Capitulo 16 - Oi, Eu Voltei...!

Como aquilo havia acontecido? Foi tão… brusco; tão rápido… Foi estranho, isso… poderia ser verdade? Ou a insanidade que tomou conta de sua cabeça havia feito ele imaginar coisas? Independente da resposta que ele recebesse, já era tarde de mais para qualquer coisa…


Capitulo 16

Intitulado de “Oi, Eu Voltei…!”

A noite estava voando; ou melhor, o tempo estava voando… Fazia menos de um mês que Akira estava em Bonfire; e mesmo assim, tanta coisa aconteceu… A organização da festa tomou a maioria de seu tempo no lugar, e isso impediu ele de notar como aquele mesmo lugar estava, lentamente, o mudando… E, infelizmente, negativamente… Lembre-se, Akira estava cego; ou quase, talvez o que aconteceu mais cedo tenha feito ele lembrar em qual posição ele estava; e, ironicamente, para todos ali, Akira era um nada; um nada que, a qualquer momento, poderia explodir da mesma forma que explodiu em Frostfall.

Talvez fosse ainda mais irônico pensar como Kentaro estava; assim como já dito, o mesmo nunca deixaria o próprio filho ir para algo como aquela festa… e, mais uma vez irônico, o mesmo jamais devia ter imaginado que seu filho pródigo seria mandado para um lugar como aquele; no fim, naquele momento, já nem fazia tanto sentido pensar sobre isso… Se Kentaro tivesse uma visão boa de Akira, essa mesma visão havia morrido no momento que ele pisou naquela escola.


Papai… você tem noção de quanto o Akira volta?

— O quê? Como assim?

É, a Ayumi tá certo… Fica meio chato aqui sem ele… Qual foi, ele nem fez nada de tão extremo pra ir para aquele lugar.

Unf… Entendam, isso não é dever meu de citar ou ir atrás de resolver; Akira é grande já, o mesmo devia ter pensado antes de agir daquele jeito, e foi por conta disso que ele foi para lá… Ele apenas está pagando o que comprou; isso durará apenas três anos, se ele não se meter em confusão, então… não pensem tanto nisso… Foquem em vocês e esqueçam ele.

A gente sabe… só que… é meio triste ver a mamãe desse jeito por conta dele.

Acredite, eu sei.


Era estranho ver aquilo tudo acontecendo; não para Akira, e sim para Liz ou, quem sabe, para Lucas…

Uma nova frota de alunos sendo entregue, e, menos de um mês depois, todos eles em uma festa feita pelo garoto propaganda do lugar… Tudo isso saía de uma forma absurda dos ideais de Liz… Não era que ela não confiasse em Lucas, mas… ainda assim, a mesma era receosa sobre qualquer coisa desse tipo; não houve tempo de se adaptarem, os novos alunos poderiam muito bem abusar desta situação de formas inimagináveis… Akira foi para lá somente por espancar alguém; já os outros foram por… tudo imaginável… Cite o crime que for e terá um aluno que fez aquilo… e este era o medo de Liz.


Só é cansativo, sabe? Minha mãe nunca me disse que isso seria tão difícil… Faz poucos anos que estou lá, e… Deus, tanta coisa aconteceu… Vi de tudo já… Assassinos, ladrões, estupradores… Só é assustador ver que uma mente tão jovem passa fazer algo desse tipo… Deus, o Willian, ele… ele…

Senhorita Victan, não acha que isso possa ser por culpa de suas ações? Creio que, em minha visão, seu acolhimento é um dos melhores… contudo, seu medo de economia sobre os gastos escolares são… duvidosos.

Deus… Erick, eu não tenho o que fazer… Já recebemos pouco; preciso racionar um pouco, já que…

Não quis dizer neste aspecto, senhorita… Note suas ações; pense sobre elas e, nesse momento, entenderá o que quis dizer… Por hora, deixemos estes assuntos de lado; diga-me, você acabou de citar como é assustador viver perto de criminosos… Como evita isto?

Eu… acho que só não evito… Cada dia me sinto mais perto de ser uma deles…


Acho que, no fim, o mundo não havia mudado tanto… Ainda havia sempre alguém que poderia ir para aquele lugar a qualquer momento; mesmo este alguém sendo a pessoa mais gentil e benfica do mundo… nada; absolutamente nada poderia mudar a cruel realidade que certas pessoas vivem… ou passaram a viver.



Tudo estava se encadeando; de todos os lados, para todos… Mais uma vez o tempo; a noite; a vida ou qualquer coisa passageira estava voando… Propósitos irrelevantes; incógnitas entrelaçadas por decisão do destino; vidas já mortas pelo tempo; e por fim, decisões que não poderiam ser revertidas.

Era tarde de mais para qualquer coisa; não havia, e nunca haverá como voltar atrás depois do que já foi dito e feito… Resta a você; a ele; a ela; a eles ou a qualquer um que já tomou uma decisão que se contente com o que conseguiu, e que… arque com suas próprias consequências.


Acho que já falei balela demais… Que tal voltamos para o que realmente interessa?

Cof, cof… Emily havia saído para ir atrás de Alex e Luna; Akira e Lucas ficaram conversando sobre… bem, sobre qualquer coisa… Na verdade, isso não importava tanto; o que realmente importava era que… cada vez mais que tempo passava parecia que Emily não iria volta… e isso já estava ficando estranho… Ainda assim a dupla não se deixou levar pelo medo ou algo do tipo, afinal, se tivesse acontecido algo… eles saberiam, certo…?

Ambos ficaram “tranquilos” com aquilo; apenas tentaram matar o tempo de formas extremante criativa e… peculiares.

— … Você já fez isso mesmo? — indagava Akira, com uma feição bastante surpresa sobre o que acabara de ouvir.

— Qual foi?! Quando a gente é criança tem coisa que não parece ser tão ruim quanto é… Eu não tinha noção do que tava fazendo, okay?! — respondia Lucas, batendo a mão na mesa, inconformado com a negação de Akira sobre aquilo.

— É… mas, poxa! Não é pra tanto, né? Como que isso passou pela sua cabeça no final das contas?!

— Ah, sério, mesmo? Eu não sei! Tipo… “hum, parece gostoso… será que é de comer?”… E nem vem me julgar, certeza que você já fez algo desse nível quando era pequeno!

— Hã?! Vira essa boca pra lá! Meu paladar infantil era robusto, tá? Eu não saía, por aí colocando qualquer coisa na boca e descobrindo se era comestível ou não… Até por que não dava; meu pai sempre tirava tudo que era minimamente perigoso de perto de mim… Pelo menos nisso ele se importava…

— Ai, ai… Não sei dizer se você teve uma infância boa ou sem emoção… Vem cá, o que você fazia quando era criança? Brincava pelo menos de pega-pega?

— O que eu fazia quando criança? Cara… bem… eu estudava; às vezes fazia judô com meu pai e… só; nada de mais… E se contar os treinos malucos que aquele velho fazia, então, sim, eu brincava de pega-pega.

— Nossa… não praticava nada? Tipo… esportes ou algo assim?

— Na escola sim… Acho que falei só para o Alex, mas eu era goleiro…

— Ah, há! Vem cá então… por que até nos esportes você era o sedentário?

— HEY?! Eu não sou… quer dizer, eu sou um pouquinho sim… mas ainda assim! Eu fazia nado e corrida também! Então sem reclamações, Sr. Coloca tudo na boca… Eu não ficava matando aula de educação física pra comer coisa do chão.

Puta merda… você não vai esquecer mesmo isso, né? Qual foi…

— Não, eu não vou… Espera só geral chegar aqui pra vê se eu não falo o que você comia quando era criança…

Eu não cheguei a engolir, tá bom? Eu cuspi antes…

Isso só deixaria ainda mais estranho, sabia?

Ta me chamando de burro?! Qualé, engolir aquilo é tipo engolir as coisas que o Benjamin faz…

Nhe, ainda quero experimentar o que ele faz… Não deve ser tão ruim assim.

Se quer comer cinza de cinzeiro é só ir na sala do Rubert…

Quê?


Como dissera, Akira e Lucas ficaram conversando sobre qualquer coisa; seja a infância dos dois ou algo do tipo… O assunto não era nada de mais, somente algo para passar o tempo; algo como ações duvidosas de uma criança ou a vida familiar acadêmica… e, diga-se de passagem, talvez esse não fosse o melhor assunto; nem para Akira, nem para Lucas… No fim, ambos apenas se fingiam de sonsos e continuavam falando; só como um meio de ironizar ou, quem sabe, se imaginar em uma infância saudável…

Cof, cof… Bem, com o decorrer que o tempo ia passando, Lucas parecia cada vez mais ansioso… e Akira percebeu essa inquietude nele enquanto ambos tagarelavam… todavia, ao invés de perguntar o motivo daquilo, Akira somente seguiu conversando; afinal, podia ser, e provavelmente era, ansiedade pelo “sumiço” de Emily e os outros…

Nada de novo aqui, certo? Até então, era apenas Lucas pensando primeiro nos outros do que em si… Seu pézinho batendo consecutivamente no chão da cantina dizia isso mais que quais quer palavras que o mesmo pudesse dizer…

Mas mesmo tentando ignorar por um tempo, alguma hora Akira agiria… Então, mais uma vez com seu espírito de avó…

— Pelo amor… Lucas, qual a preocupação da vez? O “preck, preck” do seu pé tá no BPM errado, sabia? Qual foi… 'cê tá bem?

— Hã?! Claro que eu tô bem! Por que a pergunta?

— Mais uma vez você tá… Tsz, sei lá, o que aconteceu? Você tá… ansioso? Definitivamente você não tá bem… Tá preocupado com a Emily?

Qualé, não é porque eu tô mexendo a perna que tô ansioso…

Não é por que minha barriga tá fazendo barulho que eu tô com fome… Responde à pergunta, espertalhão!

— Tsz, beleza… Eu… tô sim um pouquinho preocupado… mas não por isso da Emily; sei que ela pode se virar sozinha!

— Tá assim por que, então?

Poh… é como vocês disseram… qualquer coisa que acontecer a gente ia ficar sabendo por conta do furdunço que ia rolar… né?

Pera… o que você quis dizer com isso?

Nhe… esquece isso, sério! Eu só tô muito animado… Qualquer coisa pode acontecer, né? Qualquer um ficaria assim no meu lugar… E mais, vai dizer que não tá assim também?!

Tá bom… eu tô um pouquinho assim também… mas não é pra tanto…! Tipo, as coisas até deram uma acalmada, então… para que tudo isso? Quer dizer, eu até imagino o motivo, mas…

— Akira… posso te contar uma coisa? — indagou com uma expressão um tanto diferente. — Talvez você fique um pouco bravo… mas não é nada tão importante assim…

— Pode… Mas olha, dependendo do que for, 'cê vai levar um puxão de orelha… Mas é… minha boca é um túmulo… Manda.

Certeza…?

Sim…

— Certeza, MEEEESMO? Não vai dar pra voltar atrás…

— Sim! Vai, fala logo! Quer me deixar ansioso também?!

— Tá, tá… Hehe… Hum… bem… como eu digo isso…

O garoto parou um pouco; desviou um pouco o olhar e mudou sua expressão para algo minimamente mais sério… O loiro ficou encarando o nada incessantemente como se estivesse pensando como dizer aquilo adequadamente… mas, no fim, era mais fácil só extrapolar mesmo.

— Sabe… o motivo deu ter saído mais cedo?

— Sobre teu cansaço e ânsia de vômito? Sei… O que foi? Voltou a sentir?

— Bem… pra ser sincero, eu nunca parei… Hehe… Meio que quando fui atrás do remédio… Tsz, shiu… é minha vez.

Quê?

— Hã! Ah, nada, nada! Loucura minha, relaxa… Mas, voltando ao que eu tava dizendo… Quando fui pegar meu remédio meio que… Meio que eu… achei a cápsula vazia… irado, né?

— QUÊ?! EM QUE LUGAR IDO MUNDO ISSO É IRADO?!

— Qualé, não é nada de mais… Tá, eu esqueci de passar na… fica quieto… Cof, cof… Esqueci de passar na enfermaria, então meio que fiquei sem eles de última hora… Sabe como é, né? É tanta coisa acontecendo que a gente esquece do básico… Mas tá tranquilo! Tá de boa!

Deus… o-okay? Pera aí, você ainda tá mal daquele jeito? Cara, por que você não disse nada an…

— Não, não! Eu tô melhor! Juro! Tô mais assim por que… eehh… Eu tô mal por… ter mentido pra Emily e pra você…! Hehe… Cara, me sinto tããão mal fazendo isso…

— Mentir não é o problema… eu sei que você não queria preocupar seus amigos… mas 'cê tem que pensar em si… E olha, não adianta dizer que tá tudo bem… tenho alma de vó, sabia? Não consigo só ouvir isso e ficar tranquilo…

— Não… sério mesmo, eu tô bem…! A ânsia passou sim… Passou a bastante tempo pra ser sincero… E pra falar a verdade, me sinto até mais liberto… Acho que aquele remédio deveria me deixar com sono do cacete… Foi só parar de tomar que eu tô com uma energia enorme!

— Jura?

— Juro! Já que no final das contas, eu não estaria te contado se não tivesse passado… E olha, falando sério cara, acho que vou perguntar para a Liz se posso parar de…

— Você não ia querer me preocupar mais do que eu já tô… mas… Ah, Deus, esse tipo de coisa me deixa zonzo… Você é um pateta por esconder isso, sabia?

Hehe… Viu? Você me conhece! Já sabe as minhas manhas…

— É, eu sei… Mas ainda assim! Você precisa curtir tudo isso aqui, e não… ficar se preocupando com as pessoas a todo momento… Isso te ferra, sabia? Pensa em um pouco em você… Tipo, o que você fez nessa festa até agora?

— Bem, pra ser sincero… fiquei monitorando até aquela hora que a gente se encontrou e… não fiz nada, além disso… Meio sem graça, eu sei, mas… era o que eu tinha pra fazer.

— Deus…?! Você pelo menos comeu algo?

Bem…

Como se fosse o destino brincando com Lucas, naquele momento sua barriga roncou como se chamasse por uma refeição.

— … Uuhh… Parando pra pensar… eu deveria ir comer algo, né? Papo reto, não jantei nada…

Vocé realmente não pensa muito em você, né? Jesus Cristo… Vai atrás de alguma coisa pra comer, cabeça oca… Eu espero aqui; mas volta logo, viu? Principalmente se sentir alguma coisa… Não faz que nem a Emily e os outros que saíram e sumiram… E vê se não fica parando a cada segundo pra arrumar um problema de alguém… É pegar algo para comer e voltar, ponto final!

Você tem alma de vó ou de mãe?!

Sim.

— Hehe… Tá bom… obrigado por se preocupar comigo… eehh… Sr. Grudento… Ah, e vê se você… Fica quieto!

Mas eu nem disse nada…

Quê? Eu também não…

Sério? Tá, né… Jurei que…

— Relaxa, relaxa! Eu vou indo nessa antes que você fique lelé da cuca, beleza? — comentou levantando-se com tudo. — Já volto! Prometo que… Vai se fuder…

Quê?!

— Ah! Digo… prometo que volto logo! — disse começando a sair apresado. — JÁ VOLTO!

Tá, né…?

Lucas então saiu; correu por alguns segundos até sumir em meio as pessoas e… Pouf! Sumiu.


Akira ficou ali, mais uma vez sozinho… Era visível uma certa preocupação no jovem; talvez com seu amigo, ou, quem sabe, talvez com o que aconteceu mais cedo…

Para ser sincera, era um pouco das duas opções.

Ele não podia mentir para si por muito tempo, aquilo ainda não havia descido pela sua goela; parecia até mesmo um copo de vidro sendo estilhaços dentro de si… Ainda assim, o fato que Lucas acabou de jogar na mesa também não deixava o garoto quieto; ele não podia ignorar nenhuma das duas coisas, ambas estavam “queimando” a cabeça do garoto.

“Aquilo… era realmente uma arma? Tipo…” — pensou relaxando um pouco na mesa. — “… ele não é daqui… e se fosse, provavelmente eu o conheceria… Se bem que eu só conheço a galera do primeiro e segundo andar… e nada do terceiro… Será que ele é de lá? Ou… Nah, duvido… Provavelmente é alguém zoando… Ele não pode ser um funcionário… Quer dizer… Não, pera, os guardas daqui tem armas, certo? O Rubert tinha a dele… Faria sentido ele ter uma também.” — prosseguiu com algumas caretas espontâneas. — “Mas… que cara estranho; parecia que ele me conhecia de alguma forma… Cara, esse mundo é pequeno.”

Akira continuava pensando sobre o jovem de mais cedo, e a medida que ele ia se perdendo em seus pensamentos era como se seu ao redor ficasse nulo; um vazio, sem barulho ou luz… O jovem apenas prosseguia ali; pensando e encarando o nada… em seu mundinho particular.

“O Lucas… Será que ele conhece o cara? Se bem que… ele não tomou o remédio; e vai lá saber se o cara tem uma rixa com ele… pelo menos é o que parece… Pera, será que foi com ele que o Lucas brigou…? Não duvidaria… Se bem que… Ah… esquece; acho melhor deixa isso quieto ou… deixar pra depois da festa; não quero esse tipo de coisa ferrando com a noite do Lucas… Não, pera… Porra! Tô fazendo que nem ele agora; pensando nós outros primeiro do que em mim… Tsz, só tô fazendo o que a vovó me ensinou…! Mas… ainda assim, queria saber o que ele quis dizer com… se sentir melhor sem ter tomado o remédio… Efeito colateral, talvez? Pode ser que o lance do vômito seja culpa do próprio remédio… Não, pera… remédio para vômito que faz você vomitar se não tomar ele? O que é isso, vitamina do papai?!”

Akira estava boiando em seu marzinho de pensamento; eram diversas coisas ao mesmo tempo, e todas ocorrendo de uma forma desorganizada… Querendo ou não, ele necessitava pôr aquilo em ordem, e era isso que estava fazendo… ao menos, era isso que ele estava tentando fazer… Se fosse para o mesmo definir tudo que estava passando em sua mente, a palavra que definiria essa imensidão de pensamentos era… “medo”; mas não o convencional, e sim medo do desconhecido… ou seja, tudo naquele lugar; fora ele e o que ele já sabia, que no fim já não era muito.

Não importava o quanto ele tentasse arrumar uma resposta para a pergunta mais boba que ele fizesse para si próprio; não achava nada além da mesma coisa… Nada… Absolutamente nada… Ironicamente essa era a única coisa que podia amenizar aquilo tudo; mas que mesmo assim não podia responder nada que ele pensasse… Talvez, assim como lhe foi aconselhado, ele entendesse melhor aquilo quando fosse acessar a internet.

A mente do jovem Aki estava um caos; isso era obvio; para ele e para qualquer um que quisesse lhe entender; além disso, isso também não era de hoje… no máximo, essa sensação foi suprimida por aquele desejo de segurança mundano que o fez gostar de está naquele lugar…

Isso… está certo? “Segurança” em um lugar como este? Não importa… Não mais.


De repente, enquanto Akira estava no seu “mundinho” de pensamento, algo bem ao fundo da festa tomava forma; para ser mais exata, uma fatídica frase que estava repercutindo pelo grupo de Akira finalmente tornou-se realidade… E ela era: “se tiver uma briga, todos ficariam sabendo.”

— HEY, O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI?! … NÃO, NÃO, NÃO! EU… EU EXPLIQUEI TUDO… EU DEIXEI TUDO BEM CLARO…!

Aquele silêncio e escuridão sumiu de uma hora para outra; Akira levou um susto com o grito repentino; de instinto, se levantou e, sem muito o que fazer, foi checar como mais um dos vários curiosos que já estavam fazendo o mesmo…


Zonzo… o garoto estava totalmente zonzo; talvez fosse coisa da cabeça de Akira, mas aquela voz era familiar; ele tinha certeza que era de Lucas… mas de forma muito, muito zangada… Para ser sincera, era até irreconhecível; todavia, ele sentia que aquilo vinha do loirinho mentiroso…

Outra piada do destino? Bem, não… Para ser sincera, isso já era predestinado há muito tempo; somente Akira não havia notado ainda.


