Emily era difícil de aceitar.

Ah, sim, Emily… Bom, a garota com certeza não iria ficar bem se continuasse ao lado daquele garoto. Só Deus sabe o que aquele monstro poderia fazer com ela… mas, ainda assim, Akira não poderia simplesmente chegar falando um motivo daqueles para ela sair de perto de Lucas… mas, por quê? Emily com certeza concordaria com ele… mas ele não concordaria com ela. Seja o que Lucas fosse tentar fazer, Akira tinha certeza que ele ia fazer independente do que ele escolhesse. Além disso, “tirar” ela de perto dele não seria fácil também; havia uma enxurrada de razões para isso, mas a que mais assustava o jovem era Lucas fazer algo contra ele, ou contra ela, usando “seu poder como rei”.

No fim, Akira sabia que teria que jogar no mesmo nível, mas não sabia como… Todavia, por uma sorte do destino, conhecia alguém eu poderia lhe ajudar com isso…


No fim, tudo que Akira poderia por hora era somente esperar. Ele não seria o infortúnio que acordaria alguém de madrugada; ele não ia ser o corajoso a sair de madrugada. Aquela manhã tendia a ser difícil, isso considerando apenas o que Akira estava envolvido… o garoto nem pensava sobre como provavelmente outros alunos ficaram depois da festa… Bom, claro que com “outros” me refiro a qualquer um que não seja ele e os próprios envolvidos em seus problemas.

O jovem ficou ali, em seu quarto, rodando e rodando como se fosse as hélices de seu ventilador…


Espera… o ventilador!

Em meio a pensamentos diversos, Akira lembrou de um detalhe daquele sonho; instintivamente, olhou para cima e… silencio?

O garoto estranhou, obviamente. O ventilador de teto estava ali, rodando e rodando como sempre… mas, desta vez, sem aquele maldito “tec”. Mas como? O jovem não o arrumou; aquele corvo não era real… então como?

O jovem olhou para um lado, e nada. Para o outro, e nada. Nada fazia sentido para ele naquele momento; deu alguns passos e foi até a porta, e para sua surpresa, estava fechada. Fez o mesmo com a janela, e deu no mesmo…

Por um momento, o jovem ficou paranoico, pensou de tudo, mas… supôs o óbvio… ou o que ele chamou de óbvio; afinal, poderia ser só um guarda-noturno que arrumou o ventilador enquanto ele dormia… certo?

O jovem engoliu a seco, dane-se de qualquer forma, ele estava exausto demais para se preocupar com mais alguma coisa. Ele estava bem, e isso que importava; e o seu ventilador estava finalmente consertado ao menos… isso não é bacana?

De qualquer forma… além disso, esse pequeno susto também o fez voltar para o assunto de mais cedo — especificamente o que aquele corvo havia dito… Mais uma vez, o jovem fez seu máximo para não esquentar a cabeça com aquilo, foi um sonho bobo, afinal, e por sua sorte, o destino estava de seu lado… ou quase…

Akira voltou para sua cama, sentou-se novamente e respirou fundo… De novo, se encarou no espelho, desta vez quase como se esperasse uma fala vinda de seu reflexo. O garoto ficou ali, parado, ou quase. Sua perna mexia, seus dedos se moviam sem ele nem notar. Akira estava ansioso; queria fazer o que queria o quão mais rápido possível… Nisso, buscando se orientar melhor sobre o “quanto” restava para isso, Akira se levantou um pouco, foi em direção aquela pequena comoda ao lado de sua cama e…

Fruuen…

Lá estava ele, dentro de uma das gavetas da comoda, seu celular…


Akira nunca foi a pessoa mais ligada aquilo; no máximo usava ele para mandar uma ou outra mensagem para sua avó, que para ser sincera, raramente respondia… no máximo só visualizava e… só.

Incrivelmente, ainda tinha um pouco de bateria; o jovem ligou o celular e se deparou com o que buscava logo de cara… Eram 3:24 da manhã… e o garoto não tinha nada para fazer enquanto esperava.

Balbuciando um pouco, o garoto voltou a sua cama com o celular em suas mãos. De cara, notou algo até que estranho; de alguma forma ainda restava um pouco de sinal naquele lugar; mesmo sinal que usou em seu primeiro dia para buscar sobre a escola. O jovem entrou sem seu navegador e, para tentar se distrair um pouco, tentou acessar algum site aleatório… infelizmente, tudo que o garoto conseguiu foi uma tela de “site bloqueado, saiba mais…” na sua fusa. Okay, até que fazia sentido; o pessoal dali realmente deveria ficar longe de redes sociais… ou até mesmo do celular… Afinal, por que a Liz permite o uso de smartphones mesmo?