Cof, cof… Sem mais opções, já que agiu por impulso mais uma vez, Akira andou por aquela multidão; contudo, desta vez com ainda mais presa e tendo que se espremer ainda mais no meio daquela gente toda…

“Se tiver uma briga, todos ficariam sabendo”…

Ainda assim, com muito esforço, Akira finalmente chega no lugar de onde o barulho veio… E como ele já imaginava… era Lucas e… uma pessoa que Akira nunca tinha visto.

Qualé, Luc… chamou atenção de geral… Quebrou a vibe da piazada à toa…

Isso não teria acontecido se VOCÊ não estivesse aqui… E VOCÊ sabe disse… VOCÊ sabe que…

Que “gente como eu não é legal tá aqui por que a gurizada não curte”… É, eu sei, eu sei… Mas poh, eu vim só pra… IIHH MANÉ, 'CÊS COMPRARAM COXINHA?! Irmão! Essa festa tá do…

Não, não, NÃO! Larga isso, isso não é pra VOCÊ, não para gente como VOCÊ!

Arriegua… Beleza, só queria pegar um…

Você não pega NADA, não fala mais NADA e…

Irmão, eu tô só teu lado… para de gritar…

Tá… bom… Vou tentar explicar de forma fácil, okay?

Joia… vou ficar ouvindo enquanto escolho o refri, fechou?

DEUS! NÃO, VOCÊ APENAS VAI ME OUVIR, SEU…. SEU…

Óia a boca, fih… Tá, vai, fala aí, eu ouso de boa.

De um lado… Não; não havia lados opostos disso; aquilo era o que aquilo era; nada poderia mudar isso… Era provavelmente o momento mais único que Akira viu e viveu até agora… isso fora o que aconteceu mais cedo… Era estranho ver aquilo, mas, ao menos, para não dizer que tudo estava perdido… não era o rapaz de mais cedo.


Bem… o rapaz com quem Lucas “conversava” tinha uma pele retinta; um cabelo longo no estilo de trança nagô preso com um elástico qualquer, fazendo meio que um rabo de cavalo improvisado; além disso, para chamar ainda mais atenção, estava usando somente uma regata com uma estampa praiana e a escrita “Welcome To Brazil!” junto a um calção com estampa floral genérica…

Estranhamente, tudo aquilo combinava; entre as peças de roupa e… ao garoto.

O rapaz estava com uma cara confusa; já Lucas parecia… bravo? Bem, aquilo era algo novo… Pelo menos para Akira; que olhou aquela situação com uma cara de desdenho… Era como se ele gritasse para Lucas que…

“É sério…? A gente não acabou de conversar sobre não se meter em confusão…?”

Independentemente de qualquer coisa; antes que o jovem pudesse fazer ou falar algo, aquela discussão continuou mais um pouco… e ainda na mesma tonalidade de antes…

— Vou perguntar isso mais uma vez… por qual razão você tá aqui? — perguntava Lucas, indignado com a presença daquele rapaz por algum motivo. — Eu… não deixei claro o que falei? É isso?

— Ó, meu bom, a festa não tá liberada pra todo mundo no final das contas? — contestou o rapaz, dando um sorrisinho tranquilo enquanto encarava Lucas. — E mais, se for parar pra pensar… Isso daqui não era para gurizada que tão se formando? Tchê, 'cê sabe que tem gente lá de cima se formando também, né?

— Sim, eu sei, mas… a ideia era que a festa fosse… para todo mundo que não seja como… Argh! Que não seja como você! — respondeu Lucas, apontando com raiva para o garoto. — Deixei bem claro pra todo mundo quem podia entrar na festa… mas pelo visto alguns ignoram, né?! Alguns que não podiam entrar… Qualé digo eu, você anda por esse lugar mais que eu… com certeza você ouviu sobre isso… Não se faz de imbecil!

— Relaxa aí, compadre… Tá de boa… Ó, vou só pegar um refri e vazar, moro? Só vim aqui pra isso… Não quero treta não, tendeu? Eu… só queria curtir um pouquinho, mas se isso é empata foda tá de boas.

— Você não vai sair sem consequências!

— É! Gente da sua laia acha que pode se intrometer nas coisas dos outros e sair impune! A gente já sabe a tua laia!

— Você não vai levar nada que não é seu! Esse refri é pra gente, e não pra gente como você!

— Qualé, piazado… Não, ó, beleza, tá bom? Foi engano meu; não quero problema não, fecho? Vou deixar o refri aqui e vazar… Aí geral finge que nada aconteceu… Que tal…?

Na real, o pessoal tá certo… Não vai fugir ninguém! Você veio aqui por sua escolha… E você sabe como a gente daqui trata xereta como você…

Poh, não é querendo desmerecer ninguém… mas Lucas, o lance do Dim foi pura sorte… Se for inventar de brigar comigo, tu sai todo esculhambado… Eu também, na verdade… A maioria ganha de mim fácil, mas…

— AH, PORRA! LUCAS, ACABA COM ESSE PRETO FUDIDO!

Tá que pariu… começou.

É… começou… e isso é culpa sua por se meter com…

E lá vai tu com esse papo de classificações… Vai lá; fala Capitu, fala!


Não havia como descrever aquela situação; Akira viu aquela cena e ficou confuso… Bem, confuso era pouco; não era como o caso de Natalia e Willian… tinha algo mais ali que estava cutucando a nuca do rapaz, e esse “algo” acabou surgindo com a última fala vindo da plateia que assistia aquele show… Ainda assim, isso era verídico? Lucas… não discordou, mas… também não concordou…

“Quem sabe… ele nem ouviu, né? Pode ser só um babaca qualquer…”

Bem… quem sabe.

O jeito que todos ali estavam tratando aquele rapaz era algo bizarro; ao contrário com tudo que Akira já viu ali, aquela situação em específica era totalmente fora da curva… Ameaças de morte como piada? Okay… Insultos a todo momento? É, tinha isso… mas… focar ambas as coisas em um indivíduo qualquer não parecia certo… principalmente quando o tom sarcástico não existia; aquilo não era uma brincadeira… era real… e as coisas pioraram drasticamente apenas por Lucas estar no meio daquilo…

O jovem já não podia deixar isso prosseguir, afinal de contas, a festa era para ser lugar de diversão, e não de briga…

Com isso, Akira, querendo entender mais o que estava acontecendo e querendo resolver aquela situação rapidamente, agiu… Com um pequeno esforços o jovem finalmente conseguiu passar por todo aquela multidão; com isso, se aproximou de Lucas, e com uma cara séria, disse…

— Lucas… o que tá acontecendo aqui?

— Akira…?! — exclamou o loiro, surpreso ao ver seu amigo. — Nada de mais… É só que…

— Ó, compadre… relaxa aí meu bom; não tá acontecendo nada de mais não… — cortou o rapaz, dando um sorriso na direção de Akira. — Seguinte, eeuu confundi os papéis; não li as letrinhas miúdas e não entendi o que era o certo na festa, sabe? Pensei que poderia vir de boas… mas pelo visto as regras não tão me permitindo… Mas óia, já disse que não quero problema… Só vou vazar daqui e pronto!

Como se isso fosse mudar algo… Você já tá causando problema…! — contestou Lucas. — Deus, era questão de bom senso… Não precisava nem ler nada pra saber o que é errado ou não… Só o simples fato de você está aqui já é um… problema do caralho…

— Lucas… maneira nas palavras… — sugeriu Akira, olhando para o jovem de canto de olho. — Falar desse jeito só vai piorar as coisas… E ainda mais, que papo é esse de “pra todo mundo que não seja como você”? O que isso significa?

Ah? Não, não! Você tá entendendo errado, é que…

— Relaxa poh, não é preconceito não… Quer dizer, é quase um, mas não é sobre a cor de pele, sacou? Ó, posso não curtir muito cabra, mas tô ligado que esse malandro aí não é racista não… pelo menos eu acho…

— Hhmm… Ainda sim, falar desse jeito é um pouco… problemático… Principalmente em público… Qualé pessoal, bora resolver isso com calma…

Ah, qual é? Vai ficar do lado dele agora? Isso é traição!

— Não Lucas… Eu nem sei por que ele não podia estar aqui; e nem sei o motivo desse briga… A festa era pra geral no final de contas, né? O que tem de errado nele tá aqui…?

— Tá querendo juntar Cinderzinho com a gente, porra?

— É! E ainda quer que seja logo o liderzinho fudido deles?

Por isso, imbecil… — retrucou Lucas, com uma cara de deboche. — Essa galera toda liga pra esse lance de classificação, esqueceu?

— Ah, entendi… Jesus… Tá, deixa que eu resolvo isso… Eu disse que era pra você se divertir ao invés de ficar se metendo em confusão, então… deixa isso comigo.

Com poucos passos, Akira ficou entre o rapaz e Lucas; o jovem tenta fazer uma espécie de sorriso para amenizar aquela situação, e embora ele não tenha sido o mais charmoso, incrivelmente pareceu funcionar… minimamente.

Olha cara, bora conversar fora da cantina para resolver esse treco? Ficar aqui só vai piorar as coisas…

— Oxi… vamo' nessa, meu patrão! Aí que é bom, alguém diplomático nessa bagaça, gostei…!

— É… alguém precisa ser o cabeça dura numa situação dessas… Vai indo na frente; me espera na porta de entrada da cantina, okay?

— Beleza, ó do cabelo branco! Tô indo nessa então!

O garoto dá as costas e vai saindo; ainda com diversos insultos mandados para ele… Mesmo assim, o jovem tratou aquilo como se fosse mais um dia normal na sua vida… Era um pouco estranho ver ele tão tranquilo em uma situação como aquela; ele só era estranhamente animado…

Se eu perder esse trem… que sai agora às onze horas…~

Talvez aquela escola tivesse de tudo, não é mesmo? Esse lugar sempre conseguia deixar Akira surpreso de alguma forma..


Cof, cof… Após a saída do garoto, a multidão finalmente foi se dissipando lentamente; ao mesmo tempo, Akira apenas se virou para Lucas bruscamente, e com o que séria a sua cara mais confusa até esse momento, disse…

— Mas que porra foi essa?!

Ah, porra… C-como assim?! O que você quer dizer com isso?

— Lucas… eu nunca vi você agindo desse jeito com ninguém, mesmo se ela tenha feito algo ou não…. Que merda foi essa?! Tipo… do nada isso…? Taria tudo de boa se fosse só você tentando ajudar, aí durante isso deu algo de errado para começar a briga… Mas, que merda foi essa?! Se você tava tentando ajudar, acho que só piorou as coisas… Quer dizer, o jeito que você tratou ele foi…

Akira, eu não tava julgando ele pelo cor… Eu só tava…

— Não, foda-se a cor! Isso não é e nunca vai ser motivo plausível para ofender alguém… O que eu tô dizendo é… que merda foi aquela?! Eu nunca tinha visto você com uma cara de bravo; nunca tinha visto você falando com alguém daquele jeito… Tipo… do nada isso? Alguma minutos atrás você tava dizendo que tava mal por mentir pra mim e pra Emily… e agora isso? Tipo… Hã?!

— Eu… não tô tão bem, tá legal…?! Eu tô exausto de ficar arrumando briga e… só tentei fazer o que parecia certo pra todo mundo… Eu não pensei direito, tá legal?

— Eu sei que você não tá bem e entendo que você só tentou fazer o certo… Por isso que tô te perguntando isso… É só que, nem parecia você…

Aki, me escuta… eu só não pensei, tá legal? Eu… tô me sentindo mais enérgico e… só agi na emoção; foi mal mesmo… Mas… acredita em mim quando eu digo que você não sabe muito sobre esse lugar… Aquele cara, ele…

— Primeiro o lance do remédio, agora isso?! Cara… isso é preocupante… Olha, você não tá no seu cem porcento… então não fica fazendo esse tipo de coisa; vai acabar tentando um burnout assim…

— _Aki, você tá me ouvindo? Já disse, eu não pensei direito sobre como resolver isso, mas ele não poderia ficar aqui… Gente como ele é um problema… Não, shiu, fica quieto!

Argh.. Deus, Lucas! Sério mesmo, chega disso! Olha, só bora esquecer isso, okay? Eu vou terminar de resolver isso enquanto você cuida da sua saúde… E pelo amor, para de falar assim…

— Eu sei… nas é que…

— Sem mas… Apenas se diverte; ignora tudo isso e apenas age como sempre; tira um descanso de… Desse estados de "vou ajudar!" ou sei lá o que… Só se diverte, okay?

— Tá… Tá bom, eu vou tentar… Puta empata foda você, viu? Beleza…

Por que você tá tão boca suja…? Caramba….

Não posso? Qualé, manter postura certinha depois disso tudo não é fácil, okay?

— Tá, tá… de qualquer forma; se você ver a Emily e o pessoal diz que tive que sair por um tempo…

Você vai mesmo se importar com aquele idiota…? Aki, deixa isso quieto, ele já saiu daqui, não tem motivo pra você… Ahn? Tsk… Cala a boca…

— … eu vou perguntar pra ela se você tiver feito algo, então fica esperto… E nem adianta não falar sobre isso com ela; no final vai da pra saber se você fez algo só olhando sua cara… Ah, e para de falar sozinho… Isso tá estranho…

Akira, não me ignora… Eu… Tsk! Saco…! Tá… tá bom… vai lá…

— Olha… não fica tão cabisbaixo… Eu não tô te julgando, só quero teu bem… Eu só… tô fazendo o que minha avó diria que é o certo, sabe? Então…

Deus amado, eu não tô cabisbaixo…! Hunf… Olha, eu sei… obrigado por isso… Quer saber? Eu vou… atrás da Emily agora… Acho melhor me aquietar um pouco mesmo… Essa droga me deu até dor de cabeça…

— Okay, é bom mesmo dar uma relaxada… Só não se esquece de comer, viu?

Tá, é só que… Akira… não vai, por favor… Deixa isso quieto, só esquece isso… Evita problema, por favor…

Não dá, Lucas… Eu não posso só ignorar isso; e ainda mais, é algo sério… melhor resolver dessa forma do que… em uma briga no meio da festa, sabe? Só relaxa, eu não vou arrumar proble…

Há? Ah… foda-se! Tanto faz; pode deixar, faz o que quiser… Vê se não se esquece da própria vida, xereta…

Quê…?

Lucas se virou com tudo; com um tom bastante grosseiro junto a alguns sussurros, ele logo começou a sair dali batendo o pé… Akira viu isso como algo normal; ou quase… Ele não poderia julgar o loiro; a situação que acabou de acontecer, junto ao modo de avó de Akira fizeram o garoto sobrecarregar… Ao menos era que Akira queria acreditar; aquilo não poderia ser tão ruim, certo…?

É… mais ou menos.


Cof, cof… Já parado ali por um tempo; Akira enfim decide se mover, e assim como Lucas, apenas deu de constas e começou a sair…

Por algum motivo inexplicável, durante todo o percurso o jovem teve uma sensação de estar sendo observado… Na verdade, não era uma sensação; era um fato… Todos ficaram encarando Akira de uma forma bizarra enquanto ele andava para a saída da cantina; e sem ter muito o que fazer, o jovem apenas teve que aceitar aquilo e seguir…

Tudo que aconteceu só deixou Akira com mais dúvidas; ainda assim, com cabeça erguida e com o mínimo de motivação, o jovem seguiu andando rumo a… a… a… Para ser sincera, nem o mesmo sabia por que estava se metendo naquilo; talvez por curiosidade, ou quem sabe por instinto… Independente de qual fosse, ele ainda estaria se questionando do porquê.

A multidão gritava, indiretamente, para Akira que: “mas que droga você tá fazendo? Você vai se importar com ele? Com um deles?”, e Akira respondia, também indiretamente, que…

“Qualé… Esse treco de classificação é lavado tão a sério mesmo?! Que droga é esse mo final das contas?”

Tentando fugir de qualquer coisa envolvendo aquela multidão, Akira se aproximou de uma das mesas; de início, a ideia era apenas para e pensar um pouco antes de fazer qualquer coisa… todavia, foi só o jovem ver um refrigerante qualquer dando sopa que ele teve uma ideia…

“Tudo isso pra nada? Deus… que treco chato… Não tem problema levar um desses de qualquer forma… né?”

De relance, o jovem pegou uma das garrafas de refrigerante e a “escondeu” com sua camisa… Não estava tão fria, mas ainda deu um friozinho na espinha… Logo após isso, Akira se fingiu de sonso; apenas se virou com tudo e caminhou até a porta da cantina…

“Ah, não dá pra voltar atrás! Dane-se! Vamos ver no que isso vai dar de uma vez e pronto…Vovó, confio em você!”

Fuueenn… Streak!

Com poucos passos Akira saiu daquele mar de confusão… Logo de cara, aquele corredor tenebroso em sua frente; nenhuma alma viva habitava o lugar… apenas Akira e… ninguém mais?

Akira olha para um lado; olha para o outro, mas… nada?

Ué? Cadê ele…? — indagou o jovem, decepcionado sobre aquilo. — Tanto bafafá pra nada?

Não vou mentir, era realmente decepcionante ver aquilo… Quer dizer, era decepcionante não ver nada; tanto para nada? Aquilo, de início parec…

Óia pra baixo tio… Aqui no chão compadre…

Oh, verdade… Akira não achava que o rapaz estaria lhe esperando sentado naquele chão frio…

De qualquer forma! O rapaz estava sentado; ele estava com a mesma carinha de antes; parecia animado e… bastante relaxado, mesmo depois de tudo que acabou de acontecer… Ainda sentado, o jovem deu uma respirada leve e…

— Eae, supimpa?

— Eehh… mais ou menos… Vem cá, o que você tá fazendo aí no chão?

— Sentado… Vai lá saber quando tu ia brotar… Melhor esperar sentado do que em pé, né? — respondeu começando a se levantar. — De qualquer forma… Eai? Você é novo aqui? Nunca te vi… Chegou quando?

Ahn… Cheguei aqui mês passado.

— Aahh, tá explicado então… É por isso que nunca te vi! Bem que me falaram que a gurizada que chegou era Ember e Spark…

— É… Aí Deus… por um momento esqueci que esse lance de classificação existia…

Relaxa, 'cê se acostuma… Tá em alta classe, precisa se preocupar não!

Eu passo… Prefiro nem pensar nessa droga… Olha, só bora logo com isso… Seguinte, que rolou ali dentro?

— Qualé tio, meio alto explicativo.

— Eu entendi o que aconteceu, mas… tô falando do jeito que geral te tratou… Aquilo foi… estranho pra cacete.

— Cabra… eu sou Cinder… e negro… Juntar cinza com faísca não acende fogo algum não, sabe? Quer dizer, pode até acender, mas não é garantido… O que eu quero dizer é: foi culpa minha! Meio noia minha ter tentado entrar aí de boa, mas… vale apena se arriscar! Sabe como é, né?

— Você tá me dizendo que tudo isso foi só por conta desse lance de classificação?

— Na mosca! Seria pelo que se não fosse por isso…? Etnia até podia ser, mas… pelo incrível que pareça, esse pessoal esconde bem o preconceito às vezes… Tipo, 'cê olha pro lado tem um nego qualquer; olha pro outro um japinha… Eles iam ter que arrumar alguma forma de esconder, né? Essa escola é mais mestiça que… sei lá, uma daquelas bestas gregas de 2 cabeças… Ou eram duas caldas?

— Olha… eu não sei; não sou o melhor quando o assunto é esse treco todo… Mas só que… eu nunca tinha visto uma galera levando isso tão a sério… Principalmente o Lucas… Pra mim esse lance classificação era só um jeito bobo de falar quem é mais perigoso…

— Falar é também é fácil, né?

Como assim?

— Olha com quem tu anda! O cara é o próprio significado de duas cara… Pra ser sincero, é quase impossivel tu ver ele agindo daquele jeito no meio de uma galera como aquela… Se já foi estranho pra mim, eu nem imagino como deve ter sido pra você ver ele puto em público… Digo, em público Ember e Spark… Cinder já é outros quinhentos…

— Eu… não acho isso… O Lucas só tá tendo uma noite difícil…! A Liz acabou pondo muito peso em cima dele… Digo isso com experiência; o pouco tempo que fiquei cuidando daquele lugar fiquei maluco…

— Tu ainda acha? Sei não viu… Qual foi, 'cê viu ele agindo todo diferentão lá dentro, eu dizer isso é simples, mas… tu dizer que ele não agiu todo estranho lá dentro é sacanagem…

É… nisso você tá certo… Nunca tinha visto ele agindo daquele jeito.

— “Nunca tinha visto”, né…? Irmão, é como se diz: “diga-me com quem tu andas que eu digo quem tu és”… E pelo que eu tô vendo aqui, tu tá mais perdido do que cego em tiroteio… Mas eu também não posso julgar, quase cai no papinho do Lucas também… Hehe.

— O que você quer dizer com… Ah, esquece… eu tô me distanciando do foco principal… Aqui, toma isso… — disse retirando a garrafa de seu “esconderijo”. — Eu ia me sentir mal se você saísse dali apensas com insultos… então paguei uma pra você… Leva isso em consideração, tá? Só tenta não…

— Iihh, caralho? Guardou essa parada aí aonde, irmão? — indagou surpreso sobre a ação de Akira. — Ó, irmão… precisava não… Mas eu também não recuso presente, viu? Hehe… mamãe me ensinou direitinho! Valeuzão aí, meu bom… — agradeceu com um sorriso bobo, pegando a garrafa. — Inclusive, qual teu nome me'mo? “Aki” alguma coisa, né?

— Meu nome é Akira… Akira Kurayami.

— Ta porra, nome pica… 'cê é louco… Aí, sim, hein… Ó, prazer, me chamo…

STREACK, POW!!!

Do absoluto nada a porta da cantina é aberta bruscamente; o susto foi grande, os dois garotos nem tiveram chance para pensar antes que pudessem ouvir aquela voz familiar… Por sorte de ambos, não era Lucas; não era Alex; não ninguém que pudesse tornar aquela conversa em uma discussão… Na verdade, era somente uma “maluca” qualquer.

RAFAEL DUARTE, O QUE FOI AQUILO ALI DENTRO?! — gritou Luna, se aproximando com tudo de ambos. — Eu sempre soube que você era louco… mas vir na festa deles achando que não ia dar ruim?! Você tem noção o que falaram sobre mim depois que você saiu dali como se nada tivesse…

— É Gomes minha fia… Donde tu tirou esse Duarte?! Isso é nome de gente chique e que ganha troféu… Eu não sou esse tipo de pessoa não, fia.

— Pouco me importa seu sobrenome, Sr. Fritz! Agora me diz… O que foi aquilo que…

Cof, cof… Com licença? — interrompeu Akira, pondo a mão no ombro de Luna. — Aonde a senhorita estava esse tempo todo? E cadê o Alex?

— Eu…? Aonde… eu tava? Fazendo o trabalho sujo do Lucas! Vocês acham que espionar alguém é fácil?!

— Você foi por que você quis… — contestou o jovem, se escorando na parede. — E isso não justifica seu sumiço.

— Uma ova! Você usou técnicas de manipulação contra minha pessoa! Eu fui por que…

— Diacho… o que mais eu perdi? Tu conhece a Luna, mas não me conhece? Como isso? — indagou Rafael. — Tão de armação pra cima de mim ou o quê?

— Conheci ela hoje… assim como você, Rafael…

— Te conta, hein Luna… Óia, pra uma guria que não quer que teus trem vaze, tu sai tacando a nome dos outros a rodo, né não? — contestou olhando para a garota em sua frente. — Parando pra pensar… Ei mano… assim, por acaso tu sabe meu CPF ou RG? Se souber, eu tô querendo saber também… Acho que deixei em casa…

— Gente, foco…

— “CPF”? Sua Certificação de Participação na Falência mundial? Ou você acha que eu não sei sobre os brasileiros estarem comprando coisas em outros países para venderem mais caro?

— Pessoal…

— Qualé… nem todo mundo é assim, tá bom? Além disso… primeiro: eu sei que você sabe o que é CPF, nem vem com essa… Segundo: julgar país que não é de terceiro mundo é forçar a barra… Terceiro: se você vier me dizer que comprar trés jogos por dez reais é idiotice eu parto pra cima de tu.

— 'Cês tão me ouvindo?

Já discutimos sobre isso… Se um jogo era três reais, era pra você dar somente nove reais, não dez!

Tu não sabe o que é ou como é que uma fera do rolo funciona, minha filha? Porra… fiquei até mal agora…

— COF, COF... COM LICENÇA?! PODEMOS CONTINUAR NO QUE IMPORTA?!

— Ó, real, né? Maus aí, força do hábito…

Deus… isso vai ser difícil… Beleza, vocês já se conhecem pelo visto… Isso é bom; já ajuda um pouco… Ra~Rafael, poderia me dar seu… “depoimento” sobre o que aconteceu ali dentro? Eu… meio que peguei a briga no final, então… fica difícil tomar uma decisão sem um contexto total.

— Meu depoimento? Óia, se quiser meu depoimento… tu vai querer o do terceiro andar inteiro… Acredita no pai; tentar argumentar em qualquer briga que envolva o Lucas é quase impossível… Ou tu vê o trem rolando com teus olhos, ou tu afunda que nem o Ticanic…

É “Titanic”, bobalhão…! — corrigiu Luna. — Mas o Fael tá certo… independente do que ele ou eu diga, se você só voltar ali pra dentro vai ouvir uma chuva de desculpas baratas daquele… duas caras.

Ouve a louquinha ai, namoral… Mas no fim é isso; se tu quiser uma visão melhorzinha do que rolou lá dentro, e quem sabe uns outros papos sobre os cabras que tu tá andando, recomendo dar uma passada no terceiro andar; lá tu acha meu depoimento e de uma galera… Mas se te incomodar, eu posso falar aqui mesmo.

Akira apenas ouviu o que Rafael disse, e, ainda escorado na parede, somente virou a cara para direção da porta; a ideia de voltar e só continuar a festa era alta, mas a curiosidade de permanecer naquilo também era grande… Akira estava curioso sobre o que Rafael disse; além disso, essa provavelmente seria uma das únicas chances dele ir para o terceiro andar com um motivo plausível… então… _não faria mal arriscar, certo? Além que… um pausa daquele lugar também seria uma ótima forma de esquecer aquela maldita “ameaça”.

Hunf… Tá, eu vou… Mas eu não vou querer ouvir xingamento sem motivo, tá bom? — falou o jovem, cruzando os braços. — E… também não quero me meter em problema… qualquer coisa foi vocês que levaram pra lá… Se esse lance de classificação é tão séria pra uma galera, mal consigo imaginar como eu posso ser tratado por… só ignorar isso.

Já disse, fio… você não ignora isso, mesmo querendo; alguma hora 'cê se acostuma… Mas se servir de consolo, no máximo que 'ocê vai receber é uns olhares tortos… Mas de qualquer forma! Deixa comigo, lá em cima é simples: “andou com o Fael, 'cê vai pro céu”!

Puta merda… Só bora logo.

— Vamos nessa então! — exclamou o rapaz, dando um sorriso animado para direção de Akira. — E tu louquinha, vem com a gente também? Sabe como a gurizada é… principalmente quando o assunto é tuas tralhas velhas…

Ela também é do terceiro andar?

— Gosto de referir ao meu “QG” como “campo de informações”… E sim, eu vou! Deixar informação voar como passarinho? Não, não! Eu não sou que nem os Estados Unidos! Sem contar que… você tá certo; eles já devem ter mexido em algo nesse meio tempo… Nunca mais deixo meu notebook desbloqueado… meu histórico foi completamente arruinado depois daquilo!

— Joia então… Vambora, cambada…!

Nisso, o “grupinho” começa a andar; Rafael ficou na frente, cantarolando algo baixinho; Luna fica um pouco mais atrás, encarando Rafael enquanto andava… Akira ficou sendo o último dessa “fila”; o jovem apenas seguia os dois em sua frente, sem nem pensar no que aquilo poderia lhe levar…

Havia como voltar atrás, não irei mentir; contudo, Akira optou por não fazer isso… Aquilo poderia ser uma “ótima oportunidade” como diria seu pai; ou quem sabe, poderia ser um “ótimo balde de água fria na cara” como diria seu irmão… a
Mesmo assim, Akira não via motivo de não tentar aquilo; algo dentro dele gritava que isso poderia ser uma boa coisa a se fazer naquele momento…. E na verdade era; Akira já tinha esgotado suas energias naquela festa; uma briga era algo que ele já esperava; uma ameaça não… O jovem tinha em sua mente que precisava de uma pausa daquilo tudo, e o mundo entendeu o que ele queria… porém, para o mundo não sair por baixo daquela situação, uma última coisa faria Akira ter a certeza que deveria tirar uma pausa…

Cof, cof… Com poucos passos dados, Akira conseguiu ouvir um rangir vindo de trás dele; de relance, apenas virou um pouco cabeça para dar uma olhada rápida, e nisso… de uma pequena frecha da porta da cantina, Akira conseguiu ver um olhar o encarando… De quem era? Ele não sabia… mas ainda assim, como resposta instantânea, se virou rápido para frente e aumentou seus passos drasticamente…

Seja quem ou o que foi aquilo, Akira não queria nem pensar sobre; foi mais que uma resposta do mundo; foi um aviso… e Akira entendeu ele mais que perfeitamente.


Assim que aumentou seus passos, Akira conseguiu ouvir a porta atrás dele sendo fechada de fora brusca… quem sabe até sendo aberta… Cof, cof… Ainda assim, Akira seguiu até ficar perto o suficiente de Rafael; o mesmo continuava com um sorriso em sua cara, e para deixar aquilo com um contraste ainda maior…

Nunca tenha medo, tick duan, tick duan…~ — cantarolava o rapaz, estalando os dedos no ritmo da música. — Do seu inimigo, tick duan, tick duan…~ Quando não é você, tick duan, tick duan…~ Que começa a brigar…~

— Dá pra parar de cantar? — contestou Luna. — Isso é massante.

— Poxa vida… eu sou tão ruim assim?

— Não é isso… esse treco só é irritante mesmo…

— Ei, respeita minha cultura…

Respeitar eu respeito; só não respeito você ficar cantando picuinha toda hora.

Picuinha?! Ah, não! Ai é mancada… Quer que eu troque então? Eu tenho uma perfeita pra você…

Lá vem…

Cof, cof… Ela só quer, só pensa em namorar~!

Pelo amor, Rafael! Só fica quieto, capeta!

Hehe… Óia bem, se tu se incomodou, é por que é verdade, viu? Hehe… Como você e o Vlad tão indo?

— Não é da sua con… DIGO, Cof, cof… Por que você já não vai falando do que rolou lá dentro? Já tô ficando injuriada com tanta enrolação.

— Calma lá, minha fia… tá toda arretada por quê? Até parece que não sabe como o Lucas age… Me deixa surpreso ele não ter reclamado de você lá…

Eu fui convidada pela Emily… Ele não ia reclamar de uma… convidada de honra!

— Ainda assim, poh… Me deixa surpreso ele e a Emily tarem juntos… Se isso acabar como Romeu e Julieta fico puto com esse cabra.

— Como assim? — questionou Akira.

— Como assim digo eu… Tu não sabe? A Emily é Cinder, cabra… Vai dizer que não sabia?

— N-não? E o que tem ela ser isso?

— “Cinza não acende Faisca”… Qualé Akira, você me disse que era lerdo, mas eu não sabia que era pra tanto.

— Puta marda! Por que vocês levam essa droga tão a sério?!

Macho, eu já disse…

— Rafael, ele só conversou com o Lucas e a galerinha do primeiro andar… 'cê acha mesmo que ele vai entender as coisas tão rápido assim? — contestou Luna. — Nem você entendeu tão rápido…

— Cacete… como 'cê acha que eu saberia disso? Pensei que… já que ele conversa contigo; ele conversasse com os guris lá de cima… Se bem que ele te conheceu hoje, né? Poxa, errei feio nessa.

— Explica logo pra ele.

— Explicar o quê…? — indagou Akira, se aproximando ainda mais da dupla em sua frente. — Só… fala… Isso tudo tá muito estranho pra mim.

— Beleza… Olha, 'cê só anda com o Lucas, correto? Quer dizer… majoritariamente… ou algo assim.

É, mais ou menos… Saio com o Alex e o Davi também… às vezes.

— Dá na mesma… Se liga parceiro… esse treco de classificação é mais complicado do que parece… Tipo, sabia que foi uma fuleiragem quando o Lucas começou a namorar a Emily? Foi uma puta discussão pra tudo que é lado… Parecia eleição brasileira…

— Sério…? Por quê? Tinha gente com inveja, ou…

— Inveja?! Você acha que a gente tá em que? High School Musical ou algo assim?

Deixe o cabra, Luna… Ó, tô falando sério… Se não fosse a popularidade e importância do guri, a Emily ia tá em maus lençóis… Ou não, ela provavelmente só voltaria pro terceirão… Ó saudade de uma pessoa pra alegrar aquele lugar.

— O Lucas… é tão importante assim? Eu… não entendi direito isso.

— Ah, ha! Ele já tá começando a sacar as coisas…

— Yep… Oh, tá ligado quando eu tava lá na festa e… disseram algo como “liderzinho” ou algo desse nipe?

Sim…

— Errados eles não estavam… Pelo menos nessa joça aqui a monarquia tá em tudo lugar… ou quase… Tipo… o Lucas pode ser considerado o fodão aqui… Se ele fala; tá falado, 'tendeu? Certeza que 'cê já viu ele pedindo algo pra alguém e a pessoa aceitou sem nem contestar…

— Eehh… Sim…? Mas quem recusaria um pedido dele? Ele… não faz mal a ninguém… E ele só pede coisas simples… na maioria das vezes.

“Simples” até ele pedir algo sujo… Você acha mesmo que “trabalho sujo” que falei era só uma piada, né? — argumentou Luna, cruzando os braços e fazendo uma carinha de convencida. — Vocês NUNCA vão me entender ou entender como minha mente funciona!

— Mas… você não seria o mesmo então? Que droga é essa no final das contas…?

— He… Eu deixo pra você tirar suas próprias conclusões quando a gente chegar no terceiro andar…

— Tá bom…? Isso não ajuda muito, sabia?

— Você não presta, Rafa…

Ha! Tratarei isso como um elogio… Obrigado Luna…

Os três continuaram; Rafeal prosseguiu cantarolando enquanto caminhava; enquanto Akira e Luna ficaram apenas quietos ouvindo aquilo tudo…

Para ser sincero com ele mesmo, Akira estava até que tranquilo com aquilo… As coisas estavam indo bem, e isso era bom; no fim, Akira estava até que gostando daquilo… Mas, ainda assim, ele ainda estava um pé atrás sobre tudo que eles falavam sobre o loiro.


Akira ficou um tanto quanto perplexo; “tudo aquilo era verdade ou apenas uma briga interna entre esses dois?”, o garoto questionava-se em meio aquela longa caminhada… Independente da resposta, Akira queria por que queria descobrir por conta própria; além disso, já era tarde demais para ele dizer que voltaria…

Quando se viu, lá estava ele novamente, subindo as escadas para o segundo andar; Akira foi poucas vezes para ele, tanto que o mesmo até estranhou quando se viu naquele corredor coberto pela escuridão… Bem, ou quase… Cof, cof… Certas portas emitiam luz; na verdade, era por conta disso que o corredor não estava em um breu total; além disso, vindo das portas que emitiam luz, havia não só uma, mas como várias outras conversas paralelas ecoando dos quartos para o corredor… As conversas não eram das melhores, porém, ao menos, não eram as mais extravagantes ao mesmo tempo… E, para contrariar, tinha até algumas conversas comuns sobre jogos de tabuleiro em meio a toda aquela bagunça auditiva… Acredita nisso? Hehe…

Além disso, ele nem passou tanto tempo naquele lugar; conforme Akira se aproximava das escadas para o terceiro andar, seu coração se aproximava de uma sensação um pouco mais nostálgica; era a mesma sensação da primeira vez que ele andou por aquele lugar… era medo; um medo sem sentido talvez, mas era algo que realmente tomou conta do garoto de uma hora para outra… De resto, era apenas andar e esperar para ver se essa sensação sumia…

Toc, toc, toc…

No primeiro degrau o coração de Akira bateu forte…

“Será que eu tinha mesmo que vir? E se eu não tiver como voltar depois disso…?”

Bem… realmente não teria maneira de voltar atrás; mas isso não sendo no que ele esperava…

Toc, toc, toc…

No segundo degrau, a ansiedade envolveu Akira…

“E… se tudo isso só for perda de tempo? E se no fim eu só esteja fazendo algo de errado? Eu deveria confiar mais na nos meus amigos…”

Errado ele não estava, mas em certos momentos… sempre é bom fazer algo por escolha própria.

Toc, toc, toc…

Akira para.

— _“Não… eu não posso parar… Não agora… Se eu voltar agora vai ser pior… Não tem mais jeito…”

Nesse momento, Akira cerrou os punho tentando tomar coragem; aquilo era tão bobo, mas estava o deixando tão tenso… A cada degrau subido o jovem se sentia pesado; se sentia leve: se sentia uma mistura de sensações inexplicáveis… mas, por sua sorte, isso acabou ficando bem explicito…

Tá tenso por que, irmão? Relaxa o bico aí, nego! Se liga, faz como a Dolly, continue a nadar, continue a nadar~!

Rafa, é Dory…

Tanto faz! Só relaxa, ó do cabelo! A gente já tá chegando… Preocupa não!

Ao menos alguém ali estava tentando algo contra esse medo de Akira…


Passo a passo o garoto foi indo; pouco a pouco ele subiu as escandas, e para sua surpresa, sem nem perceber, lá estava ele; no terceiro andar… pela primeira vez e… não pela última.

Como posso dizer isso sem parecer grosseira? Bom… o lugar era… feio… O teto parecia que ia desabar; a cor da madeira do chão já parecia outra coisa; algumas paredes estavam com tinta faltando; algumas luzes estavam estouradas e, para complementar, incrivelmente tinha muito barulho ali… Serio mesmo, aquilo estava mais barulhento que a própria festa do Lucas…

— OH, ZÉ DO PAGODINHO, ABAIXA ESSA PORRA, EU QUERO DORMIR!

— É ZECA PAGODINHO, MONGOL!

— FODA-SE! ABAIXA ESSA PORRA!

— VEM ABAIXAR SE TÁ TE INCOMODANDO! TU É O ÚNICO IDIOTA QUE TÁ QUERENDO DORMIR UMA HORA DESSAS!

— VAI SE FUDER, ARTHUR! EU TENHO O QUE FAZER AMANHÃ, SABIA?

— VEM ME FODER ENTÃO! QUEM MANDA FICA VAGABUNDIANDO POR AÍ O DIA INTEIRO?!

— FALOU O SEDENTÁRIO, NÉ, FILHO DA PUTA?!

— EU SOU ESCRITOR, IDIOTA!

— TU SÓ ESCREVE PUTARIA, IRMÃO!

— AH, PORRA! USA O TAMPÃO DE OUVIDO DO DAVE, PORRA!

— PIOR, NÉ? ESQUECI DISSO… DESCULPA AÍ, ART…!

— DE BOA…!