Cof, cof… Bom, não importa. Ainda com esperança, o jovem começou a mexer em seus aplicativos… Galeria? Vazia — Akira nunca foi de tirar fotos… ao contrário de Ayumi —. Anotações? Nah, no máximo alguma bobeira que Akira salvou sem querer — Akira nunca foi na pira de Leonard de guardar todo tipo de ideia para “mais tarde”… o mais tarde nunca chegava mesmo —. Havia pouco com o que o garoto conseguisse se entreter; mesmo com sua idade, nunca foi ligado a joguinhos, parte disso vindo da rigidez de seu pai, parte vindo de não ter tempo para fazer outra coisa além de estudou… por conta de seu pai.

Alguns minutos se passam, o garoto mexe em tudo; de aba em aba, de pasta em pasta, ele revira o próprio aparelho como se não já o conhecesse. Em certo momento, o garoto acabou trombando com suas redes sociais, e de uma forma esperançosa, começou a entrar em cada uma para ver no que dava… Infelizmente, da mesma forma com o navegador, nada abria; bem, quase nada…

Com um último clique, e ultima gota de esperança, Akira abriu o LINE2. De forma esplêndida, o aplicativo apenas… abriu. Estranho, definitivamente, afinal, por qual razão apenas este aplicativo estaria funcionando? Eles… esqueceram de bloquear ele pela rede? Ou… o LINE não era conhecido direito ainda? Deus, é nisso que dá não ser ligado no “moderno”, Akira.


Havia três grandes pontos com aquilo…

O primeiro, e mais importante, era que o garoto poderia ficar um tempo ali revisitando alguns momentos antigos e, quem sabe, até arriscar ouvir os áudios enormes de Leonard sobre… uuhhnn… qualquer coisa.

A segunda coisa foi o que mais chamou atenção do garoto; ele havia sinal, e, além disso, tinha em suas mãos uma, e quem sabe a única, rede social funcional naquele colégio todo… Com apenas um toque ele poderia ligar para alguém; com apenas um toque, alguém poderia ligar para ele… mas essa não era a vez.

A terceira, e não tão boa, era simples: assim que o garoto abriu o aplicativo ele se deparou com o que ele menos esperava… uma mensagem de Kentaro… de dois dias atrás. Para piorar, não era a única; havia um total de três mensagens, sendo uma no começo do mês, outra no meio e essa de dois dias atrás. Todas em formato de áudios com uma duração razoável.

Vendo isso, Akira respirou fundo se preparando parar o que estava por vir; seu pai nunca foi de lhe mandar mensagem, e depois daquele último diálogo que ambos tiveram no carro, Akira achou que só ouviria algo vindo dele após seus três anos no lugar… mas pelo visto ele está a errado…

Aquela não era uma forma eficaz de passar tempo, definitivamente, mas a vontade de saber como ou o que Kentaro queria era enorme… então, em um último suspiro, Akira encarou seu telefone por um tempo e… fechou o aplicativo.

Independente do que Kentaro tinha a falar, Akira não queria ouvir. Naquele momento, naquele pequeno momento, aquela frase fez sentido para o garoto…

Um Pouco De Não, Não Faz Mal…

Akira não precisava daquilo; não precisava de qualquer coisa que fizesse ele mudar de curva. Aquilo não se tratava sobre ele, nunca se tratou; havia alguém em perigo, sempre houve.

O que Kentaro tinha a ver com isso tudo de qualquer forma? Ele provavelmente diria para Akira ignorar isso; mas Akira nunca obedeceria isso… Ele podia não ser o herói que queria, podia não ter força para dizer o que Lucas fez; podia ter medo de agir, podia ter raiva do que fez… mas se fosse necessário, ele varia tudo possível para arrumar o erro que cometeu…

Pela primeira vez em um longo tempo, Akira quis fazer o que era errado.

E tá tudo bem com isso.


No fim de tudo, Akira não fez nada, ele apenas guardou novamente seu celular e… esperou o sol nascer.

Aquela madrugada ia ser longa, mas o dia seguinte iria ser muito, muito mais.

Continua…


  1. No Japão, o número 4 é considerado um número de azar devido à sua pronúncia. A palavra “quatro” pode ser pronunciada como “shi” (し), que também é a mesma pronúncia da palavra “morte” (死).↩︎

  2. O LINE é um aplicativo para smartphones que permite aos usuários fazer chamadas e enviar mensagens para outros utilizadores do LINE tanto a nível nacional como a nível internacional.↩︎