Ahn… não preciso dizer que o lugar também era caótico, certo? Estava na cara: era uma ou era outra; ou os alunos dali não estavam ligando para nada e estavam agindo normalmente, ou… Meh, eu menti, não tem a outra coisa; eles só estavam sendo eles mesmos no final das contas.


Assim como na escada, Akira travou; dessa vez não por medo, e sim por… surpresa…

Aquela havia sido uma primeira impressão que ele não iria esquecer de forma alguma…

O medo sumiu por completo; seu corpo foi tomado somente pela sensação bizarra de caos que o lugar tinha… Akira, ainda travado com aquilo em sua frente, apenas encarou o lugar; aceitou que aquilo era aquilo, e então, antes que o mesmo pudesse dizer qualquer coisa…

— Tu tá surpreso, né? — ironizou Rafael, com uma cara de deboche. — Sacou por que aqui não tem um líder? Não tem como controlar ninguém… Hehe… Isso aqui é tipo o interior de um estado brasileiro; tem regra, mas ninguém segue elas a rodo.

— Eu… tô surpreso sim… Como eu não ouvi essa barulheira toda do segundo andar?! Tipo… essa gritadeira toda? Esse lugar… por que ele tá caindo aos pedaços?!

— Isolamento acústico, fih… Conhece? A Liz tacou isso nos andares de baixo… Ma' meio que ela esqueceu de por aqui; então ficamo' sem… Acordar no meio da madrugada com algo pipocando é bem comum aqui inclusive…

Esqueceu nada! A Liz prioriza só os dois primeiros andares, e a gente que se lasque! — corrigiu Luna, fazendo uma cara irritada. — Ela sabe que os mais fracos sempre iniciam as revoluções, por isso ela não nos dá nada que possamos usar ao nosso favor…

Ó, muié, me diz como tinta de parede ajuda em uma revolução? Era só uma tinta de cal branco nessa parede e ficava massa…

Tinta o que?! Isso é alguma nova cor ou…

Ei, macho… tu não sabe o que é tinta de cal?! Égua doído… 'cê precisa de umas aulinhas, viu? Ma’ de qualquer forma… Hey, Akira… bora lá? Meu quarto é no final do corredor…

— T-tá… bora… Quero terminar isso logo…

— Joia, patrão… Luna, 'cê vem com a gen…

— AH, A LUNA VOLTOU?! Ó, LUNA! O DAVE ENTROU NO TEU QUARTO DE NOVO…! AH, E A KATYA ROUBOU UM ABSORVENTE TEU…!

— EU NÃO ROUBEI NADA, NATHAN! A LUNA DISSE QUE EU PODERIA PEGAR SE PRECISASSE, IDIOTA!

QUÊ?! Mas como eles entraram se eu tranquei a porta?!

— POXA, LUNA! TEM UM CABRA AQUI QUE O VULGO DO BROTHER É LITERALMENTE CHAVEIRO!

— HEHE, O PAI É FODA, PATRÃO!

— Ai meu Deus… Não, eu não vou com vocês… Pra ser sincera, vão na frente, eu preciso conversar com o Jaime antes de qualquer coisas…

— Relaxa, garota de Ipanema… pode ir lá namorar… — zombou Rafael, dando um sorrisinho frouxo. — A gente se vê mais tarde então!

Você não presta, Rafael…

Também te amo!

O trio então se separa; Akira e Rafael começam a andar até o fim do corredor, enquanto, de relance e nem um pouco alto, é possível ouvir Luna arrombando uma porta e começando a xingar um tal de Jaime…

Cof, cof… De qualquer maneira, Akira ia caminhando por aquele corredor; junto a isso, aquela ideia de medo e ansiedade ia sumindo gradualmente com cada passo que ele dava… O lugar era claramente horrível; todavia, tinha algo que chamava a atenção do jovem de uma forma que o fazia esquecer deste detalhe grotesco… Talvez o jeito que todos ali agiam; talvez o simples fato do lugar continuar de pé mesmo no estado que ele estava…

Sem dúvidas, aquilo era intrigante; ou pelo menos parecia uma faísca de algo maior… O jovem sentia que se daria muito bem com aquele pessoal… caso ele se intrometesse na vida deles por alguma razão… Mal sabia ele que essa razão estava mais próxima do que achava.


Bom, lá estava ele, em frente a uma porta com uma plaqueta de número “100” caindo aos pedaços… Na verdade… os dois zeros da plaqueta eram apenas riscos feitos com tinta… A única coisa que realmente restou daquela velha placa era o próprio número um, que ainda estava incrivelmente conservado…

Cof, cof… Sem muita enrolação, Rafael abriu a porta em sua frente; o rapaz entrou e Akira foi logo em seguida… Não teve lero-lero; e mais uma vez, Akira estava surpreso… O lugar era incrivelmente grande; havia espaço de sobra ali, mas ainda assim, ele também estava decorado de uma forma única e bagunçada… De alguma forma havia um sofá velho no meio do quarto; ele estava virado de costa para a porta, e, além disso, havia três pares de beliches; um em cada canto do cômodo… por fim, para complementar tudo aquilo, havia uma televisão velha no meio de tudo isso, enfrente ao sofá…

Como tudo aquilo foi parar ali? Bem, Akira se fazia essa mesma pergunta… Os beliches provavelmente e já estavam lá desde sempre, mas… uma televisão e um sofá? Para um lugar como aquele, aquilo era um luxo…

Akira notou o obvio, seu quarto comparado aquilo era minúsculo; ele nunca pensaria que seria possível ter uma televisão funcionando naquele lugar… principal e especialmente naquele andar.

Mas… não era para tanto; a televisão era uma daquelas de modelos antigos; uma tevê de tubo bem capenga mesmo… Maaaas… ainda era uma tevê.

Cof, cof… Enfim! Chega de falar no recinto dos outros, certo?

Bom… com a entrada no lugar, Akira teve não só uma visão única de tudo, como também teve uma bela oportunidade de ouvir… nada de mais? Quer dizer, os corredores ainda estavam um caos, mas… pelo menos no quarto a única coisa que fazia som era a própria televisão… Estava passando um filme ou série naquela telinha pequena; não era nada de mais, Akira apenas levantou um pouco a cabeça para ver o que estava passando, e a única coisa que o jovem viu fazendo isso foi uma garota meio rebelde falando com um garotinho em cima de uma árvore…

“Desce dessa árvore, menino-aranha!”

… Era um contraste interessante até; aquilo não parecia um filme de terror ou algo do tipo… Foi reconfortante; embora os corredores ainda continuassem fazendo aquela barulheira, o quarto era envolto apenas em falas bem planejados e uma boa trilha sonora…

“Eu vim pegar minha bola!”

— Ele vai cair em três…

… Rafael compartilhou desta mesma sensação; embora lá fora ele tenha sido o mais relaxado, assim que fechou a porta o mesmo deu um longo suspiro de alívio…

— Dois…

… Após isso, o rapaz apenas seguiu um pouco; deu poucos passos acompanhado por Akira em direção a televisão, e…

— Um…!

STREACK! ‘Meu Deus do céu! O menino estava caindo!’”


— Queridas… cheguei! — exclamou finalmente Rafael, em um tom animado enquanto se aproximava. — Vocês ainda tão nesse filme?

É só os primeiros 30 minutos…! Vem cá, trouxe o suquinho? — “disse” uma mão surgindo do sofá e fazendo um joinha.

— Pode crer que sim…! E trouxe até mais uma surpresa pra 'cês…!

Surpresa? — “indagou” outra mão surgindo do sofá; dessa vez fazendo uma pistola com os dedos. — Pegou fandangos?

— Que nada… é uma pessoa…!

Não brinca! Você trouxe uma dama da noite por acaso?

— Macho, acho difícil achar uma nessas bandas… principalmente uma que aceite um guri brasileiro como alvo… Sem contar que eu não tenho grana, né? ’Cês tão chutando muito alto… o que vocês fizeram enquanto eu tava fora? — ironizou Rafael, pondo a garrafa em uma pequena cômoda que havia ali perto. — Piada a parte, pode vir Akira… eles são de boas… só mordem se você mexer no que não deve…

Pera… o quê…?

Hehe… relaxa, é só não tocar nos DVDs e nas fitas…

Ah, tá… já vi isso… Meu irmão era desse tipo de pessoa…

Após esta “introdução” ao lugar, Rafael e Akira andaram um pouco mais para dentro; com poucos passos ambos ficaram bem na frente do sofá… revelando, enfim, os dois garotos que estavam deitados nele.

Um tinha uma longa franja em uma tonalidade meio laranja; os lados do cabelo eram raspados, e, além disso, ele também tinha uma barbicha; o menino tinha sua pele mais escura, mas não tanto quanto a de Rafael; olhos em tons castanhos escuros e uma camisa havaiana estampada de flores por toda parte.

O outro garoto já era mais “comum”; tinha cabelo curto e castanho, usava uma touca para esconder o que parecia ser um penteado horrível; além disso, estava usando camisa velha do que parecia ser uma falsificação de uma banda famosa; seus olhos eram em um tom vinho escuro, provavelmente o único e mais chamativo destaque dele, e, por fim, sua pele já era algo mais clarinho, mas nem tanto…

Piada a parte, se colocasse cada um dos garotos daquela sala lado a lado teríamos um ótimo degradé… com pequenos pulos de cores, mas… um degradé.

Okay… Os garotos estavam deitados um em cima do outro de uma forma completamente desajeitada… e provavelmente desconfortável… Rafael deu um sorriso breve ao ver ambos; Akira ficou parado vendo a cena até que cômica de ambos deitados no mesmo lugar; e os dois garotos…

— Ou! Sai da frente… tá chegando na melhor parte! — falou o garoto de franja.

— É! Tem noção o quão aquela cena é boa?! — complementou o da touca. — É tipo… Pow! O nome do filme na tua cara!

— Pelo amor de Deus… 'cês já viram esse treco umas quatro vezes essa semana… Não vão se enjoar não? — resmungou Rafael, virando de costas e desligando a tevê sem avisar. — Arrocha… a gente tem coisa pra conversar…

NÃÃÃO! KIARA!

QUALÉ, RAFA! LOGO NA MELHOR HORA?!

Cof, cof… O negócio é sério, nego… quase me fudi pra pegar o suco… Vocês continuam isso mais tarde…

Hhhmmm… tá bom, mas só por que você trouxe suco… — disse o garoto de franja, se levantando de cima do seu amigo. — Bora, levanta, macho… Então, qual a boa…? E quem é o Truta aí?

Rafael arrumou um pouco sua postura, e sem dizer nada, apenas olhou para Akira com uma carinha que dizia mais que qualquer coisa… todavia…

— Hey! Nem olha para mim… Não era para você dizer alguma coisa? Eu só te segui até aqui pra entender o que aconteceu lá em baixo…

— Hehe… Tá, 'cê tem razão… Faz assim ó, se senta aí; eu sirvo o suquinho pra geral e falo sobre o que rolou… fechou?

É… pode ser…

Beleza! Cambada, pera ai que eu vou catar os copinhos do Gregor pra nós…

Joia… Pera… Eita porra! Tu trouxe uma garrafa?! Aí sim, pai!

Agradece o Akira ai… foi o cabra que me bancou…

Lui… um brinde pra esse brother aí!

Fechou… Um brinde ao salvo noites!

Deiza eu pegar os campos antes do brinde, bobões… Ó, GREGOR, CADÊ OS COPOS DAQUI DE CASA?!

Akira havia se sentado no sofá; ele era incrivelmente desconfortável no final das contas, mas já dava para o gasto… Os dois garotos não falaram muito; apenas observaram Akira enquanto Rafael saía do quarto por alguns minutos.

E minutos depois Rafael voltou; serviu um pouco de suco para todos e se sentou ao lado de Akira… Ficou meio apertado no sofá? Sim…

Bom… Cof, cof… Tempo vai, tempo vem, e chegara a hora de fazer o que foi proposto inicialmente; com um gole leve no suco, Rafael limpa a garganta e…

— Beleza… Seguinte mané, o que 'cê quer saber me'mo?

— Sobre como começou a briga, e… qualquer coisa que vocês tenham a dizer sobre o Lucas… — respondeu Akira.

Como é? Eu dar minha opinião sobre o loirinho?

É…?! Quer dizer, você tem uma opinião forte sobre ele pelo visto…

Tá bom então… Óia, ouve bem que eu vou falar… por que eu não vou repetir, tá…? Bagulho é simples; eu ouvi que ia ter festa pra geral, fiquei tipo “eita porra, vai ter baile funk?!”, mas quando descobri que o anfitrião ia ser o cabelo de pudim fiquei com um pé atrás… Ainda assim brotei lá; ia só pegar um suco como eu já disse, porém, por uma piada… Não, piada não… por uma sacanagem do destino, eu esbarrei justo no guri mais capenga pra esbarrar naquela hora… e deu no que deu…

— Foi… só isso?

— _Tô te falando…

— Hhmn… Tipo… vocês nem conversaram nada e aí que começou a briga? Qualé, não pode ter sido só isso… esse treco tá muito simples pra ser verdade…

— Que nada… ele só me viu e deu aquele gritão lá… Foi tipo: “tá fazendo o que aqui?!” ou algo desse pique… Você deve ter ouvido, né?

É, eu ouvi sim… Não teve como ignorar aquele estrondo…

Pois é… mas te contar que…

— O Rafael… — disse o da franja. — você desligou a porra do filme só pra falar sobre o puto do Lucas? Qual é a graça da vez pelo menos?!

Calma, fih… eu explico tudo certinho pra vocês depois… Ah! Inclusive, antes de qualquer coisa… Ó, o guri de franjinha é o Luis e o da touquinha é o Matheus… e contextualizando, meu maninho Akira tá querendo uns depoimentos sobre o tão quedinho Lucas…

— Depoimento? Viramo' DP agora? — contestou Luis. — _Pergunta pra Luna, ela que é A Mina Das Opiniões aqui…

— Errou feio… esse é o título da Larissa… e ela é Ember, burro!

— Levem isso a sério… Se liga, pelo que deu pra entender, o brother aí caiu na isca do Lucas…— disse Rafael, fazendo uma cara um pouco mais seria…

— Ai, Deus… lá vem.

— Eita… Tá, agora deu pra entender o que tá rolando… Minimamente… — falou Matheus, dando uma risadinha frouxa após sua fala, mas se “arrumando” logo em seguida. — Jóia então… Vem cá, A-Akira, né?

Sim…

— Meu bom, só por curiosidade mesmo… como foi que o Lucas te conheceu?

— Ah…? Bem… ele me comprimento na minha sala de aula e…

— Deixa eu adivinha: “não gosto que gente nova fique sozinha”?

Sim…? Ele disse algo desse tipo…

Ah, qualé! Tsk… você caiu na isca mais comum dele, viu? — zonhou Luis, dando um tapinha na própria testa. — Toda santa alma que chega aqui ele inventa de falar algo desse tipo… Caramba!

Ou é isso, ou o lance do refeitório… — complementou Matheus. — O ultimato dele é o clichê de esbarrar nos corredores…

— Tsz, hehe! Pior, né?! Ai, ai… lembro até hoje quando ele pegou aquela bandeja…

— Tá, mas… o que de errado tem nisso? Ele não… só tá fazendo algo bom? — indagou Akira. — Vocês só estão deixando isso mais complicado…

— Ó patrão… 'cê anda com ele de cá pra lá, né? — questionou Rafael, se levantando do sofá. — Ele nunca faz alguma merda perto de geral… Sempre é sozinho e com uma gente muito específica… Ah, se você visse a vez que ele veio aqui em cima… Aquilo foi um caos…

— O que… aconteceu?

— O que não aconteceu… essa é que a questão de verdade… — contestou Luis, relaxando no sofá… deitando por cima das pernas de Matheus. — O cara falou merda pra caralho, sem contar que partiu pra cima do Rafael sem razão alguma… O Rafa quase morreu naquele dia…

— Ou…! Não é pra tanto… Eu conseguia amassar ele de boa, tá bom? Ele que é magricela… ao menos eu sei capoeira, fiote.

Independente irmão… — disse Matheus, acariciando os cabelos de Luis com a mão. — Como você deixa isso tão sedoso?

Akira olhou para baixo por um instante; ele estava intrigado; intrigado com tudo aquilo que estava ouvindo… Tudo… tão de repente…. Afinal, e se fosse apenas uma rixa? E se… ele só não tivesse visto até agora…?

“Um internato para aqueles que cometeram crimes”…

“Um… internato para aqueles que cometeram crimes”? Isso… está correto? Se alguém estava ali, era por que fez algo… Akira surtou para cima de alguém, mas… e o Lucas? O que ele havia feito… ou melhor, o que uma alma, até então, tão benéfica estava fazendo ali?

Um internato para aqueles que cometeram crimes… Qual… foi o crime de Lucas?


— Isso… não é verdade, né? O cara é tão… gente boa… e eu duvido ele fazer algo desse nível… Ele… não é de brigar…

— Camarada… não sei em qual mundinho perfeito você vivia, mas… posso te dar um conselho? — questionou Rafael, aproximando-se de Akira. — Todo mundo aqui parece gente boa… mas acredito em mim quando digo que nem todo mundo é o anjinho que parece que é… Esse lance de classificação tá aí pra provar isso… Anarquia elege o mais poderoso e deixa os “fracos” na puta que pariu… E não é nada não, mas o Lucas tá no topo dessa anarquia… então, se quer um conselho mesmo, toma cuidado com quem anda…

O que… ele fez para tá no… “topo”?

— Ninguém sabe… — respondeu Luis, retirando a touco de Matheus e a colocando em si. — Por isso que a gente estranha ele… É como 'cê disse, né? O cara parece gente boa, mas tá no topo… Ou ele trapaceou, ou tá escondendo algo… e eu voto na segunda opção…

Isso… não tá descendo legal…

— Claro que não tá! Irmão, todo mundo aqui já passou por isso, a gente sabe muito bem como é esse lance… desce igual aquela pinga de Mazzaropi…

— Do jeito que vocês falam parece que estão aqui há tanto tempo… Vocês são de qual ano?

— A gente tá no primeiro ano… — respondeu Matheus, jogando a cabeça de Luis para o lado e se levantando em direção à televisão.

— Meus travesseiros improvisados, não!

… Mas só porque a gente quer…

— Vocês… são novos aqui também? Não lembro de ter visto vocês naquele ônibus.

Tchan… Que nada… a gente é da velha guarda… — respondeu Luis, também se levantando do sofá. — O Lucas também inclusive… Não sei o que ele disse pra ti, mas… ele não chegou esse ano… mas nem por um caralho.

— Ele reprovou?

— Bem… digamos que sim… — argumenta Rafael, “roubando” o lugar de Matheus e Luis. — Aqui as coisas são um pouquinho diferente do habitual… Se comporte e 'cê passa de boa; mas se você fizer qualquer coisa que faça os supervisores acharem que você não tá aprendendo a ser alguém “normal”… eles te tacam pro primeiro ano de novo.

— Sem contar o “sermão” genérico que a Liz faz… Essa é a única coisa ruim na verdade.

Hehe… pior que é mesmo… Mas assim, o Lucas ia sair ano passado; mas ele se meteu em briga com um cara daqui e voltou tudo pro início… Inclusive, esse é o mesmo motivo pra gente tá aqui também… A briga que citei mais cedo era essa.

Mais uma vez Akira desviou o olhar; o garoto havia começado a ficar ainda mais… assutado sobre aquilo? Bem, era um sentimento diferente; uma confusão mental… ou quem sabe, era somente a ideia de “internato criminal” se espalhando por sua cabeça…

Sem nem poder pensar direito, o jovem teve sua atenção chamada pela televisão sendo ligada novamente; Matheus folheava um antigo porta CD, todavia, desistiu após um tempo… O garoto apenas apertou um dos botões da televisão e o filme que eles estavam assistindo volta a brilhar na tela; “Deve Ter Sido O Vento” tomou conta da televisão por alguns segundos, mas logo sumiu com o apertar de um botão errado… Mais uma vez, a tela ficou sem nada.

Merda! O que eu fiz?!

Porra, Theus! Já disse pra não ser xereta! Trocou o cabo da televisão…

O cabo? Mas eu nem toquei atrás da televisão… Como pode isso?

Jesus… Esquece, deixa que eu arrumo isso…


“Xereta…”

— Tá… de qualquer forma…

“Se esse lugar é tão ruim assim, como eles estão se divertindo? Como eles estão tão… tranquilos?”

“Xereta…!”

— Hey, Akira… acho que você deveria ir…

“O Lucas… brigou com alguém; ele me disse isso… mas… foi com ele? Por quê?”

“Xereta!”

— … eles podem achar estranho, então…

“Isso… tá errado… Não pode ser real… Qual é, tava tudo tão tranquilo…”

“Xereta!!!”

— Akira…? Tá me ouvindo, meu bom?

“Não… Do que eu tô falando? Não… tá tudo bem… primeiro aquele cara, agora isso… Tá tudo tão… confuso… Tsk… que droga! Afinal de contas, o que ele quis dizer com…”

“Vê se não se esquece da própria vida, XERETA!!!”

— AKIRA!


Com um choque de realidade, Akira voltou de um “transe”… Não da forma mais saudável, é claro.

Pensar demais naquilo e naquele momento não seria a melhor escolha, e isso era obvio não só para Akira; Rafael também sabia disso, de uma forma muito específica inclusive… O rapaz colocou a mão sobre os ombros de Akira, e com um sorriso simpático no seu rosto…

— Tá loucão…? Olha, acho melhor você voltar camarada… Os outro' vão achar estranho se você não voltar logo… E acho que não tem tanto mais o que dizer, né? Mas ó, segue o conselho… Só vive; deixa o vento te levar até onde der e pronto… Escolhe o lado que te deixar mais confortável e só vai… Independente de qual seja, acho que 'cê sabe se virar… Você me parece boa pinta, mesmo… Se quiser colar aqui caso alguma treta aconteça, tá tranquilaço… Pode colar sempre aqui pra reabastecer o tanque, beleza?

— Eu… vou pensar nisso… Obrigado, eu acho… — respondeu Akira levantando-se. — Eu também preciso esfriar um pouco a cabeça, isso tudo me deixou um pouco zonzo…

Vixi… se cuida aí então… Vai na paz, irmão.

Obrigado…

Sem falar mais nada, Akira se virou e começou a caminhar em direção à porta… Passo a passo ele se aproxima; centímetro por centímetro sua mão fica perto da maçaneta, mas… o jovem ainda tinha o quer fazer; tinha o que querer; porém… Rafael estava certo, sua simples presença naquele andar já era algo incomum e problemático… Akira precisava sair; ele sabia disso, mas… ele também não podia sair do jeito que estava… e por quê? Bem… digamos que sua avó lhe ensinou bem.

O jovem apenas segurou na maçaneta da porta, e antes de puxá-la, se virou um pouco e…

Ah, mais uma coisa… Rafael, olha… obrigado por tudo… Espero que a gente não fique intrigado por conta desse lance… Você também é alguém muito legal, e eu não ia gostar de brigar com alguém por uma idiotice como essa, sabe? Só… fica bem; você… Vocês são muito legais.

— Owt… que isso, truta… De nada, patrão! Tamo aqui pra qualquer coisa! — agradeceu Rafael, dando um joinha com a mão. — Fica suave que ninguém dessas bandas te achou babaca… Até agora; é só não amarela com a gente que fica tudo tranquilo…

— Ah, caralho… Agora não sei mais aonde a gente tava…

— … Só vai lá de boas, preocupa com nada não…

— Coloca do começo então, pelo menos vamo' ouvir Guns 'N' Roses de novo…

— … Te acompanharia até a escada, mas esses dois aqui não sabem usar uma televisão, então… né? Hehe… Valeu irmão, também agradeço, mesmo… Principalmente pelo que 'cê fez por mim hoje…

Hehe… Obrigado… A gente se vê depois então… Até…

Vai com Deus, parça…

“WELCOME. TO THE JUNGLE!”

— TÁ PORRA, TÁ ALTO! ABAIXA!

— QUAL O BOTÃO?!


Enfim, Akira sai…

O lugar continuava da mesma forma; com a mesma barulheira e mesma atmosfera morta-viva… O garoto logo começou caminhar pelo corredor, desta vez olhando um pouco para o lugar; vislumbrando um pouco daquela “realidade paralela”… A maioria das portas estavam abertas; pessoas iam de um quarto para outro como se privacidade não existisse… e de alguma forma ninguém ali parecia ligar muito para isso… Todos falavam alto; diziam o que for independente do que se tratava… De alguma forma, aquele amontoado de pessoas parecia uma grande família vivendo na mesma casa; era até impossível para Akira não notar aquela “sintonia não harmônica”; o jovem apenas aproveitou o que tinha para aproveitar… Andou e, enquanto isso, apenas ficou ouvindo e vendo todos ao seu redor; desta vez com o mínimo de atenção… já que… vai que ele volta para este lugar alguma hora, certo?

— … Ed… tá com meu pente?

— … Karl, passa a tarefa de geografia aí!

— … Ge-gente, alguém viu meu lápis? Sumiu do meu estojo…

— O Arthur deve ter pegado, Alan! Pergunta pra…

— Eu nada! Tá com o Tord!

— Gente… mas… eu não deixei…

— Tão atrás daquele lápis que peguei? Poh, quebrou… Botei muita força na hora de fazer a planta pro cinema, gente! Mas deu certo no final de tudo…!

— Ah, cara… meu lápis…


Ehn… no fim era o que o jovem esperava; caos e um pouco de todo o resto…

Cof, cof… Akira continuou observando todos ali até chegar nas escadas; foram poucos passos e ele se viu já no segundo andar… Parecia até que a subida foi mais difícil por pura brincadeira do destino…

O jovem foi andando e pensando sobre o lugar; descontrair depois daquilo não ia ser fácil, mas já era um começo…

“Eles estão tão felizes… Esse lugar tá um caco, mas eles continuam só… vivendo? Isso não entra na minha cabeça ainda… Isso… é estranho… quer dizer, eles reclamam disso tudo… pelo menos a Luna deve reclamar… Já o Rafael… parece que ele tá bem de boa com isso… Bizarro.”

Akira relaxava enquanto andava, ele esticava um pouco os braços e ajeitava sua postura; não era o melhor lugar para aquilo, mas para quem já estava agindo no automático, era bom poder relaxar um pouco.

“… Se bem que… nada aqui parece o que é mesmo… Talvez o que eles disseram possa ser verdade, mas ainda assim… eu tô confuso… A única pessoa que parece tá aqui por fazer algo de errado sou eu… Por que ninguém fala sobre o que fez? Só o Alex me disse por que tá aqui… Qualé…”

O jovens foi andando, sempre fazendo algo além disso; seja somente pensar ou até estalar os dedos… Akira ainda estava um pouco ansioso, e ele buscava qualquer coisa banal para se distrair; o mesmo também já estava agindo no automático, e já havia até esquecido que ainda havia pessoas em seus quartos ou até mesmo nos corredores… Mas… quem liga para isso, certo? Não havia ninguém no segundo andar que Akira conhecesse de qualquer forma… né?

“… Cara, se esse lance do Lucas ser problemático for verdade… eu deveria conversar com ele talvez… ou pelo menos tentar; não sei como ele lidaria com isso… Chega até dar calafrio só de pensar… Espero que tudo isso seja só uma rixa boba…”

Sem nem notar, Akira já estava descendo as escadas para o primeiro andar; junto a isso, sua mente continuava incessantemente a pensar… O que era apenas algo para descontrair e relaxar, já estava voltando a ser uma preocupação para o jovem…

“O que… será que ele fez? Eu não consigo imagina aquele cara fazendo algo tão… grotesco… Acho que só vendo mesmo pra acreditar… Qual é… o Lucas não tem cara de ter feito algo tão grave, tipo… o próprio Alex é mais ameaçador que ele… Se bem que qualquer pessoa é mais ameaçadora que ele… O Lucas não dá medo; até a Emily é mais assustadora…”

Akira anda; passo a passo o som de pessoas dançando e conversando retornava aos seus ouvidos… O coração do jovem vibrava no ritmo acelerado das batidas; sua mente tentava acompanhar esse mesmo ritmo com diversos pensamentos intrusivos, porém, esses mesmos pensamentos lutavam entre si e entre a música, que já estava em outro patamar naquele momento…

Quando finalmente se viu cara a cara com a entrada da festa, Akira teve um pensamento; ele não era intrusivo, na verdade, era como se fosse instintivo… Algo simples? Talvez; era simples, mas… para a cabeça do garoto, que havia deixado este pensamento preso por um tempo, era algo extrema e estranhamente tenebroso…

Em sua cabeça, só veio aquela doce voz; aquela voz que lhe acalmou quando ele precisava… Porém, estranhamente, aquela voz não era de sua avó…

“Eu… deveria ter ouvido o Elliot; eu acho que… Se bem que, ele é mais um que não me falou o motivo de estar aqui… Tsk… droga… Deus… em quem eu devo confiar?*”


BADUNF!

E lá estava ele de novo, em meio a diversas pessoas dançando e sorrindo como se a briga de mais cedo não existisse…

“Parando pra pensar… por que ninguém aqui parece ter feito algo no fim das contas? Por que as aulas são… normais mesmo? Isso… não é apenas um ensino médio comum?”

Hipocrisia, talvez?

“Eu… tô confuso agora… Foi um mês tão normal, tão… sem nada; eu nem se quer me sinto diferente em algum aspecto para ser sincero… Isso… foi só euforia minha?”

Claro, por que não? A noite ia ser inesquecível, lembra?

“Aqui… deve ter alguém que matou uma pessoa, ou pelo menos tentou, então… não era para… Pera, tem câmeras de segurança nesse lugar…?”

Algo me diz que não; algo também lhe diz que não.

“Eu… tô com saudade de casa agora… Não seria tão ruim ver o papai me xingando por tá aqui… É só que… isso me deixou com… medo.”

Não era para isso ter surgido um pouco mais cedo?

“É… provavelmente era… Eu devo ter ficado cego por um tempo, mas… por hora acho que vou só ignorar isso mesmo…”

Certeza?

“Definitivamente… não, mas é o melhor que possa fazer…”

Enfim uma verdade…


Akira continuou andando; naquele momento, mais uma vez seu mundo se tornou aquela escuridão silenciosa aonde só ele poderia se ouvir… mas isso não duraria tanto tempo desta vez… Assim como mais cedo, a linha de raciocínio de Akira é cortada repentinamente sem aviso prévio… O que chamou a atenção dele dessa vez? Bem, nada tão… complicado como tudo até agora… Akira vê ao longe Lucas e Emily, dançando enquanto provavelmente riam sobre alguma coisa; o jovem, sem ter muito a fazer, e querendo “esfriar um pouco a cabeça”, decide ir em direção ao casal…

“E-esquece… Eu penso nisso depois, e-eu tô aqui pra me divertir, né? Não pensa nisso, Akira… Apenas segue a festa; o que for pra rolar, rolou… Eu não tenho mais volta no final das contas…”

Akira andou um pouquinho, e antes mesmo do jovem chegar perto o suficiente do casal, Lucas o percebeu; e com um sorriso descomunal — para quem se meteu em confusão mais cedo — junto a uma espécie de evasão sobre sua dança com Emily, o garoto gritou…

AKIRA!

EI! Vai me deixar mesmo? Hehe… Bobo… Pera aí!

O casal se aproximou de Akira; ambos com uma cara bem alegre… Lucas estava claramente preocupado com Akira; Emily estava claramente exausta por qualquer que seja a razão… A jovem vivia com energia para dar e vender, então aquilo era algo meio… “novo”.

Ainda assim, a cabeça de Akira já estava bastante sobrecarregada, e o mesmo também sentia que aquilo hora o outra entraria na conversa que estava preste a acontecer…

— Eae?! O que ele disse para você? — questionou Lucas com uma intonação meio debochada ao se aproximar. — Não me diz que ele inventou alguma asneira de mim?

— Ele, eehh… não nada de mais… Ele só… falou umas asneiras, tipo… foi tão mentirada que nem deu pra acreditar, sabe? Hehe… Eheh…

Ah, hã! Eu sabia!

Poisé, né? Mancada do cara… Mas, na real… Só esquece isso; eles não disseram nada com o que você deva se preocupar… Além disso, eu não tô com saco pra falar sobre o que ouvi lá…

? aonde? — indagou Emily.

Oh, Deus… Eu… fui pro terceiro andar… No final de tudo me levaram pra lá por… sei lá qual razão direito… Eles disseram algumas coisas e… eehh… só.

— Terceiro andar…? Qual é… Vem cá, que eles disseram de mim para você? Aquela galera de lá é mó pé na areia… Nunca aceita minha ajuda… Além disso, são escrotos comigo; parace até que não sabem como as coisas funcionam por aqui…

— Hey, parou!

Emily, você sabe que isso é verdade… Foda-se… O que eles disseram de qualquer forma?

— De novo… nada com o que você deva se preocupar… Eles falaram uns trecos sobre briga, mas… eu quero acreditar que tudo aquilo foi só invenção deles… Essa noite tá um caos… te contar, hein?

— Tzs, tsah! Se isso foi mentira?! Com certeza foi…! Eles vivem me acusando de um monte de coisa… Porra! Eu tenho cara de quem faz algo de errado? — contestou, dando um sorriso um pouco mais forçado do que o normal.

Olha, com esse sorriso até que parece sim… um pouco…

Perdão?!

Desculpa… Relaxa, era piada… Mas… olha, chega de falar sobre isso, okay? Minha cabeça tá pipocando de dor só de pensar nesses assuntos… Então, bora falar sobre… eehh… hoje mais cedo? Lucas, você tá melhor? Eu… fiquei meio confuso sobre como você tava antes deu sair… principalmente sobre…

— Se eu tô melhor? Haha! Eu nunca estive tão bem como estou agora! Foi só passar um tempinho perto desse anjinho aqui e eu voltei aos trilhos a todo vapor! Se é que me entende… Hehe… — exclamou Lucas, dando algumas cotoveladas de leve em Emily, que logo ficou um pouquinho vermelha…

Oh…! O-obrigada…! Hihi… Eu tenho meu jeitinho de alegrar o astral de qualquer um!

É… tô vendo… Muita coisa rolou enquanto eu estive fora, pelo visto… Vem cá, e o Alex? Eu meio que trombei com a Luna, mas… nada dele… Aconteceu algo que eu deva…

— OH?! O Alex?! — exclamou a jovem, surpresa e animada com a pergunta de Akira. — Ele tá… ótimo! Bem… na verdade, eu fiz a coisa certa de ter ido checar como aqueles dois estavam… E… Tadã~! — Emilly puxa um pequeno celular de… algum lugar dentro de seu vestido…? De qualquer forma; a garota puxa apenas um celular e mostra a tela do mesmo para Akira; nela, uma foto um tanto quanto borrada do que parece ser Alex e Luna dançando juntos surpreende Akira instantâneamente.

Isso… é o Alex e a Luna? Tá difícil de entender para falar a verdade…

— Hey! Foi difícil tirar isso… tá bom? Eu tive que me espremer por lugares inimagináveis para tirar ela…

— Ahnz… nem me diga; disso eu não duvido…

— … Além disso, eu esqueci de tirar o flash na hora de tirar a foto, então meio que… eles viram… Hehe… — com sua fala, a garota guarda o celular… de alguma forma… — Os dois vieram com um bafafá pra cima de mim… mas no fim a Luna foi checar o grito do Lucas, e o Alex foi embora zangado… Pelo menos eu ainda tenho a foto…! Borrada? Sim, mas tenho ela!

— Hm… saquei… Agora faz sentido o jeito que ela agiu quando eu questionei… Mas, okay, e vocês dois? Ficaram fazendo o quê?

— Fiz o que você disse… Eu me diverti com minha querida! — respondeu o loiro, pondo seu braço através do pescoço de Emily, e puxando-a um pouco para perto.

Calma aí! Tá apertando… Hehe… A gente só ficou juntinhos mesmo… Dançamos por um tempo até… Cof, cof… Pode soltar? — contestou Emily olhando para Lucas, que logo obedece o pedido da garota. — Cof, cof… A gente dançou por um tempo e… só isso… Hehe… eheh…

Emy, você, e nem o Lucas, sabe mentir… Vai, me diz, aconteceu algo entre vocês dois?

Que nada… Só o meu charme que andou atiçando a senhorita bonitinha aqui… Nada além disso!

Hunf…! Olha quem diz, né? É o senhorio bonitinho aqui que anda mais soltinho!

Eu ando soltinho? Não fui eu que tropeçou quando eu sugeri para irmos…

Bonk!

Shiu! A gente não fala disso!

Awt! Qual é? Você sabe que era piada… Hehe… mas só se você quiser; por mim eu vou até onde precisar com você.

Ah, qual foi! Vocês vão me deixar curioso ou falar de uma vez?! O que rolou entre vocês dois em enquanto eu estive fora?! — contestou Akira, se intrometendo na “briga” casal…

— Nada! É sério, não rolou nada! A gente só… teve momentos de casal em festa! Nada mais… Foi só dança; suco e risadas; histórias bobas e… a gente sendo grudentos como sempre!

Akira respirou fundo; a situação saiu pela culatra de formas que ele não imaginava… Isso não era ruim, ao menos em sua mente; o garoto apenas via e recebia todas essas informações banais de forma calma… Bem, na verdade, “calma” não seria a melhor palavra parar definir isso, mas sem dúvidas era a única que se encaixava com o que o rapaz estava tentando emitir.

Aqueles dois em sua frente pareciam, mesmo que minimamente, estar mentindo sobre tudo e sobre nada… Era contraditório; algo acontecera, isso ele tinha certeza, mas essa certeza ia se desintegrado a cada segundo que ele passava apenas observando o casal… Essa havia sido uma noite difícil, definitivamente… ainda assim, isso não poderia só continua assim… afinal de tudo, pelo menos uma vez Akira gostaria de estar no “controle” de sua vida… Com isso, o jovem arrumou sua postura, fazendo algo até parecido com o seu pai, e então…

— Beleza, eu tô exausto… na verdade eu aposto que até vocês estão… Tá todo mundo no mesmo barco, né?

Nhe… no fim das contas estamos na mesma…

— É… mas ignorando tudo que rolou até agora… como tá indo à noite de vocês?

— Nossa noite? Bem… se for considerar só as coisas boas… ela tá ótima! — respondeu Emily.

— É! A festa tá mó barato! Tipo… nada de tãaaoo ruim aconteceu… No máximo só aquele lance com Rafael e… uuhhnn… o suco com um garotinho ruim…

Gosto ruim…? Tipo… algum inseto caiu dentro ou algo do tipo?

— _Nah… tô falando só do suco mesmo, nada de inseto ou algo do tipo… Só sei lá, aquele treco desceu rasgando minha garganta… Foi maluco, mas tava uma delícia!

Cacete, é muita coisa ao mesmo tempo… Mas pelo menos se divertiram, né? Ai, ai… Acabou que eu nem consegui aproveitar muito a festa…

— Hey! A festa não acabou ainda, viu? Vem cá… gostaria que eu fosse atrás de alguém pra você dançar? — sugeriu Emily, um pouco mais animada.

— Nah… tô de boas… Acho que… só ficar conversando com vocês já tá bom pra mim… Eu não preciso de tanta coisa pra ficar feliz…

Isso… foi bem depressivo… Quer um abraço?

— Ptz… Pior, né? Hehe… Não foi a minha intenção! Cof, cof… Que tal a gente pegar algo pra comer? Desde que cheguei aqui eu só bebi… Tô morrendo de fome!

E você ainda falou de mim, né? Passou mó conta de picuinha, mas fez o mesmo que eu, né?

Esqueceu que tenho espírito de mãe e vó? E mais, pelo menos eu não dei um grito maior que duas caixas de som no maximo, tá?

Ah! Vai ficar de indireta agora, Sr. Responsabildade?

Pelo contrario, cabeça oca, eu fui bem direto mesmo… Sua garganta deve ter rasgado por conta daquele grito, não pelo suco, bobão…

Tsz…Tá… você me pegou nessa… Vamo' nessa então! O que vocês querem comer?

Uh, uh! Já experimentaram o bolo que eu e a Marta fizemos? Tem morango… chantily e um cadinho de chocolate! Agora que vocês falaram em comida, me deu uma baita vontade de comer ele!

— Deu até vontade de ser esse bolo agora…

Esse bolo não tinha explodido? Eu pensei que…. Pera, o que você disse, Lucas?

Tick, tack, tick, tack…

Ah, sim… Mais uma vez, o tempo voou; Akira aproveitou esse resto da noite e apenas… viveu como nunca… Ele, junto ao casal, comeram o restante dos farelos do bolo que havia sobrado; além disso, o trio se divertiu como supostamente era para ter sido desdo começo… Naquele ponto da noite, já restava pouco tempo… O tempo voou, se apagou rápido, e ainda que alguns pensamentos sobre tudo que Akira ouviu continuassem na sua cabeça, o jovem ignorou; a sua noite não foi boa, mas ele queria acreditar o contrário… Naquele momento, ele só queria aproveitar um pouco o tempo que havia perdido por tudo que aconteceu, e era isso que ele estava fazendo com todo o esforço que ainda o restava.

Akira, Lucas e Emily conversaram sobre tudo possivel; comeram e beberam tudo que podiam; se divertiram em grupo como deveria ter sido desdo começo… Lucas havia voltado ao seu “normal”; o garoto estava animado — até demais—, estava um pouco mais solto; piadas ácidas começaram a aparecer com mais frequência; um linguajar que gradualmente ia ficando mais chulo, e, para aumentar ainda mais este repertorio de mudanças, estava começando ficar cada fez mais grudento com Emily… Bem, na verdade, isso era apenas o que parecia; ele expressava mais ânimo, mais vontade de fazer e falar algumas coisas… parecia até mesmo outra pessoa… mas era ele ali; Lucas, no fim de tudo, parecia ser a pessoa que mais estava aproveitando a festa… e, de certa forma, também a única…

Emily, por sua vez, também estava mais animada; ainda assim, nada tirava a ideia de que algo teria acontecido com ela da cabeça de Akira…

No final das contas, por que ligar? Se Lucas não estava preocupado, por que Akira deveria estar? Ele não era responsável por nada mais… naquele ponto da noite, Lucas já havia voltado ao seu posto de “chefe” da festa… Já não importava mais de qualquer forma.


O tempo foi passando devagar; milhões de temas de conversas e músicas acompanharam este mesmo ritmo… Depois de muita bagunça, o trio finalmente se acalmou… Arrumaram uma mesa qualquer e se sentaram; e para não ficar em um silêncio em meio a toda aquela bagunça, apenas começaram a conversar sobre qualquer coisa que vinha a mente…

Liz… A festa… Alex… quem sabe até mesmo o jeitinho de Lucas…

O grupo ria sobre tudo; falava sobre qualquer coisa como se não se importassem… Em meio a tantas piadas e assuntos diversos, enfim, aquele tempo se esvaiu…

Bown..… Me deu soninho agora… Que horas são, hein? — indagou Emily, pegando seu celular. — Deus… já são onze horas? O tempo passou voando…

Desamina não! A festa termina só às doze horas… A gente tem tempo ainda… — falou Lucas.

— Eu sei… mas é que… Uuaaahh… Acho que uma sonequinha agora seria de bom agrado… Minha energia não é tão forte quanta a sua…

— Emy, vamos lá! Dá pra gente fazer muita coisa ainda, tipo…

— Olha… melhor dormir no seu quarto do que aqui… O pessoal pode tá meio quieto agora, mas… sabe se lá o que eles iriam aprontar.

— Qualé! Vai meter essa do nada? A gente tem a noite toda ainda para…

— Eehh… Eu… vou nessa então… Boa noite, meninos! Eu tô só o caco agora…

— Emy… vamos lá! Por que a gente não…

— Boa noite! Vê se toma cuidado na ida… Tá escuro pra um senhor caramba…

— Escuro…? É… Se bem que…

Hehe… Obrigado!

— Ah, há! Tive uma ideia! — exclamou Lucas. — Quer que eu vá com você? Os corredores podem tá meio perigosos essas horas… e você sabe o que quero dizer com isso…

Ai, meu, Deus! Que tipo de perigo, bobalhão? Ninguém é louco de fazer algo…

Não é mesmo… E você também sabe o porquê…. Hehe… Ainda assim! Você quer que eu vá ou quer que um monstro das trevas te capture?

Hihi, bobo! Você só quer vir comigo, né? Tá bom, tá bom… Mas não vai adiantar de nada, okay? Assim que chegar no meu quarto eu vou direto pra cama!

— Eu também tô com sono, tá bom?! E eu não posso deixar minha querida andar por aí sozinha… É perigoso!

— Hehe… Tá bom… Akira, 'cê fica e aproveita o resto da festa pôr a gente, tá legal?

— Não prometo nada… — respondeu o jovem, dando um sorriso debochado para o casal. — Hehe… Beleza, eu só vou ficar mais um tempinho também… Acho que vou só pego mais um suco e vazar depois disso…

Você gostou desse suco, né? Hehe… sei por que… Ficou realmente mais gostoso com aquilo… Um… toque especial~!

Me deixa, Lucas! Não é culpa minha que maracujá é tão bom…

Me deixa surpreso você não tá com sono…

Quem disse que eu não estou?

— _Eu disse!

— Ei, vocês dois! Parou!

Hehe… vão logo antes que os corredores fiquem cheios… Vou pegar meu suco!

— Tá bom então…! Até amanhã, Aki!

Até, Emy… Até, Luc…


Como uma trilha que tem duas saídas, os três se separam mais uma vez nessa noite… Lucas e Emily saem conversado; Akira apenas os observa até sumirem pela porta da cantina… Após isso, o jovem se levanta, respira fundo e…

“Tá acabando…”

Akira se virou; novamente, uma multidão… ou quase… As pessoas haviam saído; a maioria, na verdade… Por conta disso, entrar naquele mar não foi tão difícil dessa vez… Era até que estranho, Akira não teve que se espremer; não sentiu cheiros bizarros vindo de outros alunos e nem ficou ensurdecido com tanto barulho… Mais uma vez, naquele ponto da noite, era só ele e aquela longa noite.

Passo a passo ele foi indo, nada impedia seu caminho, e por conta disso não demorou muito para chegar ao seu destino… e para chegarem até ele…

Akira chegou em uma mesinha já toda bagunçada, pegou, por sorte, o último suco que tinha e quando foi se virar…

Yooo… olha só quem temos aqui! Se não é meu caro A-ki-ra~! Como vai indo a noite?

“Aquela longa noite”…

É, realmente longa… Quem diria que aquela noite inesquecível não havia terminado ainda, não é mesmo? Bem… Akira sabia exatamente quem era a pessoa que o cumprimentou… O susto foi algo grande — quase fez o mesmo derrubar seu suco —, porém, mesmo assustado, o jovem manteve a calma… ou ao menos tentou manter.

— E-a-e? Como foi resolver um probleminha que nem era teu? Legal se meter nessas furadas de vez em quando, né? — zombou o garoto, pondo sua mão no ombro de Akira e se aproximando com tudo. — Inclusive, que conversinha fajuta foi aquela que você teve com o Rafael, viu? Hehe… Se fosse eeeuuu teria perguntado uns trecos diferente… Gostou estamina à toa…

Akira engoliu a seco; se afastou um pouco do garoto, limpou a garganta com um gole de seu suco e… — 'Cê de novo? O que… você quer?

— O que eeuu quero? Ah, nada não! Eu só tô com um pouco de carêêência, sabe? Gosto de atenção… Um pouquinho… Tá, tá… é até que batente pra ser sincero… mas não toda hora, viu? Mas, eae? Como foi lá em cima? Não deu pra ouvir a conversa inteira…

— Foi… você que me espiou pela porta da cantina? — indagou dando mais um gole no suco.

— Nhaw… Respondendo uma pergunta com outra?! Qual é… metendo uma de mim agora? Hehe… Mas… Nop, não fui eu! Nessa hora eu só tava vagabundiando por aí… Mas olha, pra ser justo contigo, eu vi quem foi… E te contar, não é qualquer um não, viu?

Quem foi então?

Ahn, perde a graça se eu falar~! Mas olha… não é ning… Quer dizer, é alguém que você deve se preocupar sim… Com toda certeza, inclusive! Mas olha pelo lado bom… não era eu~!

Akira não estava tão bem para aquele joguinho, e isso era claro pela forma que ele olhava para o garoto; o jovem só queria terminar aquela conversa e, para complementar, tirar qualquer dúvida que ele já teve sobre aquele garoto… então…

Hunf… Aquele lance sobre eu não falar o que você fez… era verdade? Tipo… foi a primeira vez que vi alguém fazendo algo como aquilo… No sentido de… fazer algo que a mandaria pra cá…

Ah? Olha só… você tá realmente metendo uma de mim… Não dá nem tempo pra conversa se desenvolver direito!

Só… responde, por favor…

Aahhnn… tá bom! O lance da ameaça lá? Iihh, caramba, devo ter te deixei com o cu na mão, né, não? Haha! Que nada, cara! Era só uma lanterna… Se liga… Badunf! Sabre de luz portátil! Fuen, fuen~

Akira fechou a cara; ele ficou perplexo ao ver uma mísera lanterna velha sair de dentro do casaco do garoto… Mais uma vez, ele respirou fundo, tentando manter uma postura adequada, e…

— Porra! Não se faz brincadeira desse tipo, tá bom?! Você sabe por quanto tempo eu fiquei pensando sobre isso?!

Ptzzz… HAHAHA! Por isso que eu fiz a piada… Mas aí… Não leva pro pessoal não, viu?

— Você é estranho, sabia?! Não se brinca com esse tipo de coisa…

— Aawwtt! Isso é um elogio pra mim… Porém, acredita em mim quando digo que tem gente mais estranha aqui… Você é um bom exemplo! “Foi a primeira vez que vi alguém fazendo algo como aquilo”? Conta outra!

— Eu sou estranho? Por quê?! Desculpa, mas… pelo menos eu não saio por aí ameaçando os outros com uma “arma” de mentira…

Hehe… Bom ponto! Mas… por que não ser estranho? Qualé… já viu aonde você tá? Já viu com quem você anda? Só tem gente maluca aqui, irmão! Você olha pro lado vê um cara que degolou a família com uma faca de açougue… olha pro outro e vê uma mina viciada em qualquer substância tóxica… Ah! Sem contar as inemuras pessoas que já vinharem por abuso algo parecido… Quer mais exemplos, ou…

— Tá, tá bom! Eu sei aonde tô, tá legal…? Embora… nada aqui pareça ser ameaçador ou perigoso, eu tenho noção aonde eu tô.

Hehe… Noção? Ah… sim… Noção… Com toda certeza você tem noção…

De uma hora para outra, o garoto perdeu o seu sorriso de deboche, tornando-o em algo mais simples; ficou apenas com uma cara de pacho… Ainda com um sorriso forçado — que já estava beirando o sadismo—, o garoto se afastou um pouco de Akira e começou a mexer em seu casaco… Novamente, um som metálico pode ser ouvido; nisso, um pequeno esqueiro e um cigarro amassado surgem de dentro do casaco; e sem demorar, o garoto já estava fumando mais uma vez…

Unf… Que nada, a única noção que você deveria ter é que… Nada é o que parece… Acho mesmo que tem anjinho nesse lugar? Unf… Acha mesmo que ele é um anjinho?

Você não é o primeiro que diz algo desse tipo hoje… O que você quer dizer com isso? E… da pra parar de fumar?

— Olha, meu caro Aki… é como eu disse mais cedo: se eu te contasse ia perder a graça… Mas, pra ser sincero, você já tem a respostas em suas mãos… Ligue os pontos, vai! Brinca um pouquinho de detetive e você vai entender.

Deus…! Nem vem com essa… Olha, escuta aqui… Nada, ficar de…

— Não.

O que?

— Akira, quem você pensa que é pra falar algo de mim? Ainda mais pra me dar carão… Você não sabe de nada… E vai ficar assim até quando ver com seus próprios olhos.

Você…

— Não, agora é eu que tô falando… Acha que é o que? Um protagonista ou algo assim? Deus… que novidade! Mais alguém de cabelinho claro querendo mandar em mim… mas adivinha só? Não vai funcionar… Nesse lugar não existe protagonista; você é só mais um nessa merda buscando a maldita redenção…

Eu não… Qualé, vai meter uma dessa agora? Escuta, por acaso você pelo quem eu realmente sou? Você apareceu do nada e se acha no dever de…

— Akira Kurayami, dezesseis anos, mandando para cá por espancar um filho de oficial da lei em Frostfall, filhinho de papai que veio do japão por conta de emprego claramente falso do teu velho, perdeu a avozinha querida no primeiro mês aqui… Quer ouvir mais? No máximo, você é um Ember na escala daqui… Espera só quando ele surtar, quando ele falar merda e você tentar agir… Você não pode fazer nada, nada, e vai continuar assim até quando você sair daqui… Você não vai mudar; nada vai… Acho que a única coisa boa disso tudo é que o Lucas vai ter alguém pra atormentar… isso vai ser divertido de ver… Hehe… enfim, um espetáculo!

Hey! O que você… Como você sabe disso? Eu…

Cadelinha… Te conta que ele te adestrou legal… Vamos lá, você já viu ele fazendo merda… hoje mesmo… Quem você pensa que batizou aquela bebida? Aqueles caras…? O Lucas? Ou eu? Vai, diz… Você viu ele sendo racista com o Rafael… espera só pra ele descobrir seu interessezinho por aquele engomadinho de Frostfall… Acha mesmo que os preconceitos param por aí? Adivinha de novo? Estamos em Bonfire: o lugar mais preconceituosos da terra! E pra complementar… Akira, quem você acha que sustenta esse preconceito?

Não… Ele não faria isso, eu conheço ele… Por acaso… você é amigo do Rafeal? Não me diz que ele te mandou pra…

— Ele não faria mesmo? Foi um mês, pelo visto… Um único maldito mês… Comigo foi mais tempo, sabia? E ele me enganou direitinho… Agora você… ele não te enganou, ele fez algo pior… Olha aí, a primeira coisa que passou na sua cabeça foi só uma rixa boba entre ele e o Rafa… Hehe… Cadelinha.

O… quê?

Hehe… Hehe… Hehehehe! Poxa vida! Você é lerdo, né? Deus… quer saber o que ele fez?! Hein…?! Ele te usou… do jeitinho certo; como ele queria… Mas agora que você sabe sobre o Rafael, ele vai te descartar como mais um… Como eu… **Akira, você nunca vai conhecer alguém de verdade nessa escola; nunca vai conhecer ele de verdade em apenas um mês; nunca vai entender nada nesse Inferno Em Forma De Uma Escola.


O jovem apagou o cigarro com tudo na própria mão, como se não ligasse para nada além do que estava sendo discutido; logo após isso, de forma bruscas e arrogante, ele se virou e começou a andar para longe dali… porém, assim como antes, o garoto parou depois de um tempo e apenas se virou…

Nada de sorriso sádico; nada de sorriso; nada da deboche… Era apenas ele; era apenas Nada.

— Ah, você que um conselho de amigo? A festa já tá acabando… então melhor você ir pro seu quarto, afinal… da última vez que ele ficou sozinho com alguém não acabou tão bem quanto eu esperava… isso sem contar que álcool já deve tá fazendo efeito naquele desgraçado… Sabe se lá o que ele pode fazer bêbado, né? Estão… se cuida Akira, boa noite!

— … Hunf… Obrigado.

O garoto riu do agradecimento espontâneo de Akira; depois disso, apenas voltou a andar até saída do lugar… Logo o mesmo já não era visto; logo a escuridão e solidão rondava Akira… É… querendo ou não, já era hora de voltar.

Akira não entendeu o que ele quis dizer; não, para ser sincera, Akira não atendeu nada do que o garoto quis dizer com essa conversa inteira…

Ainda que ela tenha sido desconfortável, Akira sentia que… aquilo era algo estranhamente óbvio, mas que ele não queria entender…

O Lucas? Errado? Isso… era único; algo que não entrava de fora alguma na mente do menino… Além do mais, “quem você acha que batizou aquela bebida?”… não é mesmo? Isso… não queria sair da mente dele agora… Nada queria sair da cabeça dele agora.

Não! Esquece isso… é melhor eu ir logo… eu já to cansado disso tudo… chega… chega! Deu… deu pra mim… Já deu!

Claro, claro… você que manda… O que é negar mais um de vários fatos? O que é mentir mais um pouco para… continuar? Cof, cof… Com um gole rápido e decisivo, Akira termina seu suco; assim como ele mesmo propôs mais cedo, logo começou dali… E bem, enfim quela noite finalmente estava chegando ao seu fim…

Certo…?

— Cacete, meno… O guri saiu e a gente nem falou com ele… eu bem que avisei… Mas… ah, quem liga… Ou, bando de malucos… querem limpar esse lugar? A Marta vira uma Morta se ela for limpar isso sozinha… Bora ao menos fazer alguma coisa boa hoje…

Deus… se ele tivesse esperado só mais um pouco, Mark poderia ter ajudado… e aquela noite não seria mais eterna…


Sem volta… não havia mais nada no caminho do garoto; era ele, a noite, os corredores e seu próprio subconsciente lutando para ficar calmo… Aquele noite foi bizarramente confortável em algumas horas, mas também foi um show de horrores para o jovem Akira…

Tantas falácias; tantas descobertas…

O jovem caminhou por aquele corredor mórbido; o lugar estava vazio, mesmo depois de tudo… era como se não houvesse festa; como se tudo fosse apenas ilusão… mas não, era verdade… e Akira sabia disso melhor do que ninguém.

As luzes haviam voltado ao estado inicial; no caso, elas estavam apagadas, provavelmente queimadas… Mesmo com a fortuna que Liz gastou nelas, elas não duraram tempo o suficiente para melhorar aquela noite…

Passo a passo Akira foi se aproximando de seu quarto… As várias portas ao seu redor eram a única companhia que ele tinha… s
Seu quarto era um dos primeiros, então o jovem passaria por cada porta… uma por uma, ele não tinha escolha a não ser caminhar por ali lentamente…


Sei que não é preferencial fazer isso, mas… Pequenino, agora, falando de mim para você… Por acaso se lembra da tão famigerado “noite inesquecível”? Bem… embora possa parecer que ela estava acabando, eu gosto de dizer que… ela só havia começado…

Faísca não acende fogueira, porém, em raros casos, pode iniciar uma queimada em uma floresta…


Step, step, step… Quarto N°20…

“Deus… no fim eu continuo da mesma forma… Que noite terrível… Eu… só quero dormir…”

Step, step, step… Quarto N°19…

“Pelo menos a noite não foi uma desgraça total… ela até que teve seus altos, né? Eu… curti um pouco… Só queria poder pensar mais nessas coisas boas do que nas ruins.”

— … Qual é? A noite não foi tão ruim… ela teve seus altos!

— Hehe… É, não foi… Eu tô feliz com hoje… A gente se divertiu… como casal… Hihi…

Step, step, step… Quarto N°18…

“Acho que não era pra eu tá tão surpreso com tudo isso para ser sincero… Será que Alex tá acordado? Seria legal falar sobre aquele cara com ele… Ele não tinha uma arma no final das contas, né? Eu… tô seguro em falar sobre ele pra alguém agora…”

— … Como um casal, né…? Inclusive… quando que 'cê acha que a gente deveria dar o primeiro passo?

— Hã? Como assim “primeiro passo”? O que você quer dizer?

— Você sabe… Sobre nosso relacionamento… A gente deveria ir um pouco além depois de um tempo, não acha? Seria… bom… pra nós dois, é claro…

Step, step, step… Quarto N°17…

“Pelo menos tenho algo com que possa conversar… Se alguém me perguntar algo, eu posso dizer… 'zuaram da minha cara me ameaçando' ou algo assim… É difícil de engolir tudo isso de um vez só, mas… Droga, eu não sei mesmo como lidar com isso… Aquele cara acha mesmo que…”

— … E-eu não sei… Depende do que você quer dizer com isso… Eu amaria fazer o que for, mas…

— Qual é…? Eu sei que você também quer… Que tal a gente só aproveitar o momento? Só… se deixar levar…? Não tem ninguém mais aqui… A gente pode só… experimentar! Que tal…? Vai ser divertido, eu juro!

— Pera, o quê?! Isso… parece meio íntimo demais ainda… Lucas, as coisas são com calma, e não…

— Relaxa… Eu não quero fazer nada que te deixe mal… Só quero que possamos ficar mais próximos… Emy, quando foi a última vez que você me beijou na boca? Nunca! Mesmo junto, parece tão… artificial, sabe? A gente pode… só tentar…

— Hhmm… Eu… não sei…não me sinto tão bem pensando nisso…

Step, step, step… Step! Quarto N°16

“Espera, mas… que porra é essa?”


Quarto de número dezesseis… Um quarto normal para o padrão daquele corredor; isso se ele não fosse o quarto onde uma conversar estranha estava acontecendo… Mas não era só isso… tinha algo mais; além disso, esse também era um quarto que Akira já havia ido… o jovem já conhecia bem esse quarto, e ele também… achava que conhecia que vem o dono dele…

Aquele era o quarto de Lucas… e havia algo de muito errado alí…

Vamo' lá! Se anima um pouco… Não seria legal a gente poder experimentar algo novo juntos? Ou… você só não quer fazer algo assim comigo…?

N-não! Não é isso… É que… foi só um mês… isso não me parece certo, sabe? Parece algo… forçado…

Eu não quero te forçar a nada… juro! A gente poderia ir só até onde você quisesse, não precisa ser algo… carnal ou algo desse tipo! Eu só quero ficar mais próximo de você… eu sempre quis… E sempre vou querer… É tudo por você… juro.

Isso tá… me assustando pouco…

Tá bom, tá bom! Parei… Vamo com calma, tá? Não precisa fazer nada que não queira… Aqui, me dá sua mão…

Embora aquilo tenha sido do nada, Akira tentou se calmar e entender o que estava acontecendo alí… A voz masculina era claramente de Lucas; afinal, aquele era o quarto dele… já a feminina, mesmo abafada, foi revelada como Emily por conta daquele apelido carinhoso…

De cara, não havia motivo para agir; Akira não tinha contexto, não tinha razão ou ideia do que e do por que agir sobre aquilo… afinal, era apenas uma conversa intima de um casal…

Era claro seu maior defeito até então: Akira sempre foi curioso, e dessa vez não seria diferente… Se essa fosse realmente apenas mais uma conversa entre aqueles dois, a sensação perversa que rodou o garoto não existiria, e além disso, o mesmo não estaria pensado tão bruscamente no que fazer.

— _… Olha, eu sei que foi só um mês, mas a gente nem se beijou ainda, né? Entende por que quero fazer isso…? Parece que a gente ainda é só amigos… e isso me mágoa… Poderíamos pelo menos começar a agir como um casal?

A gente nem deu esse pontapé, não é? Quem dera fazer algo mais… Isso não entra na minha cabeça… pelo menos não agora… Para falado a verdade, eu nunca fui boa com esse lance de relacionamento, sempre fui um pouco medrosa…

Por que a gente não começo do início, então? Um beijo… algo que poderia ter acontecido, sabe? Eu… quero sentir você… Quero sentir a minha Emily…

— _Hhmm, eu… te entendo… Acho que sim… A gente precisa disso, no final das contas, né…? Um casal é… uma união.

Exatamente! Viu só? Era disso que eu tava falando!

É… parece uma boa ideia fazer isso agora… Hehe…eheh…

Akira não conseguia manter a sua curiosidade presa, aquilo já não era nem mesmo cabível a ser escondido… O jovem apenas se aproximou um pouco e se escorou na parede ao lado da porta.

Pelo pouco que ouvira, Akira achou aquilo estranho… Embora a conversa parecesse normal, uma pulga atrás de sua orelha gritava que algo aconteceria dentro daquele quarto… Claro que isso poderia ser só paranoia de Akira; passar o dia — ou a noite, como neste caso — ouvindo mal de um alguém em específico mexe com sua cabeça indiretamente… Além que, o próprio Lucas não facilitou nem um pouco nisso… Serio, toda aquele vocabulário sujo; todo o modo que tratou Rafael; todo o modo que respondia às falas de Emily… tudo fez Akira pensa, e por conta disso, fez o mesmo querer a resposta para suas dúvidas; mesmo que ele tivesse que ouvir algo que deveria.

Enfim, embora um silêncio perpetuou no quarto por um momento, não demorou para isso ser interrompido por alguns múrmuros incompreensíveis, e logo após desses sons estranhos…

— … O que achou? Não foi tão ruim assim, né?

Hehe… foi até que bom sim… Eu gostei…

Viu? Não é tão ruim… desse jeito ficamos mais próximos! E poh… me deixa surpreso você não querer fazer isso… Tipo, 'cê vive me enchendo de beijinhos na bochecha! Por que não na boca?! Mal halito? Hehe…

Hihi… Você tava querendo isso mesmo, né? Hehe… Eu só tenho vergonha de fazer isso, eu acho… Não é nada contra esse seu halito de menta, é mais… o pessoal, sabe? Eu também não posso mentir que não ligo para o que os outros dizem… sabe como é, certo? Eu…

Emily… vergonha de quê? Você é perfeita… independente do que esteja falando, fazendo ou até vestindo! Você não precisa ter vergonha de nada… Se alguém falar algo com você, eu vou pessoalmente até ela questionar a razão! Eu sempre vou te apoiar! E… espero que você também me apoie… Eu sei que vai, certo?

— _Ahn… Eu… não sei… Algumas coisas parecem muito pessoal pra mim ainda… Não sei se eu… Não, se a gente tá pronto pra isso… Entendo seu ânimo, mas… a gente pode esperar, tenho certeza que podemos…

Emily… eu sei o que você tá pensando… mas esse é um momento único! Um momento só nosso… Pensa nisso; se a gente não aproveitar ele agora, ele pode nunca mais acontecer! E mais… vou sempre estar pronto para qualquer coisa que você quiser! Não importa o quão louca a ideia for… eu sempre estarei do seu lado…

Ahr… A sua mão… ela…

Emily, você confia em mim, certo? Só relaxa… isso vai ser bom… isso pode ser bom se você confiar em mim, eu juro! A gente não pode perder essa oportunidade… e você sabe disso… Então, por favor…

Mas… eu… Isso parece errado pra mim… Você tem certeza de que…

Shii… Fica calma, eu cuido de você… Tá bom…? Eu não vou te machucar, eu não quero te machucar…

Eu sei que você não quer… mas, Lucas, isso é…

Emily… Pôr a gente… Nos precisamos disso, uma hora ou outra…

— _Ahn, eu sei que sim, mas… não, tá? Não agora… Isso tá me assustando… mesmo…

Serio? Okay… esquece então.

Hey… não fica assim… Eu só não bem pra isso… você sabe disso…

Eu sei, mas também não é fácil tentar uma iniciativa nisso… Qualé, Emily? Quer dizer que… se eu não tivesse dado a ideia do beijo, ele nunca aconteceria?

Não, não é isso…

Mas é o que pareceu…

Novamente, silencio… O quarto ficou quieto; tudo que Akira conseguia imaginar era apenas o que ouvia; uma grande e confusa tentativa… Agora, tentativa de quê? Para falar a verdade, o jovem conseguiu imaginar aquilo de várias formas… Poderia ser algo normal, Akira nunca viu Lucas e Emily tendo uma conversa particular, e isso era obvio o porquê… mas não explicava a estranha sensação que ele sentia… Sua segunda opção, por outro lado, já era algo mais fortificado… tudo por culpa daquele garoto de mais cedo…

Afinal… Lucas estava bêbado? Seu modo de agir mudou completamente desde que ele saíra para pegar seus remédios… Infelizmente, isso era a única coisa que vinha a cabeça do garoto… Ele não poderia fazer nada até agora… Nada havia acontecido, e… não seria incomodo ficar mais um pouco ali, certo?

Bom, naquele ponto, Akira já nem estava pensando sobre as consequências; tudo que importava era o que ele estava ouvindo… Essa poderia ser uma ótima fora de descobrir se tudo que ele ouvir até agora era ou não verdade; tudo que Rafael disse, tudo que Nada disse… esse era o único memento que Akira não pensava naquele, mas sim sobre aquilo.

Talvez fosse apenas um lado que Akira não havia visto ainda… Não, na verdade, era um lado que Akira não havia visto ainda; querendo ou não, alguns pontos batiam perfeitamente sobre o que Rafael e seus amigos haviam dito… Mas, ainda assim, isso era real? Lucas realmente seria uma pessoa assim? Alguém… falso… ao ponto de usar os próprios amigos? Não… Akira não queria acreditar naquilo, de forma alguma ele aceitaria que alguém tão tranquilo quanto Lucas seria alguém tão ruim assim… Ele precisava ver com seu próprios olhos, mesmo que isso custasse sua amizade para sempre…

O coração do jovem batia forte ao mesmo tempo que ele controlava — ou tentava — sua respiração… A cada som diferente que ele ouvia seu coração batia mais forte, independentemente se era ele mesmo ou um simples ranger de madeira…

E mais uma vez, após o silêncio veio a fala…

… O que você acha? Seja sincera.

É estranho, mas… consigo ver a gente nisso.

Serio mesmo?

Hunf… claro que sim… A gente é um casal no final das contas, né? Talvez… possamos fazer isso alguma hora… em algumas semanas ou quem sabe meses… não vai demorar; não posso mentir, eu queria também, mas…

Você queria?

Lucas… essa noite foi uma merda, e você sabe o por que… eu gostei do que passamos hoje, mas… eu não me sinto bem com isso, entende? Hoje não é o dia pra isso, mas… pode ser amanhã; depois de amanhã, que vai saber? Eu… só não quero isso agora, e não sei quando vou querer… Não por que eu imaginei algo assim que eu queria fazer o mais rápido possível, sabe?

Hunf… eu sei… Tá tudo bem, querida… quem sabe amanhã, né?

Sua mão… de novo, ela…

Emily…

Hã?

Eu posso ficar aqui até das doze horas pra esse amanhã chegar logo?

Espera… que? Aahhnn… Hey…!

Dessa vez… não teve silencio.

Akira paralisou; o garoto não esperava isso… mas de alguma ela já estava presidindo que algo como aquilo fosse acontecer… Não foi nada como um ranger de madeira; pisos fortes vindo em direção à porta ou qualquer coisa desse tipo, foi algo pior… Um som molhado tomou conta daquele quarto; um beijo molhado tomou conta daquele quarto… Estaria tudo bem em qualquer outra situação, menos naquela…

Ao invés de ser algo apaixonado, romântico e sincero, aquilo parecia ser forçado; talvez essa ideia fora fortalecida por pensamentos fortes, ou talvez fora pelo medo que Emily reagiu sobre aquilo… a garota claramente não estava esperando isso; era claro pela sua reação alta e por… seus súplicos.

De começo parecia algo normal, mas foi intercalando… Akira imaginava aquela cena aterrorizado, e no momento que ouviu um mísero “não” de Emily sua mente ficou em branco total… Foi a partir dali que Akira não pensou em mais nada… somente ficou em pé onde estava e ouviu aquilo sem conseguir fazer; pensar ou reagir…

Ugh… Lucas, o que você… Hey! Para… para!

Shii… tá tudo bem, relaxa…

Não… não tá! Lucas, isso… machuca… Hey, não!

Shii! Tá tudo bem, eu já disse… Alguém pode ouvir a gente se você ficar falando alto assim…

— _O… quê? Não, Lucas… eu… Não, sai de cima, por favor… Sai de cima!

SHII, FICA QUIETA!

L-Lucas…? O que você tá fazendo…? Por favor… não…

Emy… eu não vou te machuca…

Mas você já…

Calma… não vai acontecer de novo, tá bom? Nada vai te machucar, eu prometo…

M-mas… mas… Sniff, sniff… E-eu não…

**Shii… fica calma… Apenas… aproveita.

Aquilo… não era mais molhado; não era mais um beijo… não era mais casal…

Akira ouviu aquilo com medo… medo de ser o que ele estava pensando; e era isso, era exatamente o que ele estava pensando… Quando o jovem enfim recuperou o controle da própria mente, fez de tudo para entender; dar uma razão para aquilo, mas… não havia uma… Para falar a verdade, Akira perdeu mais tempo do que queria pensando naquilo; por que ele não fez nada? Por qual razão não impediu aquilo? Ora… por medo.

Não era um medo com sentido; não era um medo sem sentido… era algo único; unicamente aterrorizante… O jovem não era fraco, mas… naquele momento, naquele maldito momento, qualquer força que ele já teve sumiu de seu corpo.

Mesmo assim, isso não justificou nada, e nunca vai justificar… Para sempre ia ser um peso na vida dele, e ele sabia disso.

Akira não conseguia ficar calmo; ainda assim, ele também não conseguia se mexer, então tudo que o jovem pode fazer naquela situação foi somente ouvir tudo…

Preck, preck, preck…

O quarto voltou ao silêncio; por pouco tempo, é claro… Logo a voz do “casal” retornou; nada mudou novante, o os dois continuavam da mesma forma… Lucas? Do mesmo jeito… Emily? Do mesmo jeito… Akira? Do mesmo maldito jeito…

N-não…! Espera um pouco… Que tal… UGH?! Lucas…!

Emy… você tá com medo?

C-claro! Lucas… eu não quero isso… Isso tá me assus…

Por que você tá com medo de mim? Não precisa disso…

Lucas… me ouve… isso é errado; me solta… tá doendo…

O quê?

Me solta, Lucas… Isso já deu; já deu pra mim… eu não vou… eu não quero… Me solta, agora… Eu não vou fazer isso; é serio, eu tô falando serio… Me solta… por favor… UGH!!! ME SOLTA, ME SOLTA! LUCAS… DEU, PARA COM… ARGH!!!

Emy… não me obriga a…

Lucas…

Não… não adianta… Emily, eu sei o que é bom para nos dois… Não me obriga a fazer isso a força…

O quê…? Você não… Não… não.. Lucas, não me diz que você…

Já disse… fica quieta…

Por favor… não…

Hehe… Eu esperei tanto por isso…

Ah, sim… aquele som molhado de beijo voltou… de novo, sem ser reciproco…

Akira estava atrás de respostas… e ele tinha finalmente achado elas.


“NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! ISSO NÃO É REAL…!”

É real, Akira… Você sabe disso melhor do que ninguém.

Preck, preck, preck…

“Eu… tô enlouquecendo… Só pode ser isso… Ele, ele não… NÃO! POR QUÊ?!”

Não, você não está enlouquecendo… Você sabe disso…

Preck, preck, preck…!

Akira não podia mentir para si… Não, na verdade ele já estava fazendo isso a muito tempo… e isso era a mais pura e cruel verdade que ele estava sendo obrigado a engolir…

O jovem foi alvejado por aquilo sem nem perceber; isso era o que fazia ele se sentir cada vez mais tenso; cada vez mais ansioso, cada vez mais… culpado? Aquilo… era culpa dele? Se não… por que este sentimento perpetuava tanto em sua cabeça…?

“Deus… o que eu faço?! O QUE EU FAÇO?! Eu não posso deixar isso acontecer… Mas o que eu posso fazer? Pensa Akira… PENSA! Eles… Ela é sua amiga… você não pode deixar algo assim acontecer… PENSA, PENSA, PENSA!”

Preck, preck, preck!

Akira, enfim, surtou… Sua mente virou um amontoado de possibilidade e variáveis; seu mundo pareceu desabar em sua frente, mas a única coisa que continuava em pé é aquele quarto… aquele maldito quarto…

Akira pensa, pensa e pensa, mas nada parece dar certo; nada parece que vai ser funcional… No fim de tudo isso, o jovem não tinha mais nenhuma escolha… Na verdade, ele não tinha nenhuma escolha desde sempre…

“O que… o papai faria…? N-não! Fazer algo como ele aqui não é uma escolha… E-eu não vou fazer as idiotices dele… O Leon…! Ele… ele não faria nada… E mentiria no dia seguinte… Eu… não quero fazer isso… Eu não posso fazer isso… Deus… por quê? É só eu entrar… É só eu entrar… ENTRA!!!

Preck, preck, preck!

Mais uma vez, um surto… porém, dessa vez não era só sua mente que trabalhava; todo seu corpo foi envolto pelo desespero… Claro, isso não era bom; Akira queria invadir aquele lugar, queria gritar, socar, xingar… mas nada aconteceu; era apenas ele, sua mente surtante e seu pé batendo no chão cada vez mais forte…

Preck, preck, preck!!!

Isso… foi alto; até demais… e como Akira descobriu isso? Bem… por Lucas.

Ah, merda… acho que tem gente aqui perto…

O… quê?

Não se preocupa, meu bem, eu cuido disso… Fica quieta e eu resolvo tudo…

L-Lucas…

Quieta.

Akira, Akira… deveria ter tomado mais cuidado; já era tarde da noite e você fazendo barulho nos corredores?

Step, step, step…

“Puta que pariu… já era.”

Hunf… realmente, já era.


Um, dois passos… ele estava se aproximando.

“Tá… se acalma Akira, se acalma… Você vai resolver isso, não se preocupa… Apenas… seja você mesmo…”

Três, quatro passos… e você realmente acredita que vai?

“Eu… acho que…”

Não… Com um simples puxão, a porta do quarto abriu com tudo; nisso, uma cara muito familiar é vista saindo de dentro do lugar…

Lucas estava… normal…? Suas roupas ainda estavam ali — um pouco amassadas, é claro —; seu olhar não parecia preocupado, pelo contrario, Lucas estava até sorrindo ao ver ser amigo… e que sorriso… Akira nunca iria esquecer o quão aquele sorriso era… falso.

— Oh? Oi, Aki! Já tá voltando pro seu quarto? — questionou o loiro. — Friozinho bom, né?

— Ah… sim…? Eu acabei de…

— Vem cá… você ouviu alguma coisa?

— O-o quê?!

— Ah? Ah! Nada, nada! É que eu acho que tá tendo alguma coisa no andar de cima, deve ser a galera de lá fazendo algo, né…? Sabe como eles são; o Henry ama uma oportunidade de fazer bagunça…

— Ah… Acho que não… Eu não ouvi nada…

— Jura? Caramba… que sor… Digo! Que estranho, né…?

Akira observou Lucas como nunca havia feito… Não, era o contrário, Lucas observava Akira como nunca havia feito; ambos não sabiam o que fazer naquela situação, mas somente uma deles sabia como sair daquilo vitoriosamente.

Lucas mentiu na cara dura… não fazia mal fazer isso mais um pouco.

Akira já havia discutido hoje… não fazia mal fazer isso mais um pouco.


— Mas bem… 'cê deve tá com sono, né? Eu só tô terminando de arrumar meu quarto e já vou dormir! Então… se me der licença, falta só eu terminar de arrumar meu armário! — disse Lucas, tentando volta lentamente para o interior do quarto… mas era claro que isso não ia acontecer.

Akira tinha uma única chance, e ele não podia perdê-la…

Lucas… o que você tá fazendo com a Emily…?

Lucas travou com a fala de Akira; ficou óbvio para os dois como aquela conversa continuaria, e infelizmente, não era de forma pacífica.

O garoto ficou parado por um instante, uma respiração pesado ecoou pelo corredor, e com isso, Lucas começa lentamente a se virar; por fim, com um olhar um tanto quanto morto, disse…

— O que… você quer dizer com isso? Ela… nem tá aqui.

— Não… se faz de idiota, eu ouvi a conversa… O que tá acontecendo dentro desse quarto?

Eu já disse… tô arrumando ele…

— Não… você não tá fazendo isso… O que você tá tentando fazer com a Emily?

— Isso não é da sua conta… Ela tá bem, eu vou deixar ela bem… Não se intromete.

— Lucas… que merda você tá fazendo? “Isso não é da sua conta”? Fala sério… isso só fortifica ainda mais minha preocupação… Me responde, que merda você tá fazendo com a Emily?

Akira… de novo, isso não é da sua conta.

— Serio mesmo? Tá bom… Sai da frente, eu vou checar por conta própria.

Akira avançou, passou por Lucas e se aproximou da porta… entretanto, assim que ele colocou sua mão na maceta, teve seu pulso puxado de forma grosseira pelo loiro, que logo fez questão de trancar a porta.

Akira, esse é meu quarto… Você quer mesmo arrumar briga no seu primeiro ano aqui…? — contestou Lucas, apertando a mão de Akira. — Akira, eu te dou uma chance… Esquece o que você ouviu aqui, e você continua sua vida normal… Se não…

Ah, não! Nem vem com essa… Se não o quê?! — exclamou, tirando a mão de Lucas de seu pulso. — Você sabe por que eu tô aqui?! Acha mesmo que uma ameaça boba como essa vai me fazer mudar de ideia?! Lucas… eu nunca tive medo de você… e eu nunca vou ter… Sai da minha frente, agora.

Ah, ótimo… vai meter uma de durão agora? Você não tem medo de mim? Ótimo, eu também não tenho medo e você…

Lucas respirou fundo e encarou Akira… Aquilo não era um olhar qualquer, era uma ameaça, e era claro que Akira iria retribuir da mesma forma.

Ambos estavam no mesmo barco; quem caisse primeiro se afogava, e cair não era uma opção de nenhum… Não importa o quão eles forçassem a si, nenhum ia ceder… Nenhum queria ceder… Nenhum podia ceder.

Parecia tanto que aquilo ia acabar ali mesmo; Akira apenas se virou novamente para direção da porta, pegou mais uma vez na maçaneta e… de novo, teve sua mão puxada a força… porém bem mais forte e arrogante do que antes.

Akira é empurrado em direção à parede; Lucas o jogou com toda a força nela, e ainda segurando sua mão, puxou a gola de sua camisa, ficando cara a cara com Akira.

O rosto do loiro era algo complementar diferente desta vez, e, além disso, seu olhar fixo em Akira fez aquele ar tênebra de ameaça ser fortificado ao máximo… Pela primeira vez em um mês inteiro, sua cara expressava uma raiva nunca vista antes… e para complementar, um lindo e sádico sorriso tornavam aquela vista do inferno inesquecível.

Era uma cara nova… Akira nunca havia avisto Lucas tão… assustador.

Escuta aqui, você acha mesmo que vai conseguir me deixar com medo? Já reprovei uma vez aqui, e eu não ligo pra reprovar de novo… E afinal de contas, o que você acha que vai fazer com uma informação dessas? Falar pra alguém…? Haha… HAHAHA! Por favor… Akira… quem vai acreditar em você? Quem vai acreditar num Zé-ninguém falando marda do anjinho dessa merda toda…? É sua palavra contra a minha… e você sabe qual é a mais forte… E nem vem gritar por ajuda ou algo do tipo, ninguém da merda desse corredor vai ajudar um filha da puta aleatório como você… Pelo contrário, quer brincar sobre isso? É bem capaz deu dizer algo com: “ain, ain, o Akira tava querendo fazer alguma coisa com a Emily…” e eles fazerem meu trabalho de te espancar por ser a porra de um xereta… Ninguém aqui tá do seu lado, imbecil…

Acada palavra dita Lucas colocava mais força em suas mãos; sua cara ficava cada vez mais tensa e sua voz cada vez mais sádica… Se era aquela a “verdadeira” face de Lucas, era algo tenebroso, algo… surreal…

Ah… e respondendo sua pergunta… Eu vou fazer o que eu quiser…. Ela é minha namorada, e quem tem que cuidar dos problemas dela sou eu… Ninguém aqui vai ligar para o que acontecer com ela; ninguém aqui vai ligar para o que vai acontecer com você se continuar nisso… Era para todo mundo só se fingir de normal, mas tudo isso pra vai pro caralho quando idiotas como você ouvem merdas por aí… e só por conta disso se acham na droga do direito de se fingir de heroisinho nessa porra… Advinha? Não tem como você ser um heroi nessa merda… e sabe por que? Por que você já tá aqui, você tá nesse inferno… Herois não vão para o inferno.

Lucas… me solta, se não eu vou fazer você engolir cada palavra como se…

Akira, quem você pensa que é pra falar algo de mim? Ainda mais pra me dar carão… Você não sabe de nada… e vai ficar assim até quando ver com seus próprios olhos… Acha mesmo que isso é algo ruim? Comparado com tudo que acontece aqui, isso é um problema para você? Vem cá, sabe aonde tá o último cara que tentou vir pra cima de mim?! Pois é… eu também não! O desgraçado não deve ter aguentado a verdade que é viver nesse inferno e se matou… Então, não vem tentar fazer que nem esse imbecil… Ah! E me faz um favor? Sai da minha frente se não quiser que isso piore pro seu lado…

Você sabe que ela tá ouvindo.

E eu me importo com isso? Eu tô no controle… ela vai fazer o que eu achar melhor; é apenas mais um objeto, assim como você já foi um… Ela e nem você podem fazer nada contra o que eu quero… Agora, sai da minha frente antes que eu faça você vomitar sangue…

Enfim, Lucas soltou Akira; o mesmo, por sua vez, ficou desnorteado no exato mesmo lugar que já estava… Tudo… foi tão rápido; Lucas foi tão curto e sincero com suas palavras… Isso já não era uma dúvida; isso já não era uma respostas; isso era uma realidade crua e cruel que fez Akira sentir mais uma vez a mesma raiva que sentiu naquele dia… Mas, por que desta vez ela não queria sair?

Lucas se virou e começou a voltar para seu quarto… Akira, por sua vez, observou aquilo assustado; com medo; tremendo… Por algum motivo seu corpo não queria se mexer mais, ele só não respondia ao enorme desejo de partir para cima de Lucas… Talvez aquilo fosse por sensatez, afinal, o garoto estava certo quanto disse que ninguém acreditaria em Akira… Em comparação, Akira era apenas uma sombra sobre Lucas; e se Lucas dissesse que ele está mentindo, todos acreditariam.

Passo a passo Akira viu Lucas se aproximar daquele quarto com uma cara de satisfação; a única coisa que passava na sua cabeça era… como aquilo havia acontecido? Foi tão… brusco; tão rápido… Foi estranho, isso… poderia ser verdade? Ou a insanidade que tomou conta de sua cabeça havia feito ele imaginar coisas? Independente da resposta que ele recebesse, já era tarde de mais para qualquer coisa…

Ali foi quando tudo ficou claro; quando Akira notou que tudo que ele ouviu sobre Lucas era realmente verdade… e cruelmente ele teve que aceitar tudo isso justamente no primeiro dia que ouviu esses boatos… justamente na sua noite inesquecível…

Bem… no final das contas, aquela noite realmente nunca sairia da cabeça do garoto…

Ainda tremendo, Akira se escorou na parede… Não havia nada, ou pelo menos ele não conseguia pensar em nada sobre o que fazer naquela situação… Seu coração batia rápido; sua respiração era incontrolável; sua mente, por algum motivo, só conseguia pensar em métodos para sair dali… Mas por quê? Akira conseguiria facilmente interromper aquilo, ele desde pequeno treinou por obrigação do pai, e mesmo que de forma obrigatória, usar violência naquela hora era provavelmente a única escolha que poderia resultar em algo bom… Mesmo assim, Akira não conseguia.

Poucos segundos depois disso a ideia de “se eu tentar algo e falhar?” ou “se me pegarem e eu tomar a culpa?” tomou conta de sua cabeça; e essa mesma linha de raciocino não o deixavam agir… O achismo em sua mente era maior do que qualquer coisa… E então… Sem mais escolhas… ele saiu…

Ou pelo menos era isso que ele queria fazer…

Com poucos passos, no mesmo momento que Akira passou por Lucas, mais uma vez ele sentiu o mesmo que sentiu quando zombaram da morte de sua avó… Era ódio; angustia; culpa; tristeza e a vontade interminável de voltar sobre tudo até agora… Mesmo que o contexto fosse diferente, Akira tentava manter aquela raiva para si; ele sabia que se tentasse algo tudo poderia acabar de uma forma que ele não queria… mas… às vezes o coração age na frente do cérebro; como desta e da última vez.

Akira, sem perceber, se virou bruscamente para direção de Lucas; naquele momento ele deixou de lado qualquer lógica possível, confiou somente na grande euforia, deixando aquela sensação tomar conta dele mais uma vez…

Akira segurou Lucas pela gola, e assim como foi com ele mais cedo, pressionou o loiro na parede com toda a força possível… A ideia era a mesma: Akira queria e iria espancar Lucas assim como fez com aquele outro garoto… nada importava; ele só ia fazer o que achava certo… e assim foi feito…

Akira socou Lucas, não uma, não duas, mas três vezes; ele não teve pena, e talvez foi isso que o fez parar… Antes mesmo de qualquer coisa, lá estava ele, na mesma situação que em Frostfall; a unica diferença era que ele havia parado antes do pior acontecer… Mais uma vez, o sangue em suas mãos travou o garoto com tudo; mas não só isso, como também a forma que Lucas reagiu sobre aquilo… Bom, ele não fez nada… apenas olhou Akira; viu ele parar, viu ele ficar com medo mais uma vez; medo do que fez, medo do que pode acontecer depois disso… Lucas sorriu, e mais uma vez, mesmo com seu resto machucado, manteve a mesma cara sádica de antes.

Medo, não é? O que você havia dito mesmo, na verdade? “Você sabe por que eu estou aqui” ou algo do tipo, né? Deixa eu adivinhar: você surtou, assim como agora… Toda essa força é só momentânea, você não consegue seguir com isso, não é? Eu disse, você não deveria ser xereta… Você não consegue se controlar, quem dera controlar essa situação… Akira, não adianta, você sabe disso.

N-não… eu não…

Então vai, continua, me bate; me monstra que estou errado, eu duvido disso… Você não é capaz… ficou com medo por conta de um pouco de sangue como esse? É serio mesmo? Deixa eu te ensinar uma coisa… Psf… Você sente esse cheiro? É bom se acostumar com ele; faz dele seu perfume… ele vai ser frequente na sua vida a partir de agora.

Melancolia era a unica palavra que definia aquela cena; talvez Akira estivesse mal por não conseguir continuar aquilo, ou talvez Lucas estivesse mal por perder um amigo… No fim, quem liga? Os dois ficaram ali por um tempo, apenas se encarando sem mais motivos para continuar aquilo…

O loiro não resistia, só olhava para Akira com uma cara apatica e um sorriso sádico… uma mistura quase impossível, mas que de alguma forma estava ali.

Akira permanecia quieto, sua respiração estava finalmente começando a ficar pesada, além disso, o mesmo já não conseguia pensar em nada; nada além de… querer sair dali; querer esquecer tudo isso; querer… voltar…

Ainda assim, o garoto respirou fundo juntando forças para dizer algo; ele não podia cair daquele barco, ou melhor, se fosse para ele cair, ele levaria alguém junto… e esse alguém era Lucas.

Akira olhou para baixar por um instante, isso mesmo sabendo que Lucas poderia fazer algo… mas isso não importava; Akira parou pensar um pouco, e quando finalmente pensou em algo…

Eu nunca mais quero ver sua cara na minha frente… Se você fizer qualquer coisa, seja contra a Emily ou contra a mim… eu… não vou fazer que nem agora e… ficar nesse seu joguinho… O Rafael tava certo quando me disse sobre você; primeiro aquele racismo imbecil na cantina, agora isso? Lucas, que tipo de vida você leva nesse lugar, afinal?

Que tipo de vida eu levo? Ora… uma vida completamente tranquila com meus amigos… Mas, como você já não faz parte deles por conta do Rafael, deixa eu te dizer uma coisa… você lembra daquela conversa na cantina? Poisé… Akira, cores importam… mas não pra mim… para eles; todos desse corredor, todos desse andar… quando que você viu um negro por aqui? Nunca… e sabe o motivo disso? Por que eu tomo conta para pessoas como aquelas não aparecerem por aqui… Eu não ligo para aquele preto fudido mesmo; não ligo se ele é ou não branco… mas eles ligam… Então, que tipo de vida eu levo? Bom… de um rei, mais nada… apenas, um, rei.

Você tem sorte… mesmo… Se eu pudesse, não, se eu quisesse poderia acabar com isso aqui e agora… mas… eu… Eu não vou me rebaixar a esse ponto… Se tem alguém certo aqui é o Rafael; você nem ao menos ligou para festa, né? Tava mais ocupado assediando a Emily, não é?! Por acaso sabia que as bebidas estavam batizadas?! Que um maluco fumante me ameaçou?! Vocẽ ainda tem a cara de pau de dizer que faz tudo isso por el…

Eu batizei…

O quê?

Uma festa de adolescentes… um internato sem diretora… Se não fosse a Emily poderia ser outra pessoa; se não fosse eu poderia ser outra pessoa… A gente tá em Bonfire, acha mesmo que tem anjinho aqui? Fui eu, Akira, eu batizei a bebida…

VOCÊ FEZ ESSA MERDA?! PORRA, IDIOTA, VOCÊ SABE O PODE ACONTECER? VOCÊ SABE O QUE ALGUM IMBECIL COMO VOCÊ PODE FAZER COM UMA GAROTA QUALQUER?! PUTA MERDA, LUCAS! VOCÊ TÁ ADMITINDO ISSO, É SERIO? VOCÊ TÁ REALMENTE TENTANDO ABUSAR DA…

Vai, me bate… termina com isso… Vai… faz o que você quer…

Ah, não… Akira não ia fazer aquilo; mas não por razões normais, ele tinha mais um motivo agora para bater um Lucas, todavia, todos eles eram menores que um único sentimento… Akira ainda continuava com medo; e talvez esse sentimento fosse vivível por lagrimas escorrendo em sua cara.

Hehe… Hehe… Covarde… Me lembrou até um velho amigo… Você não vai fazer nada comigo, e sabe o porquê? Por medo… Olha pra você, Akira… 'cê tá tremendo; nem se quer consegue fazer uma ameaça… Nem se quer consegue ficar em pé… O que você vai fazer? N-a-d-a… Nada… da mesma forma que todo mundo aqui… Acha mesmo que alguém se importa com ela? Comigo? Vamos lá, isso já acabou…

Lucas… Eu… nunca pensei que você podia ser assim… Isso me enoja, eu tinha uma visão tão…

Falsa… Você tinha uma visão falsa de mim, não é? Ah, por favor… chega dessa ladainha… Sabe quantas vezes eu já ouvi isso? O quanto essa merda já tá chata? Akira, você não é um idiota… e eu sei disso, então… me solta ou sua vida vai virar um inferno ainda maior… Eu não tô nem aí sobre o que você quer me dizer, entendeu? Foda-se esse draminha todo… quer ficar puto comigo? Beleza… você não é ninguém especial por isso; é só mais um qualquer nessa merda de lugar… Agora me solta, ou… você vai entender o porquê daquele andar inteiro me odiar…

Enfim, acabou…

Sem muitos esforços, Lucas segurou o pulso de Akira e o empurrou para longe… Akira vê aquilo e continua do jeito que estava; Lucas não faz mais nada além de se virar e voltar a andar para seu quarto…

“Por medo…”, hãn? Bom, aquilo era verdade; Akira, mesmo em um momento de fúria, continuava assustado com tudo aquilo… Era terrível e diferente de tudo que ele pensava que poderia acontecer… Seu corpo não se mexia mesmo com os gritos na sua mente dizendo e repetindo diversas vezes tudo que Lucas havia dito até então; seu corpo não se mexia mesmo co os gritos na sua mente de súplicos de ajuda… mas não de Emily, todos os súplicos eram do próprio Akira… Ele precisava de ajuda…

“Você é só mais um qualquer…”, não é mesmo? Aquilo também era verdade; Akira naquele momento pensava que poderia resolver as coisas como um super-herói de quadrinhos… mas não, no fim, assim como Lucas disse… Ele foi covarde e não faz nada, a absolutamente nada… além de que, ele também estava certo em outro ponto: nunca que um super-herói iria para um internato como Bonfire…

Akira teve a chance perfeita, mas como diria seu pai: lhe faltava um pouco mais de razão… No final de tudo, aquele “eu nunca vou ter medo de você” era só uma carta na manga que Akira tinha para por imponência na sua fala… Pena que isso foi em vão…


Ainda trêmulo e ainda querendo fazer algo, Akira tentou mais uma vez… mais falhou miseravelmente… Quando se viu, o jovem apenas começou a andar de forma apressada e desajeitada em direção ao seu quarto; sua mente naquele momento repetia a palavra “covarde” inúmeras vezes, e mesmo que ele respondendo “não”, ele sabia que no fim era verdade…

Era só agir como seu pai queria que ele agisse; todavia, um medo maior não deixava ele fazer isso…

“Idiota, idiota… Faz alguma coisa, faz alguma coisa!”

Ao menos, depois de tudo isso, Akira ainda estava consciente; afinal, ele nunca iria se esquecer daquele momento… do momento que, quando se viu, já estava na frente de seu quarto…

“Não, não, não! Por que eu tô aqui?! Volta… volta! Ajuda ela… Ele… Ele… Ele vai…”

Aquele frio da maçaneta era algo até que gostoso, mas ainda não mudava nenhum fato… Aquilo, na verdade, era como se Akira gritasse por ajuda; e no momento que ele ia abriu a porta de seu quarto, por um instinto maior, o jovem olhou para o lado; talvez com a ideia de volta, ou talvez só por precaução… Independente da ideia que ele tivesse, ela sumiu rapidamente, já que… lá estava ele… Lucas ainda estava lá; observando o garoto com um sorriso sádico, como se dissesse, não, gritasse, mais uma vez, “covarde”.

“Não… Isso não vai ficar assim… E-eu… vou fazer algo; eu vou fazer algo… Né?”

Não… infelizmente, não vai.

Mesmo do outro lado do corredor, Akira conseguiu ouvir uma pequena gargalhada do loiro; e logo depois um “bem-vindo ao inferno” vindo do fundo do corredor, e após isso…

Poderia dizer que algo a mais aconteceu, mas não… Após isso, o garoto entrou no seu quarto e tranca a porta… e mais nada.

“Eu… sou um inútil… Eu… deixei ela lá… Deus, o que vai acontecer? Me diz que tô confundindo as coisas, por favor… Se algo acontecer, eu vou… vou… Eu…”

Akira não conseguiu manter a calma; ele estava seguro, mas um outro alguém não… Lágrimas de desespero caiam de seus olhos, mas o mesmo nem ligava para isso…

As únicas coisas que foram ser ouvidas depois disso foram… os batimentos cardíacos de Akira, que se jogou no chão enquanto surtava, e uma voz no fundo do corredor que dizia algo como…

Emily… Oi, Eu Voltei…!